OS ATRIBUTOS DE UMA BOA CANA DE SPINNING - CAP. II

Gostava que entendessem que fabricar uma cana de pesca hoje em dia é um processo muito idêntico ao de produzir uma viatura. Os modelos de canas premium não são mais que a aplicação de diversos conceitos de produção, os quais, todos juntos, conduzem a um determinado resultado final. Aquilo que uma marca faz é desenvolver sistemas, analisar o desempenho de uma cana, segmentar por áreas diferentes, e trabalhar na melhoria cada uma delas até à exaustão. 

Não podem ser canas baratas. Quando as marcas dispensam ao projecto de construir uma boa cana de pesca os seus melhores técnicos, os seus melhores productos, a sua melhor tecnologia de produção, aquilo que menos lhes interessa é a questão do preço. Quando se pensa em fazer acima de bom, o handicap preço não entra na equação. O preço limita a criatividade, não permite a utilização de materiais nobres. Há quem faça precisamente o contrário e seja feliz com isso. O conceito chinês assenta na produção massiva de um producto, com custos laborais reduzidos, materiais de muito baixa qualidade, com o fito de conseguir o preço mais rasteiro possível. Tudo é sacrificado em prole do preço baixo, inclusive a qualidade. Os chineses fabricam a um preço incrivelmente baixo mil unidades de uma determinada cana. É o estilo deles e há quem goste. 

Quando tratamos de equipamentos japoneses, não é esse o objectivo, mas sim o oposto. Aí, aquilo que se procura é a excelência, a performance, o estar à frente de todos os outros. O preço será sempre a consequência directa de tudo aquilo que se conseguiu aportar de bom, de alta tecnologia, de Características ímpares que são adicionadas a essa cana. E quantos mais “extras”, melhor. Falamos de uma cana, não de mil unidades de canas.  

E é precisamente esta diferença de objectivos que motiva o artigo de hoje, a filosofia de fabrico de uma cana de pesca, na óptica de um fabricante japonês. Vamos ver como se pensa uma cana, como se pode fazer a junção de uma enorme remessa de “coisas boas”, num só objecto. Se um telemóvel é pensado e produzido para agradar de forma massiva a uma grande quantidade de pessoas, (com funcionalidades que muitas delas jamais entenderão), uma cana de pesca obedece a critérios muito mais individualizados. 

Sabemos o que podemos esperar dela, se conseguirmos ler as suas especificações. Escolhemos, se o soubermos fazer, as que mais se adaptam ao estilo de pesca que praticamos.  Tal e qual como se fabrica uma viatura, de forma personalizada, de acordo com as características que cada um pretende. Temos uma lista de componentes e escolhemos aqueles que nos interessam. Um carro ou uma cana de pesca. No caso da cana, esta pode ser segmentada em diferentes partes, e vamos analisar alguns desses detalhes aqui e começamos pelos passadores:  

Podemos começar pelo desagradável problema de ter as linhas constantemente enroladas nos passadores da cana. Quem não teve no passado problemas com linhas enroladas, a impedir a saída de linha?

A Daiwa criou um tipo de guia fios a que chamou de AGS TYPE-0, ( Air Guide System), que resolve isso. O design das peças é feito de forma a impedir esses contratempos. E, como em muitos outros detalhes, isso decorre de uma observação meticulosa do comportamento das linhas, em acção de pesca. Um dia, um técnico japonês terá recebido a incumbência de resolver esse assunto. Terá feito filmes de canas e linhas em acção, terá visto e revisto esses filmes, em slow-motion e de todas as formas possíveis, e chegou à conclusão de que não tinha de ser assim.  

Os passadores antigos das canas de spinning eram feitos invariavelmente de uma forma circular perfeita. Mas acontece que num lançamento, a linha é projectada contra os passadores, (por estranho que pareça à vista desarmada…), e isso, para além da redução da distância de lançamento, provocava atritos e enleios. A adopção de um formato 0, ovoide, veio solucionar esta questão. A saída de linha AGS é feita de forma mais suave, com menos atrito, bastando para isso produzir uma ligeira inclinação frontal, uma fixação angular em cada passador.  A entrada e saída de linha passou a ser feita de forma mais fluída. Mesmo a pescar com vento contra!   

