MEMÓRIA DOS PEIXES

Há correntes de opinião que afirmam que os peixes têm a capacidade de memorizar um acontecimento desagradável, como por exemplo o facto de serem ferrados com uma amostra/ jig, ou um anzol com isca.
A ser assim, a acreditarmos nisso, qual o tipo de aprendizagem que fica gravado na sua memória, e durante quanto tempo? Ao fim de quanto tempo podemos pensar que o peixe irá voltar a lançar-se de novo sobre uma amostra com convicção plena?
Os nossos predadores, e podemos personalizar assumindo o robalo como o mais emblemático de todos eles, têm indiscutivelmente alguma capacidade de “aprendizagem”, de entender o que os prejudica, aquilo que lhes provoca stress quando presos a um anzol.
Todos os peixes, todos aqueles que pescamos nas nossas saídas de pesca correntes, aprendem a associar os objetos e ruídos às consequências boas e ruins que tiveram no passado.
Isso dar-lhes-á a percepção que devem evitar presas (amostras ou iscas, linhas e anzóis, chumbadas, etc…), ou mesmo ruídos de embarcações que largam redes, por exemplo.
Em suma, tudo aquilo que lhes transmitiu más sensações no passado. Sobre as amostras, aprenderão a evitá-las, concentrando as suas atenções noutras presas com as quais sempre tiveram bons resultados.
E têm todo um arsenal disponível para isso, para poderem obter dados de análise suficientes.
Os receptores de informação são conhecidos: visão, audição, linhas laterais, olfacto, paladar e contacto directo.
Se considerarmos os tipos de associações que estes sentidos geram entre si, poderemos pensar que as combinações não são assim tão limitadas.


Fiz esta foto à saída para um dia de pesca, de manhã cedo, na barra do Sado. 


Da minha experiência pessoal o que vos posso dizer é que não tenho quaisquer dúvidas sobre a capacidade dos peixes reterem conhecimento sobre maus contactos com pessoas. Explico porquê: porque fiz caça submarina durante algumas décadas, isso deu-me tempo suficiente para perceber diferenças de comportamento dos peixes ao longo de um alargado período de tempo, num mesmo local.
Posso dar-vos um exemplo concreto, situando-o a uns bons 20 anos de distância, ainda eu era um jovem entusiasta do mergulho livre em apneia.
Na altura mergulhava quase todos os dias, tinha condição física para poder permanecer no fundo do mar tempo suficiente para poder apreciar as atitudes dos peixes.
A dada altura encontrei uma zona com muitos milhares de sargos. Cada ponto em que mergulhava estava forrado de sargos como nunca vira antes. Aquilo que desfilava à frente dos meus olhos eram massas de sargos, numa quantidade absurda. E calmos.
Eram peixes adultos, na ordem de 1 a 2 kgs, dentes negros, já com muitas primaveras nas costas, logo a saberem o suficiente para se defenderem.
A questão curiosa é que se tratavam de peixes nunca antes apoquentados por caçadores submarinos. Embora poucas, ainda temos no nosso país algumas zonas mais remotas, menos exploradas, onde é possível um peixe crescer sem ter contacto com aquele estranho intruso vestido com um fato de neopreno e uma arma na mão. Bastam alguns anos de vida a um sargo sem ver ninguém para poder crescer e ter tamanho suficiente para ser um alvo.
Na circunstância, recordo-me de estar rodeado de nuvens de sargos que não tinham qualquer receio. A distância a que me permitiam a aproximação era de tal forma curta que eu, habituado à dificuldade “standard” de outros locais, achava que havia ali algo de muito estranho.
Após alguns disparos, o máximo que faziam era encostar a uma pedra a dois metros de mim, e a deixarem-se estar, impávidos. Ainda assim perfeitamente acessíveis.
Ao fim de algumas semanas, e de muitas centenas de sargos nas caixas, comecei a notar alguma mudança na atitude. Passaram a esconder-se em frestas escuras, locais onde se sentiam abrigados.
A cada tentativa de os arpoar em água livre, fora da pedra, respondiam com a entrada sorrateira para essas ditas frestas na rocha. Era a sua tentativa de se protegerem. E isso indiciava já uma aprendizagem.




