PESCAR AO RAIAR DO DIA

Para quem gosta de dormitar na cama até tarde, resulta incompreensível que existam pessoas que aceitem acordar ainda de noite para sair ao mar.
Como pode alguém sacrificar o seu descanso, o seu conforto, com o objectivo de garantir que estará impreterivelmente a pescar ao nascer do sol? Que razões poderão esses pescadores evocar para justificar esse “martírio”?
Há, ou não, motivos para que alguém saia a pescar muito cedo? A resposta é sim.
Penso que vão ficar surpreendidos com as razões pelas quais devemos mesmo sacrificar o nosso repouso, para começarmos a pescar bem cedo, aos primeiros raios de luz solar.


António Pradillo a pescar às 5 da manhã.


O nascer da alvorada traz consigo a promessa de um novo dia e novas oportunidades. O pescador sabe que tem de estar lá, no local, respondendo a um chamamento ancestral que será muito mais do que apenas intuitivo e instintivo. Cedo é bom. É algo para o qual não temos explicação, mas sentimos que faz sentido, que tem de ser assim.
Falamos uns com os outros e invariavelmente chegamos à conclusão que sim, que cedo é mesmo bom. E porque será?
Há razões objectivas para isso. Os peixes têm mesmo muito mais actividade aos primeiros minutos do dia, isso é algo assumido por todos nós, sabemos que é assim, embora a maior parte das pessoas não o saiba explicar.
E esse é o primeiro conflito de informação: pensarmos que o peixe inicia a sua actividade quando a luz do dia surge. De facto, sentimos um incremento de movimento, de actividade frenética, nos primeiros 20/ 30 minutos a partir do momento em que os primeiros raios de aurora brilham no horizonte. Parece que sim, algo se inicia, começa a acontecer.
Permitam-me discordar. Aquilo a que estamos a assistir, que é real, acontece todos os dias, e que todos nós já experienciámos, essa explosão de actividade, pode não ser o princípio, mas significar sim o fim de algo.
O erro é pensarmos que o processo se inicia, quando na verdade, …acaba. Explico-vos porquê, abaixo.




Devemos tentar entender o fenómeno à luz daquilo que é a continuidade/ descontinuidade dos períodos nocturnos/ diurnos/ crepúsculos ascendentes ou descendentes.
Tenho para mim que muitos dos peixes que caçam durante a noite, (tirando partido da sua excelente acuidade visual e perfeita adaptação a situações de falta de luz), mais não fazem do que aproveitar as suas faculdades para caçar/ comer aqueles que não dispõem desses argumentos. Ter uma boa visão nocturna é uma arma poderosíssima, que rende dividendos a quem caça na penumbra.
Não ter bons olhos para ver no escuro é um handicap, uma fragilidade. É não ver, mas ser visto.
Em termos gerais, possuir uma vantagem sobre outros num mundo cruel como o meio marinho é factor decisivo de sobrevivência.
Todos aqueles que dispõem de uma habilidade que os torna mais aptos, superioriza-os, torna-os prevalentes sobre outros. Os peixes que podem, irão tirar partido disso, explorando à exaustão esse factor.
Se há peixes com actividade essencialmente diurna, todos aqueles que por um processo adaptativo foram caminhando no sentido de uma especialização de visão adaptada a altas intensidades de luz (peixes que vivem nas primeiras capas de água, muito próximos da superfície e por isso
directamente expostos aos raios solares), outros há que evoluíram no sentido inverso. Em ver bem em plena noite. E porquê? Porque beneficiam disso.