Depois disso, veio a inevitável mudança na estrutura de apoio do passador e a constatação de que, com melhor performance, o peso do conjunto diminuiu bastante. 


A perfeição de um passador Daiwa. Incrível momento de tecnologia humana aplicada a um objecto de culto. 

O sistema de enrolamento do tubo de carbono CWS, (Carbon Wrapping System), é feito utilizando uma folha de fibras tecidas de forma muito compactada, muito juntas, um micro tecido produzido em laboratório recorrendo a nanotecnologia. Este producto proporciona-nos canas mais finas e por isso mais sensíveis e de melhor performance. Os fabricantes lutam para evitar espaços brancos, sem matéria. Esses espaços seriam pontos fracos, rachas, fissuras, e fonte de problemas futuros. 

A rotura de uma cana é quase sempre culpa do tratamento dado pelo pescador. Normalmente ocorre por má técnica, por este lhe dar uma inclinação superior a 45º relativamente ao plano de água. Este ponto parece-me importante e por isso vou tentar explicar melhor: quando pescamos e sentimos o toque, contraímos o nosso braço, e fazemos força no sentido contrário ao movimento do peixe. Isso irá fazer com que o anzol crave de forma mais profunda, assegurando a captura. O predador irá tentar escapar para o fundo, forçando um movimento contrário ao que pretendemos imprimir, o de subida à superfície. Temos pois duas forças antagónicas, uma para baixo, outra para cima, sendo que o nosso ponto de apoio é a cana de pesca. É ela quem absorve a pressão e impactos que forçosamente irão acontecer. 

E é aqui que os problemas podem surgir. Enquanto a nossa haste está colocada quase numa posição horizontal, não corremos grandes riscos. Os passadores estão a ser solicitados no seu conjunto, e cada um deles irá fazer a sua parte no acompanhamento da pressão total sobre o corpo da cana. À medida que inclinamos a cana para cima, verticalmente, ou seja, quando abrimos o ângulo que esta faz relativamente ao plano de água, (e fazemo-lo para obrigar o peixe a subir) aquilo que acontece é que passamos a solicitar sobretudo a secção superior da cana. 

Já não é a cana toda, é apenas parte. E quanto mais inclinamos a cana na vertical, mais concentramos o esforço na sua ponta. Por azar, esta é a parte mais fina, a que terá menor resistência a esforços. Mas nós estamos decididos a forçar a subida daquele peixe mais pesado, e por isso fazemos pressão com a cana quase na vertical. Tecnicamente, aquilo que acontece é que dessa forma passamos toda a pressão do peso e força do peixe para os primeiros centímetros do tubo de carbono, em vez de distribuir o esforço por todos os passadores. Isso irá inevitavelmente parti-la. Não há forma de não partir. 

Mas isto acontece mais depressa se a qualidade da cana for baixa, e se os defeitos de fabrico, os tais espaços brancos de uma construção deficiente forem mais notórios. Aí, o ponto de debilidade será o principal responsável pela quebra. A má técnica ajuda a estragar mas há uma deformação de base no material, logo não pode ser assacada culpa total a quem a adquiriu e com ela pesca. Bons blanks são como um bom chassis de um carro. Sobre eles podem ser montados passadores que irão permitir maior sensibilidade, maior leveza, maior conforto. 

A seguir, a qualidade das resinas de colagem joga um papel decisivo. Nós não pensamos um segundo que as forças aplicadas na nossa cana quando puxamos um peixe para cima, com os passadores para baixo, não são as mesmas que participam num lançamento lateral, em que a linha corre paralela à água. Nessa circunstância, o esforço sobre os passadores é diferente, e incide mais sobre as colagens. O acto de ferragem, em spinning, também é quase sempre lateral, pois mantemos a cana com a ponteira junto à água, formando um ângulo quase recto com a linha. 

