OS ATRIBUTOS DE UMA BOA CANA DE SPINNING - CAP. I

Queremos tudo!

Queremos que uma cana de spinning seja leve, (e há canas mesmo muito leves, na ordem dos 100/ 120 gramas), queremo-la com um comprimento a oscilar entre o s 2,70 e os 3 metros, para nos permitir lançar muito longe, preferimo-la bastante rígida, com acção de ponta, a ferrar bem ao primeiro e único contacto que teremos. Já quando temos o peixe cravado no triplo, dá-nos também jeito o oposto, que seja suficientemente parabólica, para poder amortecer eficazmente as pancadas e esticões do peixe. As canas macias desferram menos peixe, por serem mais elásticas, mais capazes de absorver esforços bruscos sem abrir os buracos dos anzóis. Mas ferram pior. E por isso, queremos duas canas numa só. 

Conseguir óptimas distâncias de lançamento é apenas parte daquilo que exigimos. Queremos ainda um bom equilíbrio de forças entre o ponto de contacto da linha na ponteira e o centro de gravidade onde é aplicado o porta-carretos, queremos elasticidade suficiente para nos cansarmos menos a imprimir velocidade de saída à amostra, (tentem lançar com uma cana absolutamente rígida e entenderão…), queremos sensibilidade máxima, e absoluta precisão. E ainda a queremos barata. 

O producto acima descrito quase existe. E este impróprio e arreliador “quase” refere-se concretamente à questão preço, que até ver, é o elemento discordante desta equação. Não é possível fabricar uma cana de construção muito cuidada, com detalhes de grande rigor, e por isso mesmo a exigir tempo a operários especializados, por um preço baixo. O que é uma pena. Ter tudo, seria o sonho de cada um de nós. 



A evolução das canas de lançamento tem sido notável nos últimos anos. Quando a exigência é qualidade e podemos pagá-la, há muito por onde escolher. A tecnologia de construção de varas de pesca evoluiu tanto que podemos dizer sem qualquer margem de erro que estamos hoje numa outra dimensão.

As canas foram aprimoradas a um nível estratosférico, com detalhes impressionantes. A todos os níveis.  Quando olhamos hoje para um porta carretos, só vagamente nos lembramos que já foram pesados, com anilhas com roscas metálicas de duração muito limitada, conforme podem ver abaixo. 


O peso de um porta-carretos antigo é hoje o peso total de uma cana de alta qualidade. Um passador antigo em arame enrolado pesava muito mais que todo o conjunto de passadores de uma boa cana actual.

  

Os porta-carretos de hoje nada têm a ver com o que existia há uma dezena de anos. E vão evoluir mais….


Hoje, as canas tendem a ser super finas, e para isso utilizam-se materiais de alta tecnologia, caros de produzir, difíceis de trabalhar.  Mais leves, mais finas, mais precisas, que não menos resistentes. Se é verdade que as canas hoje em dia continuam a poder lançar amostras mais pesadas, elas evoluíram no entanto para algo que não era possível há alguns anos: lançar também amostras leves. 

O espectro de amostras admissíveis alterou no limite inferior. É possível lançar melhor e mais longe as gamas mais leves, e isso não era de todo exequível há uns anos atrás. Com uma cana de bambu, pesada e rígida, não se conseguiria de todo lançar amostras de 5 a 10 gramas, e ponto final. Também os blanks são hoje mais resistentes à torsão, o que melhora significativamente a distância de voo de qualquer tipo de amostra. 

Assim que chegou a informação de que havia gente interessada em comprar melhor material, leia-se pessoas com dinheiro disponível para pagar uma cana mais cara, os fabricantes de renome meteram mãos à obra: focaram todas as suas atenções na resolução dos detalhes menos fortes dos seus productos. Foram analisados à lupa os parâmetros limitadores de performance de uma cana, aquilo que impede que o pescador, por exemplo de robalos, possa disfrutar de melhores pescas, de melhores práticas. 

Os gabinetes de planeamento encheram-se de ideias, engenheiros especializados procuraram nos laboratórios materiais com melhores características, e toda a industria avançou no sentido de chegar ao nível das exigências dos novos clientes. No fundo, de chegar onde está o dinheiro. 

O trabalho de idealizar uma cana de alta qualidade implica ser capaz de acreditar que há algo mais para além daquilo que já se conhece. Um dia uma cana em carbono nasceu do cérebro de alguém que foi capaz de pensar fora da caixa, que inovou, que trabalhou em novas especificações, alguém que foi para um bancos de ensaios acreditando que seria capaz de construir algo diferente. Hoje é o carbono, amanhã o kevlar, e depois de amanhã aquilo que o dinheiro puder pagar. 

A perfeição a que os nossos equipamentos de pesca chegaram é hoje em dia assinalável. Mas acreditem que enquanto houver dinheiro para alimentar a investigação e desenvolvimento de novos productos, haverá sempre uma cana que nos vai surpreender. 


Uma cana Daiwa Morethan Branzino, ao nível do detalhe, é algo de transcendente. Um dia será tão obsoleta que nos fará sorrir. 

Como este carreto que podem ver abaixo, que já foi o máximo, o último grito da moda: 


 

A evolução tem sido constante, a todos os níveis. Uma zona fraca nas canas é indiscutivelmente a zona de junção de dois elementos, os encaixes. Não consideramos a possibilidade de os não ter, porque transportar uma cana com 3 metros de comprimentos seria inviável. Nem me refiro a um transporte aéreo, mas tão somente a uma saída de pesca em que forçosamente teremos de nos deslocar de carro para o local de pesca, ou ainda assim até ao nosso barco. Produzir canas com duas ou mais secções tornou-se imperioso. E essas zonas têm espaços em branco, o que fragiliza o conjunto. Basta-nos olhar para uma cana para entender o trabalho de prevenção que ali é feito: são normalmente zonas com mais tecido de carbono, mais espesso, prevenindo danos. Mas isso retira nesses pontos alguma elasticidade à vara. São locais onde esse referido reforço origina um bloqueio à flexão. 