Tentemos entender quais as diferenças entre dia e noite para um peixe diurno. É certo e sabido que não poderão estar sempre activos, 24 sobre 24 horas.
Os peixes não mantêm ao longo de um dia completo os mesmos níveis de actividade e prontidão. Acalmam bastante à noite, embora não “desliguem” o seu interruptor de vida, porque não podem.
Pelos resultados da própria pesca, seremos capazes de dizer quais as espécies que têm maior prevalência nocturna ou diurna.
Todos aqueles que pertencem ao clube dos “peixes com actividade diurna”, descansam à noite. Não deixam todavia de ter as suas necessidades físicas durante o período nocturno, e estão preparados para isso.
Há períodos de descanso, mas não isentos de sobressaltos, que obrigam a níveis mínimos de alerta. Porque não têm pálpebras, não fecham os olhos, mas isso não invalida que o seu metabolismo e níveis de actividade não baixem drasticamente.
Vejamos qual o “arsenal” de armamento de que dispõem, para que consigamos posteriormente entender alguns detalhes.
Os peixes têm sistemas nervosos complexos, sendo o seu cérebro dividido em diferentes partes, passíveis de serem activadas ou desactivadas, em função das necessidades. Há sempre uma parte do cérebro a analisar dados.
As glândulas olfactivas, (contrariamente ao que acontece com a maioria dos vertebrados, que privilegiam a visão), são prioritárias em termos de informação.
O cérebro do peixe processa primeiro o sentido do olfato antes de todas as outras ações voluntárias. Seguidamente, são processadas as informações chegadas aos olhos. O cerebelo coordena os movimentos do corpo enquanto que a espinal medula controla as funções dos órgãos internos.
Assumimos nós humanos que os peixes diurnos possuem olhos eficazes, com visão colorida em gradiente de tonalidades. Possuem também células especializadas conhecidas como quimioreceptores, responsáveis pelos sentidos do paladar e cheiro.
Ao longo do corpo, uma linha de escamas perfuradas, ligadas por sensores nervosos ao cérebro, e designada por “linha lateral”, dá-lhes algo de que nós humanos não dispomos, e que consiste em receptores sensitivos.
Estes, permitem aos peixes detectar diferenças de temperatura na água, correntes eléctricas, vibrações, no fundo “movimento”, consequência das movimentações de outros peixes, predadores e presas, que andam por perto.
Não será tudo, mas é uma arma utilizável. E que permite desligar outras áreas do cérebro, permite descansar. E como descansam?


O cherne é um predador que vive em zonas onde a luz solar já não chega. Estes peixes adaptam-se a caçar às escuras, e são muito bem sucedidos.


O peixe estabiliza a sua posição, através do equilíbrio da bexiga natatória, introduzindo mais ou menos gás no seu interior para que mantenha a posição estável à profundidade escolhida. Isso pode acontecer em qualquer nível das várias camadas de água. Não podemos pensar que todos os peixes “dormem” encostados ao fundo, até porque alguns deles vivem em zonas onde nunca conseguirão chegar a esse fundo.
Curiosamente este é um tipo de informação que não abunda, o mar à noite ainda tem segredos. Pelos mergulhos nocturnos que fiz, necessariamente a profundidades limitadas à minha capacidade pulmonar e às condições do próprio mergulho em si, mais difícil e inseguro, esse é o padrão, a maioria dos peixes encostam a objectos, estruturas, mas outros ficam simplesmente a planar, a meia água. Ficam num estado de letargia, imóveis, e esperam que o tempo passe. Não reagem à nossa aproximação.
As guelras continuam a movimentar-se, mas existe uma redução substancial dos movimentos das barbatanas e dos batimentos cardíacos. Este período de acalmia é importante no sentido de permitir recuperar o peixe, repor as suas energias, em suma, descansar.
No entanto, mesmo a “dormir”, leia-se baixando o seu ritmo metabólico, o peixe está suficientemente alerta, pronto a defender a sua vida. Pode é acontecer que outros habitantes do mesmo meio líquido, por contraste, estejam no seu pico de actividade, (peixes essencialmente nocturnos) e por isso mesmo, mais capazes de desferir ataques mortais. Não tenho dúvidas de que grande parte, se não a totalidade, dos peixes nocturnos têm a capacidade de detectar as suas presas através da visão. Sabemos que outros factores entram em acção, o olfacto, a linha lateral sensorial, mas a visão conta muito, certamente.
Num meio em que nada é garantido, em que cada dia é mais um dia de luta pela sobrevivência, convém pensar que é um erro dividir o dia e a noite. São apenas períodos diferentes de uma só unidade, a cara e coroa de uma só moeda, e nós pescadores, lúdicos ou profissionais, encarregamo-nos de fazer ver aos peixes que não devem facilitar.
As batimétricas a que os peixes se obrigam para conseguirem alimento, não são muito diferentes daquelas que nós humanos exploramos incessantemente, dia após dia, com as nossas redes de emalhar, os nossos aparelhos de anzol, os nossos arrastões.
Na verdade, até algumas centenas de metros, nenhum peixe poderá sentir-se verdadeiramente seguro, porque nós humanos fazemos com que nenhum lugar seja suficientemente remoto. Temos, por estranho que nos pareça, um impacto grande na vida dos nossos peixes.




