TIRAR CARTA DE PESCADOR - 8

Vamos continuar a nossa saga de analisar situações relativas à mecânica da movimentação dos nossos peixes no meio líquido.
A importância que tem saber um pouco mais desta matéria prende-se com a necessidade de sermos capazes de entender aquilo que se passa diante dos nossos olhos, de que forma os peixes utilizam as condições de mar em seu proveito, e quais as limitações que sentem.
Tudo isso nos irá ajudar no momento de lançarmos as nossas amostras à água. Porventura algumas coisas serão conhecidas, outras nem tanto, mas o importante é mesmo sermos capazes de entender o que os nossos olhos têm diante de si. O espírito crítico existe em cada um de nós, mas tem de estar desperto e preparado para poder actuar. No fundo, não ver apenas mas…saber ver.
Espero que este tipo de conceitos vos seja útil.




Ontem debruçámo-nos sobre a questão da escolha de refúgios por parte dos robalos, colocando como exemplo a situação concreta da bacia do Sado.
Trata-se de uma zona que conheço relativamente bem, porquanto é daí que saio para a maior parte das minhas expedições de pesca. Posso tornear o Cabo Espichel e ir pescar para aqueles lados, ou posso ir lançar aos robalos um pouco abaixo de Vila Nova de Mil Fontes. Depende do estado do mar, daquilo que me deixa andar, e também da época do ano, e potencial de peixe existente.
Mas quero dizer-vos que as longas deslocações que faço, prendem-se muito mais com o gosto pessoal que tenho por pescar longe de outros barcos e pessoas, longe das interferências de motores, âncoras, gritos, barcos encostados ao meu, que por efectiva necessidade de me afastar de Setúbal, por não haver peixe. Há peixe no local de onde parto para ir pescar longe!

As condições do Estuário do Sado são particulrmente favoráveis à existência de peixe. Tem um pouco de tudo.
Desde logo o facto de haver co-existência de água doce e água salgada. Como sabem, a água salgada, por ter maior densidade, afunda na presença de água doce. Por isso mesmo, podemos ter água muito suja, tapada de matéria orgânica, a dita “água verde” à superfície, e ter uma água lusa, limpa, em baixo. Na enchente, a água que entra é limpa. Mais que isso, pode também dar-se o caso de haver diferentes temperaturas de água, no mesmo ponto. De verão, com o sol quente, as águas superficiais aquecem, mas pode haver águas mais frias por baixo. O efeito de sobreposição é algo de mecânico, acontece porque as leis da física assim o determinam.
E agora vou dizer-vos algo que pode ser surpreendente: estas águas não se misturam! Chegam a ser correntes contrárias, chocam uma com a outra, e uma delas cede passagem, afundando, ou remontando em relação à outra.
Tenho a certeza que já sentiram, quer os pescadores de linha de técnica vertical, quer os que lançam jigs para o fundo, que a dada altura a corrente de superfície não coincide com a corrente de fundo. Podemos chegar a ter mais que duas, e é mesmo muito mais frequente do que pensam que existam mais que duas temperaturas de água distintas, desde a linha de água até ao fundo. Isso explica em parte a localização dos cardumes na sonda, mais acima ou mais junto ao fundo, de acordo com a temperatura que mais lhes convém no momento. Não é um sistema fixo, não é um princípio válido sempre, porque de Verão temos águas quentes à superfície e frescas em baixo, e de Inverno exactamente o oposto. E isso muda tudo.
Para vos complicar o entendimento de todo este processo, não podemos apenas pensar que a água está onde está e …acabou. O processo é dinâmico, as marés movem grandes massas de água, e ainda temos uma outra variável que pode ser perfeitamente inconstante: o vento.
Ao rodar de um para outro quadrante, o vento vem introduzir aqui um grau de incerteza com o qual temos sempre de contar. De tal forma que pode estar a empurrar num determinado sentido água, e haver uma sub corrente que vai precisamente em sentido contrário.
Os peixes aproveitam todas estas situações, tudo aquilo que possa ser-lhes útil na hercúlea tarefa de encontrarem e conseguirem capturar comida todos os dias.




Custa-nos a crer que um robalo se sinta confortável a caçar na espuma, no meio daquela “máquina de lavar” branca.
Devemos no entanto ver a árvore, mas não deixar de perceber a floresta por trás. A espuma é a agitação marítima na sua plenitude. Mas não deixa de ser algo que existe até uma determinada profundidade.
Há um momento em que já não há espuma nenhuma, em que já não há mais ar misturado com água. Dependendo da profundidade, e do tipo de fundos, rocha firme, areia, vasa, lodo, assim teremos mais ou menos suspensão a flutuar. Em fundos de pedra pode inclusive dar-se que temos água a bater muito, ressaca forte, e água limpa.
De qualquer forma, aquilo que vos queria transmitir é que pode perfeitamente haver água com visibilidade, maior ou menor, por baixo da camada de água branca.
Na maior parte dos casos, e conforme podem ver na imagem acima, isso só acontecerá longe da costa. Em pesqueiros baixos, é difícil que a uma momento de mar revolto, corresponda uma tal diferença de visibilidade, mas em zonas fundas, quase sempre ocorre que a camada de água tapada se restrinja a uma estreita faixa de alguns metros. E por baixo, tudo limpo, visibilidade e possibilidades de caçar à vista.
Em zonas de água tapada, e mais uma vez recorrendo ao exemplo da foto acima, o peixe também come. Aquilo que faz é recorrer ao um diferente sistema de detecção de alimento, que dispensa olhos: a sua linha lateral.
Essa, pode servir-lhe para encontrar comida mesmo na maior escuridão, à noite, ou quando a água tem tal carga de sedimentos que não deixa passar o mais ínfimo raio de sol. E isso pode acontecer a menos de 5 metros de profundidade.
Eu mergulhei no arquipélago dos Bijagós, na Ilha de Bubaque, a quatro metros, e não via o fundo. Encontrava-o por bater nele. Caçar naquelas condições é algo de aterrador.
Estava completamente cego pelo escuro provocado por uma enorme densidade de folhas mortas, e outras já decompostas.
A única forma possível de detectar um peixe era mesmo olhar para o sol, e atirar na direcção das manchas escuras que o cruzavam. Eram peixes grandes.
A um metro da superfície, esticava o braço e deixava de ver a mão. E nestas condições, à linha, pescava na perfeição, os peixes mordiam com a maior das facilidades. Porque dispensavam a vista, actuavam por intermédio de um outro sensor, a dita linha lateral.

Não vos tenho dito, mas a maior parte das fotos que ilustram estes artigos da série “Tirar carta de pescador”, são da autoria do meu amigo e eterno colega de pesca, Carlos Campos.
Vão passar a conhecê-lo pessoalmente muito em breve, num workshop que pretendo levar a efeito na GO Fishing em Almada, ainda antes do final do ano.
E a seguir, irão vê-lo em acção, a filmar e fotografar, numa deslocação que iremos fazer a Osaka, Japão, em Janeiro. Será ele o responsável de imagem, ou não se tratasse de uma pessoa profundamente ligada ao fenómeno da televisão, com uma experiência de décadas.

Até amanhã.



Vítor Ganchinho



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