Uma cana de spinning é um prolongamento do braço, e nesse sentido é bom que questões como a sensibilidade, a suavidade, mas também a firmeza e o poder de choque estejam presentes. Queremos lançar amostras a grandes distâncias, queremos que voem longe, mas sem nos cansarmos. Também queremos controlar a distância, saber onde vai cair a amostra. E queremos leveza, mas rigidez suficiente quando estamos em combate. No fundo, queremos tudo. 

É aí que entram em jogo todos os detalhes técnicos de uma marca conceituada. Por exemplo a Daiwa. Passo-vos alguns deles, para que tomem conhecimento da sua existência. Encarem estas coisas como “acessórios” de construção, elementos que valorizam a cana no seu todo, e que podem ser escolhidos “à la carte”, sendo que inevitavelmente cada um deles irá encarecer o resultado final. As canas de gama alta recorrem a todos estes elementos, e são necessariamente mais caras. Mas boas. 



      

Quando uma haste dobra, quando temos contacto com o peixe e este faz força, é gerada energia que altera a posição de repouso da cana. O passo seguinte é da cana. Esta, que acusa a deformação provocada pelo peso do peixe, irá recorrer à sua força restauradora, ou seja, à sua capacidade de vencer a resistência que a dobra, voltando ao momento inicial.  Este é um fator, uma capacidade, muito importante e que influencia o desempenho da haste.

A Daiwa desenvolveu um sistema para analisar e projetar essa "energia de deformação". Ele permite-nos entender claramente o que é excelente e o que está a “faltar”, em termos numéricos. O nível a que esta gente trabalha vai muito para além daquilo que seria necessário para produzir uma boa cana. A próxima geração de passadores "AGS" equipada com o anel leve recém-desenvolvido "C ring (liga de cobalto)" e "N ring (siliconite)" já está disponível em modelos mais recentes. A evolução não pára. 

O carbono, que é cerca de três vezes mais rígido que o titânio, possui alta sensibilidade e por isso transmite diretamente para o blank, sem absorver o mais leve sinal transmitido pela linha. Sentimos na mão e no antebraço qualquer variação de pressão. Sabemos tudo aquilo que se passa do outro lado da linha, qualquer pequeno toque de peixe, um sobressalto da amostra, a corrente a passar pela linha. Até o efeito de um cruzamento de correntes.

Sensibilidade extrema. Diz-se destas canas que têm “ressonância”. A GO Fishing Portugal tem na sua loja de Almada algumas destas canas, para diversas técnicas. São de facto materiais muito leves mas ainda assim muito resistentes, a suportarem cargas significativas. A Daiwa descreve o seu producto da seguinte forma: Canas que são “folhas de carbono com sensor de ar”….

Quando adquirimos uma unidade com o sistema SVF Compile X, estamos a apostar em tecnologia Nanoalloy, da Toray Industries, Inc, gente que trabalha carbonos e resinas como ninguém, ao nível molecular, em unidades nanométricas. Esta gente trabalha as folhas de carbono de onde se fazem as canas, com a preocupação de retirar tensões desnecessárias. O objectivo é produzir mais que bom. As canas querem-se leves e potentes, e eles sabem fazer. 

Outro dos “acessórios” que é incorporado na cana, o X45 Full Shield elimina completamente as torções que ocorrem durante movimentos dinâmicos, como o arremesso da amostra, acção de trabalho, ferragem e luta. A rigidez da torção é drasticamente melhorada pelo aperto da camada mais externa do carbono, o tecido de viés de carbono colocado a 45 °. Tratam-se pois os pontos onde é mais provável de ocorrer a torção. Na verdade, eles cuidam de tudo. Nós só temos de pescar. 

E já agora, ter muita atenção à cana, porque a surpresa de termos um robalo na ponta da linha pode fazer-nos deixar a cana à água. O toque é avassalador, claro, nítido, e deixa-nos surpreendidos pela sua violência. 

É a pesca que conhecemos, mas noutra dimensão. Temos, com uma cana de alta qualidade, a sensação de que a cana tem tanta sensibilidade quanto nós, quando tocamos algo com a pele dos nossos dedos. 



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