A dada altura, e porque os meus verdes anos me deram para isso, comentei com um amigo que havia uma zona cheia de sargos. Daí a dias já estavam caçadores aos molhos em volta das pedras. E mais e mais, até que os sargos começaram a acusar a pressão e a rarear.
Aconteciam por vezes arribadas de sargos, algumas centenas de novos peixes chegavam às pedras, mas nada de parecido sequer com aquilo que havia a princípio. E em termos de comportamento, o que notei era que estavam habitualmente entocados, debaixo de solapas de pedra, refugiados em zonas mais escuras e inacessíveis, e que ao primeiro disparo de arpão, passavam a ter como prioridade a fuga para o largo, escapando dos buracos que anteriormente lhes serviam de abrigo.
A grande diferença foram as lanternas subaquáticas que se acendiam na direcção das zonas mais interiores e escuras dos buracos, por gente que tinha pressa de os arpoar. Ao sentirem-se descobertos e presos entre paredes de rocha, não tinham outra alternativa que não tentar escapar.
Havia na altura muita gente a viver da venda de peixe, hoje não faço ideia se isso ainda continua a acontecer, presumo que sim.
Hoje, pese embora a rarefação dos meus dias de mergulho, a idade já pesa para andar a baixar duas dezenas de metros para ir procurar um sargo, sei que a quantidade de peixes reduziu drasticamente e que continuam a não ficar nos buracos, saem ao menor sinal de perigo, e procuram o largo, onde se sentem e estão efectivamente seguros. Depois, com tudo mais calmo, voltarão aos seus abrigos, à sua base. O comportamento mudou, e há aqui, sem dúvida, uma aprendizagem. O peixe entendeu que ficar nos buracos era o fim, e por isso mudou o seu comportamento.
Também mais acima, junto à superfície, a quantidade de peixes que mordiam uma amostra já foi bem superior ao que se verifica. Recordo-me de pescar peixe com Rapalas de 10 cm, com as quais, a cada lance, ferrava um peixe.
Hoje isso acabou, os peixes fazem-se merecer, os dias de êxito são intercalados por muitos dias em que as coisas não correm tão bem.


Ainda hoje levo lá amigos e eles pescam sargos naqueles locais.


Existem diversas entidades que estudam a fundo o comportamento dos peixes, nomeadamente empresas que pretendem fabricar iscos artificiais no sector da distribuição de materiais de pesca desportiva.
No fim de tudo está, como não podia deixar de ser, o lucro que esse tipo de conhecimento pode aportar à empresa possuidora desses dados. Há ficheiros secretos que não passam facilmente para a opinião pública, por não ser conveniente...
Uma dessas empresas chegou a uma conclusão sobre o tema: o seu laboratório afirma perentoriamente que os robalos se lembram de uma isca específica e das consequências de tentar comê-la pelo menos durante três meses.
A sê-lo, podemos deduzir que quanto mais tempo um robalo tiver para observar uma isca antes de a atacar, melhor se irá lembrar dela. Em águas turvas, o robalo é forçado a reagir rapidamente à passagem da presa, tem pouco tempo para decidir.
Neste caso, em zonas de visibilidade reduzida, por exemplo na rebentação, com espuma, ou águas mais tapadas com sedimentos, ou em condições de penumbra, ao nascer ou pôr do sol, no fundo locais e momentos em que a velocidade de reacção a uma presa tem de ser máxima, o predador não terá tempo suficiente para observar bem a isca e atacará a mesma isca novamente. A isca que já lhe provocou dor e stress.
Mas em águas lusas, o caso muda de figura. Em águas claras, limpas, os robalos são capazes de analisar a presa e memorizar detalhes antes de a atacarem. Têm tempo para isso.
Podemos supor que aprendem a evitar aquilo que os magoa. Podemos também deduzir que quando o estímulo perceptivo ultrapassa um certo nível de desconforto, a atitude é de recusa.
Também pode acontecer que a intensidade do estímulo aumente tão abruptamente, que assuste o peixe.
Uma amostra com excesso de peso e tamanho, por absurdo uma amostra com 1 metro e 1 kg de peso, que cai junto a um robalo parado à superfície, tende certamente mais a assustá-lo que a provocar-lhe um ataque. Há limites.
Isso significa que não devemos tentar pescar acima do padrão de tolerância que a um robalo lhe é admissível. A criação de estímulos negativos irá marcar esse peixe por algum tempo, acreditando que têm de facto reserva de memória para estes casos.




Se quisermos um exemplo muito prático de habituação, e vale o que vale porque não o podemos replicar na natureza com facilidade, é o caso dos peixes de aquário colocados em lugares públicos.
A princípio, os peixes assustam-se com a passagem das pessoas. Passado algum tempo, assumem que nada de ruim pode acontecer-lhes, porque ninguém os vai tentar tirar do tanque, e, dentro de alguns limites, estabilizam.
Voltam a sentir stress quando as crianças batem nos vidros do aquário para lhes chamar a atenção, ou para obter deles qualquer tipo de reacção, mesmo que negativa.
Se inicialmente tentam fugir da visão das pessoas que passam e do som das crianças batendo no tanque, depois de algum tempo, quando verificam que é seguro fazê-lo, eles aprendem a ignorar o mundo fora do aquário. Isso significa aprendizagem.

O tema é interessante, e estou certo que podemos discutir detalhes sobre ele.



Vítor Ganchinho



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