COMO CAÇAM OS PEIXES? - CAPÍTULO II

Por facilidade de entendimento, iremos considerar um predador típico, o robalo, sendo que poderíamos extrapolar este conceito a muitos outros peixes, que fazem a generalidade da pesca que praticamos no nosso dia a dia.
Basicamente as diferenças entre as diversas tácticas de caça, situam-se ao nível da permanência, mais ou menos estática, sobre a pedra.
Os pargos têm uma atitude mais calma, encostam com alguma facilidade a uma estrutura, preferem a permanência junto ao fundo, mimetizados ao máximo com as suas cores rosadas. São virtualmente invisíveis quando a água tem alguma suspensão.
Já aqui vos disse que um pargo a partir de uma determinada profundidade, é algo de estranho: aparecem duas manchas brancas, precisamente as manchas que o pargo comum tem na cauda. O resto... é invisível.
Mas se os pargos preferem deslocações suaves, colados ao fundo, e por isso mesmo atacam os nossos iscos e amostras na primeira dezena de metros a partir do solo, preferencialmente até aos primeiros cinco metros, os robalos optam normalmente por uma outra táctica.




Sobrevoam a pedra, mais altos, na maioria das vezes a uns 10/ 15 metros do solo. Se quiserem, em termos genéricos, o espaço de caça de uns começa onde acaba o dos outros. Devem entender a ideia como um conceito geral, não significa que não possamos ferrar robalos colados ao fundo, ou que não existam possibilidades de conseguir pargos bem alvorados, a muitos metros do fundo. Mas o padrão não é esse.
Digamos que o sistema funciona por patamares, sendo o dos pargos o primeiro, o dos robalos o segundo e ainda existe um outro, que se encontra bem mais próximo da superfície. E quem são eles?
Os atuns sarrajões bordejam a pedra, procurando oportunidades no limite desta com a areia, a meia água, um pouco abaixo daquilo que costuma ser a cota de trabalho das cavalas. Assim sendo, se os quisermos encontrar, devemos estar atentos à sonda, e quando a pedra acaba, ver se existem manchas no seu bordo, a poucos metros da superfície. São muitas vezes confundidos com cardumes de cavalas, mas na verdade, aparecem-nos numa coloração mais densa, mais escura, nas sondas a cores aparecem a laranja, ou mesmo a castanho, dependendo do seu tamanho.
Isso tem a ver com a densidade do peixe, e do eco que isso provoca nos sensores da nossa sonda.
Os sarrajões são comuns em algumas épocas do ano, e podem facilmente atingir pesos na ordem dos 3 a 4 kgs.

Temos pois que os peixes têm áreas de caça que exploram de acordo com as suas características físicas, tirando partido, ou do seu arranque abrupto, ou da sua capacidade de natação rápida continuada.
Se uns preferem a emboscada, outros deslocam-se incessantemente no sentido da corrente, procurando e explorando fragilidades daquilo que possa existir no local, normalmente cardumes de pequenos peixes que se alimentam daquilo que a corrente lhes traz.
Alguns deles utilizam estratagemas de camuflagem que são muito interessantes de observar. Os robalos mais pequenos misturam-se no meio das tainhas, e seguem-nas, ao mesmo ritmo de natação preguiçosa.
Quando as tainhas, na sua incessante tarefa de raspagem dos fundos, levantam algo, por exemplo um caboz, o robalo, a coberto da inadvertida confiança que as pequenas presas dedicam ao mugilídeo, atacam repentinamente e conseguem caçá-los.


Os cabozes são presas muito frequentes para diversos predadores. Proteína sem riscos... no tamanho certo.


Os lírios, por exemplo, preferem o mimetismo que lhes confere a sua tonalidade cinza clara, parecida com a dos pampos, para, confundindo-se com estes, ganharem a confiança dos peixes que se aproximam confiantes.
Pequenas bogas, carapaus, galeotas, em suma, tudo aquilo que nade nas imediações e acredite que estar próximo de peixes lentos é seguro. É um erro, os lírios são por sinal bem rápidos... mas confundem-se com os pachorrentos pampos.
A atitude dos predadores não difere demasiado, uma primeira aproximação discreta e por fim um ataque fulminante e decisivo. Nisso, são quase todos muito iguais.
Aquilo que conta nesta circunstância é a estimativa que o predador faz da quantidade de energia que prevê gastar para assegurar a captura e o aporte de energia que essa presa pode proporcionar-lhe, após digestão.
Esta é a grande bitola que define o sim ou não, a tomada de iniciativa de ataque, ou o passar ao lado, e esperar por outra oportunidade.
Um caboz, por exemplo, enquadra-se perfeitamente no tipo de presas, sem riscos, que pode justificar a tomada de uma iniciativa por parte de um pequeno robalo.


Quando já ligeiramente decompostos, aparecem dentro dos estômagos numa tonalidade branca. Analisando bem, em detalhe, é possível entender que se tratam de cabozes.


Mas isso só será válido para peixes até um determinado tamanho. Digamos que um robalo de 8 kgs não se sentirá tão tentado a avançar para uma presa que não lhe pode dar um grande retorno, entre gastos e proveitos.
Esses robalos estarão mais próximos de se sentirem tentados a encontrar uma tainha, uma boga, um carapau de boas dimensões. As presas procuradas também variam de acordo com a temperatura das águas. Já aqui vimos que no Inverno a tentação por exemplares de maior porte é o padrão, enquanto na Primavera e Verão é exactamente o oposto.
Águas frias exigem mais desgaste energético, logo mais gorduras acumuladas.


Estes cabozes são incomodados e muitas vezes forçados a abandonar as suas tocas e posições debaixo das algas por peixes como as salemas, ou tainhas. Os robalos estão sempre à espreita de uma oportunidade.


A pesca do robalo evolui ao longo do ano, não só porque ele está em permanente mutação de regime alimentar, de câmbio de zonas de permanência, mas também de necessidades fisiológicas.
Os factores que influenciam as suas deslocações são cada vez mais conhecidos e aquilo que espanta é que ainda existam peixes para pescar.
Se há pessoas que acham o mar muito grande, isso advém de saírem poucas vezes à pesca, ou de terem uma visão limitada daquilo que é a dinâmica dos cardumes, e dos perigos que os espreitam a cada momento.
Na verdade, se essas pessoas considerarem a dimensão da nossa costa e a quantidade de portos de pesca profissional, e a consequente saída de embarcações para a faina do mar, vão ver que os espaços mortos não são nenhuns.
A este problema acresce a mobilidade da pesca embarcada lúdica. Considerando tudo isto, verão que o mar não é assim tão grande. De facto, acaba por se tornar demasiado pequeno para tantos quilómetros de rede, de arrasto, de aparelhos, de gaiolas, de linhas e anzóis.
Soma a tudo isto a predação natural, e se quisermos complicar, a própria limitação das temperaturas das águas.
Para peixes costeiros, nada deve ser mais desapontante que ver o acesso à comida que está exposta nas pedras em zonas de marés, e não ser capaz de lá chegar, por força de uma rede estendida a poucos metros da rocha.
Os peixes são altamente condicionados nas suas movimentações naturais pela actividade humana, e é um erro pensarmos que há sempre mais peixes, que estão sempre a nascer mais.
É verdade que sim, mas também na outra mão temos as toneladas de capturas feitas diariamente, e que visam sobretudo o peixe que está com capacidade reprodutiva.
Todos querem os grandes.



Vítor Ganchinho



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