A questão aqui é conseguir reforçar sim, mas sem privar a cana da sua flexibilidade, do seu peso light. E também muito importante: a sua sensibilidade.  Vai daí, são requisitados engenheiros que possam ajudar a resolver estes problemas. E do seu trabalho sai algo como o conceito SVF Compile X Nano Plus, da casa Daiwa. 

Aquela gente trabalha até à exaustão, no sentido de nos permitir a nós pescadores sentir quando uma amostra toca o fundo, quando há um peixe a beliscar levemente uma isca, inclusive podemos sentir a resistência do fluxo de água que passa pela linha. 

É difícil explicar aquilo que se sente quando pescamos com uma vara de pesca de alta qualidade.  

Se as canas antigas eram mais pesadas, isso não se deve apenas ao producto de que eram feitas, mas também à necessidade de conseguir, mediante mais corpo, mais massa física, suprir as debilidades naturais dos materiais que existiam. Caso fossem feitas mais finas, iriam inevitavelmente torcer, dobrar demasiado, eventualmente partir. E seriam assim de pouca fiabilidade a lançar amostras pesadas. 

Hoje, embora muito mais leves, as canas lançam sem dificuldades de maior os mesmos pesos. A aplicação de um tecido de carbono em viés, a um ângulo de 45º, e daí o nome de X45, reforça sobremaneira o corpo da cana, suprimindo problemas de torção. 

  



Queremos as canas com algum poder, porque por vezes somos obrigados a subir o peso da amostra, (ou porque os peixes estão a uma grande distância, ou porque temos vento de frente e não podemos evitar lançar contra) mas também as queremos suficientemente repulsivas, com efeito de chicote, para não nos maçarem os braços e as costas, ao fim de algumas horas de pesca. 

Canas com paredes de carbono mais finas podem dar-nos algum apoio neste sentido. Não só se tornam mais sensíveis, como a sua leveza nos retira o ónus de muitos quilos de força ao final do dia. Acabar de pescar em boa condição física é algo que devemos considerar, sobretudo em expedição de pesca em férias, quando sabemos que vamos pescar vários dias seguidos. 


Aqui a lançar vinis com um cabeçote de chumbo, nas águas quentes das Maldivas. Ferrei uns quantos peixes por cima dos corais, as manchas escuras que se adivinham à minha esquerda. 

Quando saímos, nem sempre temos a possibilidade de levar connosco uma grande diversidade de canas, e por isso, e porque temos sempre limitações de peso, há que racionar em tudo, e também nas canas, escolhendo modelos mais universais. Ter nas mãos uma cana que faz várias funções, embora nenhuma demasiado bem, pode ser mais importante que ter uma outra que apenas seja boa e eficaz numa determinada situação. Podemos ser obrigados a lançar em condições difíceis, mas também podemos encontrar peixes mais lutadores, mais pesados, ou até que permaneçam em zonas de grandes correntes. E isso muda muita coisa. 

Por vezes somos forçados a prescindir de uma cana que lança mais longe, em detrimento de outra que não é aí tão forte, mas aguenta cargas superiores, peixes que puxam mais. Também se me oferece dizer que devemos analisar com alguma frieza as nossas capacidades físicas: um homem alto não é melhor que um homem baixo, nem alguém que tem compleição física mais robusta por definição pesca melhor que alguém que fisicamente é franzino. Nada disso. Aquilo que devemos fazer é adaptar o nosso equipamento ao tipo de pessoa que somos. Bem sei que alguém que consegue flectir uma cana mais dura, poderá lançar mais longe amostras mais pesadas. Mas a pesca está bem longe de ser uma competição de lançamento do martelo, e os exemplos de pessoas mais magras que lançam bem, estão aí à vista. 

Canas como as Daiwa Branzino EX AGS (Air Guide System) ajudam-nos a conseguir aquilo que a nossa compleição física por vezes não nos dá: não só são mais leves, e isso ajuda, como a partir de um determinado momento participam activamente na transferência de peso, cuspindo a amostra a distâncias pouco imagináveis. E com a suavidade de algo que quase não se sente nas nossas mãos. São canas com personalidade, que transformam em amplitude de movimento qualquer pequeno esforço da nossa parte. Flectimo-las e elas reagem. Têm em si, dentro do seu corpo, a estranha e misteriosa capacidade de empurrar amostras a distâncias pouco adivinháveis. Poucos de nós pescadores de spinning estaremos de verdade capacitados para entender a multitude de forças que entram em jogo quando fazemos um lançamento. Na verdade, aquilo que pretendemos é provocar a vara, obrigando-a a flectir, para que ela reaja, e volte o mais depressa possível à sua posição inicial. Provocamos stress no material, e a sua qualidade obriga-o a reagir, voltando num ápice ao estado de repouso. É isso um lançamento de amostra. 

Canas baratas, made in China no seu estado puro, sem a supervisão de engenheiros de marcas consagradas, (as marcas de qualidade também mandam por vezes produzir na China, por ser necessário que determinadas séries de canas tenham um preço acessível, mas supervisionam todo o desempenho de produção…), têm tendência a ser tubos moles, sem reactividade, que não nos ajudam em nada a conseguir fazer chegar as nossas amostras bem longe.  


Por vezes, pescamos em locais onde a precisão de lançamento é tudo. Sim ou não, sem espaço a indecisões. Se acertamos no local certo, o peixe pica. 


Amanhã vamos continuar a analisar as características de uma cana com qualidade. 




 


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