Quase poderíamos considerar que a camada de água que se mantém como zona fótica, com luz vinda da superfície, é uma pele fina, onde a luz consegue penetrar.
Até esse limite, há produção de fotossíntese, as plantas podem viver, nomeadamente o fitoplâncton, e os animais marinhos que delas se alimentam podem viver, leia-se zooplâncton.
Abaixo disso, é o breu absoluto, e por isso mesmo, os processos adaptativos surgem obrigatoriamente. Muitos peixes que vivem em zonas de penumbra, acabam por fazer migrações verticais, e vêm comer acima, aos primeiros metros de água.
Outros fazem predação de outras espécies que vivem também nessas profundidades. O acto predatório é uma constante, comer e não ser comido. Come-se muitas vezes em excesso, quando as garantias de próxima refeição são escassas. Por vezes ficamos surpreendidos com a gula de um peixe que tendo o estômago cheio, se lança às nossas amostras. Para não comerem, ou demonstrarem pouco interesse pela comida, os peixes têm de estar mesmo replectos de comida.
Pensava nisto quando há dias observava dois pampos (balistes capriscus) a “debicarem” um caranguejo pilado, à superfície. A arribada de pampos que está neste momento a chegar à nossa costa, fez porventura centenas ou milhares de quilómetros de deslocação, e gastou energias nisso.
Chegam magros, necessitando de comer para ganhar algum do peso perdido. Todavia, estes dois peixes apenas mordiscavam o caranguejo, para eles, possuidores de uma dentição fortíssima, um aperitivo frágil e fácil de engolir. Pois os peixes deixaram ir o caranguejo, intacto, sem lhe causarem danos, tanto quanto me foi dado observar. Seguramente os estômagos estavam demasiado cheios, sem espaço para mais, pese embora os peixes ainda estivessem em mar alto, a chegar. Teriam eventualmente comido outros, anteriormente.
Nós nunca sabemos o que aconteceu antes, não temos todos os dados, e por isso temos dificuldade em entender as razões desta interação entre peixes. Que forçosamente existe, num mundo em que o acto de capturar, comer ou escapar com vida é uma constante na relação caçador/ presa.
Falo-vos de peixes que nitidamente estavam a terminar a sua migração em distância, de um para outro ponto. Mas também há migrações verticais, e essas são diárias.
Eis chegado o momento de fazer o ponto de ligação com a nossa amada pesca à linha.
Tomemos como exemplo a sardinha. É de todos sabido que se trata de um peixe que faz migrações verticais, nocturnas, passando dos habituais 100/ 120 metros de profundidade para cotas a rondar os 20 a 30 metros.
Também sabemos que reage à luz, mesmo que artificial, aproximando-se desta. Por isso se pesca à noite com tanta facilidade. Os cardumes, com milhares de exemplares, passam a noite a alimentar-se em águas superficiais, de algas ou pequenos crustáceos, e afundam de dia, protegendo-se dos predadores que vivem nas primeiras capas de água. O ciclo é o inverso ao nosso movimento de pesca. Quando nós chegamos, ao raiar do dia, elas estão de abalada, direitas aos seus fundões de segurança, onde aguardarão a próxima noite.




