PORQUE MIGRAM OS PEIXES DE LOCAL AO LONGO DO ANO? - CAPÍTULO II

Começámos ontem a tentar entender as razões pelas quais os peixes migram de uma zona para outra. Não deixa de ser uma arrelia para nós, um enorme contratempo, pois quando os descobrimos, e quando nos parece que sim, que finalmente vamos poder fazer uma sequência de pescas interessantes, os peixes saem, deixando o pesqueiro vazio, deserto. E porque será que acontece, qual o motivo? Porque saíram e para onde vão?!
A temperatura da água do mar representa na biologia e no desempenho físico dos peixes algo de muito importante. É mesmo um dos factores que mais os obriga a sair de uma zona, limitando-os de variadíssimas formas, desde a digestão à própria capacidade respiratória.
Para compreendermos melhor o fenómeno, concentremo-nos, por exemplo, na taxa de oxigénio dissolvido na água. Se por um lado a sua presença é proporcionalmente inversa ao regime térmico, (água mais quente significa menos oxigénio dissolvido) os processos metabólicos, pelo contrário, aumentam com a temperatura. O peixe estará mais apto a caçar em águas de Verão do que no Inverno. Sabemos que com águas frias quase não se movem, e quando aquecem, ganham vida e tornam-se rápidos, agressivos.
Por outro lado, quando em excesso, as águas quentes podem fazer mais mal que bem. Em situações muito específicas, esta situação pode levar a que os níveis disponibilidade de oxigénio para a respiração caiam abaixo das necessidades mínimas para a maioria das espécies.
E por isso mesmo, são obrigados a mudar de local de permanência, a migrar. É fácil imaginar que águas muito rasas, paradas, onde o calor do sol penetra muito rapidamente, aqueçam demasiado e por isso possam constituir um problema...
Em momentos de águas muito quentes, (digamos acima do limiar de conforto de uma determinada espécie), também o engolir de grandes presas pode provocar graves problemas digestivos. É por isso que os robalos são obrigados a mudar de dieta.
E nós, consequentemente, somos forçados a mudar os modelos das nossas amostras, “encurtando-as”, indo ao encontro daquilo que eles procuram. Como padrão, amostras de maior comprimento com águas frias e bem mais pequenas quando aquecem, ok?
Sabemos que é isto que resulta. E porquê? Vamos ver a seguir.




A regulação térmica do organismo dos peixes é induzida pela via comportamental, movimentando-se para zonas mais confortáveis sempre que sentem incómodo significativo.
A diferença entre a temperatura do respectivo metabolismo interno do peixe e a do meio ambiente exterior fica-se geralmente por apenas 1 a 2ºC de diferença. É muito pouco.
Isso pode não ser suficiente para manter o peixe no sítio, sobretudo naqueles momentos do ano em que a água arrefece, ou aquece, 5º ou 6º C repentinamente, em poucos dias.
As nortadas arrefecem muito a água, enquanto o vento de sul normalmente aquece-as. Os ventos de leste de finais da Primavera também provocam câmbios de temperatura muito bruscos, ao levar para o largo as águas quentes, que serão substituídas por água que vem dos fundos.
Todas as reacções bioquímicas são fortemente influenciadas pela temperatura, pelo que qualquer ligeira alteração térmica produz efeito imediato no comportamento do peixe.
Se a água arrefece, o peixe sente-o de imediato, é algo que vai directo ao seu organismo, e... tem de reagir, abandonando o local.
As reacções fisiológicas, o rítmo de crescimento, o consumo de alimento, a respiração, os processos metabólicos e até a capacidade homeostática dependem directamente da temperatura.
Quanto mais próximos dos valores considerados ideais, mais o organismo vai aumentando a velocidade e eficácia dos procedimentos naturais. Longe dos valores óptimos, o peixe entra em perda, e algo fica prejudicado: crescimento, alimentação, reprodução ou saúde.

Na figura que se segue podemos ter uma imagem aproximada do efeito da temperatura em processamentos metabólicos e fisiológicos:




