OUTRAS PARAGENS, OUTROS PEIXES

Pelos vistos, deixei amigos nas Maldivas.
Continuam a mandar-me fotos de capturas feitas por eles, com a alegria de quem faz da pesca um modo de vida, uma ocupação a tempo inteiro. A pesca é algo de muito importante numa zona que, tirando o turismo e as receitas que ele aporta, pouco mais tem que …mar.
Trata-se de uma região muito curiosa, onde a areia é de origem coralina, e onde a fauna terrestre praticamente não existe. Na maior parte dos locais, habitados ou não, podemos ver algumas aves, mas são raros os animais.
A razão prende-se com o facto de haver pouca água doce disponível. As ilhas, ou atóis, têm, na sua maior parte, um ou dois metros de altura acima do nível do mar, e são de reduzidas dimensões. A maior parte das centenas de ilhas atravessam-se em poucos minutos. Ver um animal selvagem é raro e estranho.
Já debaixo de água, têm tudo. A qualidade daqueles fundos é muito grande, as condições para que tenham peixe grosso são muitas, e por isso mesmo podem apresentar fotos como aquelas que podem ver abaixo.


As condições de mar são perfeitas, a ondulação sempre perfeitamente residual, a deixar pescar.


A pesca profissional sente bem os efeitos do tipo de estruturas de fundo: são corais agressivos, que impedem a utilização de redes de emalhar.
Por isso mesmo, a utilização de aparelhos de anzol é um método corrente. Sabemos que isso preserva os fundos e protege o crescimento das espécies.
Haver um handicap para a utilização de meios de captura em massa acaba por permitir a regeneração de stocks, aumenta o tamanho médio dos peixes e isso garante boas pescas.
Também o facto de os grandes navios fábrica não poderem operar na zona (conforme o fazem noutras paragens, nomeadamente na costa ocidental de África, sem qualquer controlo), ajuda a que as taxas de sobrevivência das espécies seja maior. A presença de superpredadores como os tubarões, é um excelente indicador da saúde destes habitats, e isso é uma garantia de momentos de excitação. Vejam a foto abaixo. O peixe vinha ferrado no jig, a debater-se, e foi atacado por algo com “algum tamanho”…


O ataque repentino de um tubarão deixa sempre marcas indeléveis...


A quantidade de carangídeos é enorme, e só isso já justifica a ida a um desses locais, mas há muito mais razões para uma deslocação àquelas águas. Falamos de meros, de enormes atuns, tubarões e muitos outros que rondam os atóis de coral, com as suas paredes verticais plenas de vida.
A principal razão dos insucessos de capturas é mesmo a natureza agreste das estruturas de corais. Ao menos contacto, as linhas rompem, inevitavelmente.
Acresce o facto de os peixes serem muito poderosos, e quase nunca aceitarem morder em zonas fáceis, limpas, sem escolhos.
Aquilo que pode ser tomado como certo é o ataque violento, a corrida para o fundo, a coser a linha pelos buracos das batatas de coral.
E isso traz a consequente rotura.
Por isso mesmo a pesca é feita com equipamentos mais pesados, mais resistentes, no sentido de evitar a todo o custo que o peixe consiga tomar linha do carreto.
Quando isso acontece, …adeus.




Alguns peixes, como este GT que podem ver abaixo, são de uma brutalidade de força que não há forma de evitar que tomem linha.
Nestes casos, aqueles que saem para o barco são apenas os que tiveram o azar de morder mais longe do fundo, das estruturas das paredes.
Ou seja, uma quantidade reduzida e pouco significativa do total de potenciais capturas. Temos muitos toques, mas aproveitamos poucos…
Os outros, vão embora e levam os jigs com eles. Por isso mesmo, a técnica mais produtiva acaba por ser o popper, uma amostra de superfície com o topo anterior côncavo, o qual reage aos nossos esticões largando uma imensidão de água e espuma para os lados. Isso excita sobremaneira estes carnívoros, que atacam na primeira capa de água sem temor. Para que tenham a ideia do esforço necessário para motivar o ataque de um destes predadores, digo-vos que os jigs pequenos não funcionam, são ignorados, mas os grandes sim. Só que esses pesam até…250 gr! Num ambiente quente, com bastante humidade, isso implica uma enorme resistência física e uma persistência férrea. Quando finalmente existe contacto, nada obriga a que a peleia esteja ganha, apenas significa que houve uma picada.
Segue-se a inevitável luta, poder a poder, um autêntico braço de ferro, mas desta vez com mais algumas chances de sucesso do nosso lado.


Os GT`s são sempre um prato forte na ementa do dia. Uma saída sem um destes colossos não é dia de pesca.


Há lugares onde estes peixes são mais expectáveis. Zonas remotas no Índico, por exemplo junto à costa ocidental, Zanzibar, Madagáscar, por exemplo, dão enormes troféus. As deslocações de barco para zonas não demasiado profundas, perto de recifes coralinos, de preferência com presença de correntes fortes, são garantes de animação. Encontrar espaços onde a seguir à picada possamos ter condições para completar a captura é um trabalho mais difícil do que parece.
Estes peixes podem chegar facilmente aos 50 kgs de peso, os maiores na ordem dos 70 kgs. É muita força de peixe a puxar a nossa linha!
Mais uma vez estamos a falar de equipamentos muito robustos, os inevitáveis carretos Saltiga da Daiwa, ou os Stella, da Shimano, guarnecidos com linha grossa, nada de finuras que os monstros não perdoam. A cana será algo com acção que permita lançar os petardos de 150 a 250 gramas da ordem…


O capitão Hilman, com mais um predador típico daquelas águas. É peixe que entra ao jig com facilidade, pese a água absolutamente cristalina.


São realidades que contrastam com aquilo que temos, mas é bom saber que existem.
A vida dá muitas voltas e nunca se sabe quando estaremos em condições de poder programar uma destas expedições de pesca.
Quando acontece, e se conseguem capturas com peso, em qualidade e quantidade, isso é muitas vezes chegar perto do céu.
E para quem nunca teve a sorte de poder dar luta a um destes monstros, é mais que isso, é…tocar-lhe.



Vítor Ganchinho



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