Adivinhem quem, para além de nós, estará altamente activo precisamente durante esse curto período em que os primeiros raios solares surgem?
Quem é que tem de aproveitar esses derradeiros momentos, antes que aconteça a debandada geral? Sim, os peixes predadores, que se alimentam de sardinhas.
É precisamente neste momento que os nossos pargos, os sarrajões, os robalos, etc, concentram as suas atenções e procuram não falhar. Este é o momento de recorrer a todas as armas, estar muito atento, marcar posição próxima junto dos cardumes. Conseguir pressionar os pequenos peixes à superfície, mantendo-os entre a “espada e a parede”, ou seja, entre o predador, ou conjunto de predadores, e o espelho de água da superfície, é um bom princípio.
Quantos de nós não assistiram já a grandes manchas de sardinha e outras espécies de comedia, a fervilhar na linha de água? Adivinhem quem os empurra para cima, quem os faz saltar de aflição?!
Todos sabem que, se para uns o momento é para partir, para outros, o surgimento do primeiro raio de sol significa ter forçosamente de aproveitar a última oportunidade para caçar, para conseguir alimento que vai partir, que daí a minutos já não estará disponível.
As sardinhas irão cumprir a sua migração vertical diária, deslocando-se para fundos onde serão menos atacadas, (na verdade os cardumes nunca têm um momento de paz, mas relativizando, quanto mais baixarem mais longe estão daqueles que caçam à superfície). Outros as esperam... mas menos, porque a maior concentração de vida, leia-se também predadores, encontra-se nos primeiros metros de água.
O mesmo se passa com as arribadas de lulas pequenas, e com muitos outros seres que aproveitam o escuro da noite para subir, por vezes centenas de metros, para se alimentarem, sabendo que a alvorada marca o timming de sair, de escapar com vida de um espaço que não conhece misericórdia. Nós humanos, que temos condições para poder fazer um sono descansado, temos muita dificuldade em entender como é possível estar presente num mundo em que a cada momento se pode perder a vida. Tendemos a humanizar um processo de vida alheia que está longe dos nossos níveis de segurança, que exige uma atenção contínua, porque a cada instante algo pode acontecer.




Assim, e se nos cinjirmos apenas às sardinhas, poderemos conseguir entender a necessidade de os nossos caçadores estarem particularmente activos nos primeiros minutos do dia. Estão a aproveitar as derradeiras oportunidades de conseguir alimento rico em amino-ácidos, gordura, proteína, disponível em quantidades quase ilimitadas.
Outras possibilidades surgirão durante o dia, um predador tem um manancial de presas à sua disposição que excede em muito a nossa imaginação, (vejam e analisem os estômagos do peixes capturados!) mas a presença de cardumes de comedia tão fácil, tão isenta de riscos, é algo que apenas voltará daí a 24 horas. Por isso há que aproveitar a saída das sardinhas, e estar preparado ao final do dia, quando a noite cai, nos mesmos locais, aquando da sua chegada.
Períodos do dia, a alvorada e o pôr do sol, os quais, meramente por acaso, coincidem com os nossos melhores resultados de pesca, …é isso?...




Falamos pois de um processo que conhece um pico de actividade, provocado pela necessidade de aproveitar os derradeiros instantes, de garantir um resultado alimentar que, de forma tão favorável, só se volta a verificar na manhã seguinte.
Levantarmo-nos da cama cedo, garante-nos que iremos estar presentes e ser protagonistas num dos momentos do dia em que os peixes que procuramos estarão mais activos.
Depois de terem comido, bem podemos passear-lhes as nossas iscas e amostras pela frente da boca, que o resultado será sempre mais curto. O “hoje estão a morder mal” tem muitas e boas explicações...



Vítor Ganchinho



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