Todas as espécies sobrevivem dentro de limites compreendidos entre as temperatura crítica máxima (TCmax ) e mínima (TCmin), as quais foram denominadas neste gráfico de uma forma pouco formal como os “limites de sobrevivência”.
Estes dois limites representam aquelas temperaturas a que a espécie apenas sobrevive entre uns quantos minutos e menos de uma hora. Ultrapassado este tempo sem regressar a ambientes térmicos mais favoráveis não há qualquer possibilidade de sobrevivência.
Estes limites críticos podem ser muito ligeiramente ultrapassados se os peixes tiverem tempo suficiente para se aclimatar, contudo não muito mais do que alguns minutos ou escassas horas. Porque não é rentável permanecer numa zona em que o robalo, ou qualquer outro peixe, não se sentem confortáveis, pois isso traz sempre gastos energéticos acrescidos, problemas de crescimento, esgotamento de reservas de gordura, etc.
A gama de temperaturas dentro da qual determinada espécie consegue sobreviver mais do que alguns minutos está compreendida entre a temperatura mínima sub letal ( TSLmin ) e temperatura máxima sub letal ( TSLmax ).
Acima da TSLmax ou abaixo da TSLmin, quanto mais próximo os peixes estiverem ou de uma ou de outra fronteira maior ou menor será a mortalidade, melhor se revelará a sua capacidade de adaptação e maiores serão as sua probabilidades de sobrevivência por períodos significativamente mais longos.
Entre o termo superior e inferior de tolerância e a escala de temperaturas ideais, situam-se os valores térmicos nos quais os peixes subsistem com maiores ou menores dificuldades. As suas funções fisiológicas podem sofrer algum decremento mas o peixe consegue assegurar a sobrevivência com poucas ou nenhumas dificuldades.
A gama de temperatura ideal, está situada mais ou menos ao centro entre os limites de tolerância superior e inferior. Dentro desta escala a eficácia dos mecanismos fisiológicos atinge um ponto óptimo de funcionamento, ou seja, uma espécie atinge aqui um desempenho físico e biológico máximo, promovendo uma eficiência de metabolismo que permita a sua boa reprodução e uma maior imunidade às doenças. Quaisquer variações para níveis superiores ou inferiores a estes limites afectam em menor ou maior grau a sua vida e consequentemente a nossa…PESCA.
Devido às características climatéricas encontramos espécies estenotérmicas (sobrevivem apenas numa estreita escala de temperaturas) e euritérmicas (estão aptas a subsistir numa vasta amplitude térmica). Os robalos encaixam nestes últimos, nem são peixes que sofram demasiado com temperaturas baixas. Todavia, todos os peixes procuram manter-se de acordo com o respectivo regime térmico natural para poderem usufruir das melhores condições de vida.
E isso pode significar abdicar da presença num local, onde até têm boas condições de alimentação, mas que naquele momento não é o habitat indicado. Bem sei que isso vos faz confusão, mas nós humanos, colocamos mais ou menos roupa. Eles não.




Mas não fica por aqui a necessidade de mudança.

Outro factor influenciado pela temperatura é a dinâmica parasita/hospedeiro. Quase todos os parasitas dependem das condições de vulnerabilidade do hospedeiro mas igualmente de um meio apropriado (água com um grau de salinidade certo, e com a temperatura correcta).
Sem enfrentarem condições térmicas adversas ou desfavoráveis os parasitas dos peixes conseguem sobreviver continuamente. E agora já estão a entender a razão pela qual os nossos robalos, peixes eurialinos, procuram tanto as saídas de água doce. Não estão lá só para comer.
Também é verdade que, se por um lado um aumento de temperatura pode favorecer a taxa de crescimento, o seu excesso é tão prejudicial quanto o contrário.
No limite superior de tolerância o crescimento abranda e mais perto do limite superior de sobrevivência chega mesmo a parar, à imagem do que acontece com o frio no extremo oposto.
Ligado ao crescimento, o consumo de alimento também é drasticamente influenciado pelo regime térmico. E isto afecta sobremaneira a nossa actividade de pescadores. Se o peixe baixa a sua actividade, mesmo estando ainda no pesqueiro, nós pescamos zero ou próximo disso.
O peixe aparece na sonda, mas as nossas possibilidades são quase nulas, porque eles estão a lutar contra forças bem mais complicadas que comer algo com ou sem anzol.
Um aumento da temperatura proporciona uma aceleração do ritmo metabólico e como consequência maior necessidade de energia, a qual é convertida a partir da nutrição.
Se o alimento disponível for suficiente, abundante e nutritivo, o processo decorrerá normalmente, caso contrário a falta de compensação da energia gasta pelo organismo pode, em casos extremos, esgotar o peixe até à morte.
Gostaria que vissem este problema de duas formas: a morte do peixe tanto pode ocorrer por estar presente em águas frias, abaixo do seu limiar mínimo, como o oposto, em águas quentes.
Há ainda um outro factor que não podemos descurar: os peixes possuem baixa tolerância às variações bruscas de temperatura, principalmente, quando essas são de 5°C ou mais, sendo que, mesmo não causando a morte de peixes adultos, mais resistentes e habituados a grandes variações, o choque térmico pode causar sérios danos aos ovos, às larvas e aos alevins.
O metabolismo dos peixes é maior, à medida que a temperatura aumenta, fazendo com que o seu consumo de alimentos aumente nas estações quentes do ano e, consequentemente, nessas épocas, a sua taxa de crescimento também aumente. E nós beneficiamos directamente disso, obtendo mais picadas.

Amanhã vamos ver como os robalos são directamente afectados por estes dados que vos refiro acima, sobretudo a questão das temperaturas.
Vão ver como isso explica muitas das decepções que sofremos quando saímos à pesca e os peixes... não picam.



Vítor Ganchinho



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