O MOMENTO CERTO PARA... NÃO PESCAR ROBALOS

Os nossos peixes estão agora numa fase crítica da sua vida.
Aqueles que têm perto de si zonas estuarinas, rios, ou ribeiras com alguma protecção, adentram os cursos de água doce, sobem até onde lhes é possível, e procuram largar aí a sua descendência.
Esse é o sítio mais seguro para o fazerem, o local onde as probabilidades de sucesso reprodutivo são máximas. Todos os robalos que largarem a sua preciosa carga em mar aberto vão ser objecto de “pilhagem” por parte de pelágicos que aproveitam a oportunidade. De resto, não haverá muitas situações ao longo da sua vida que permitam às suas presas habituais, carapaus, cavalas, etc, inverterem os papéis de predador/ presa.
O equilíbrio natural é feito, e bem feito, e se algo o perturba, somos nós homens, que pescamos robalos à desfilada, em número e quantidade superiores às nossas necessidades. Um só lance de rede pode dizimar um cardume inteiro destes valorosos peixes.
Este é um tempo em que as grandes fêmeas exibem barrigas descomunais, inchadas, gordas, e isso ocorre porque estão prontas a desovar. Cada fêmea madura pode produzir entre um quarto e meio milhão de ovos por quilo de seu próprio peso corporal.
Dentro de si transportam, sem o saberem, as esperanças de milhares de pescadores que procuram afincadamente robalos por toda a nossa costa.
Todos aqueles que, aos primeiros raios de luz, anseiam encontrar um bom robalo a atacar a sua amostra, dependem, porventura muito mais do que pensam, deste momento em que cada fêmea arrasta atrás de si uma imensidão de machos, sempre de tamanho mais modesto, prontos a cumprir o seu desígnio de reprodutores.
Nesta fase, os robalos já não pensam em mais nada que não formar grandes concentrações de peixes e assim seguir o curso natural da vida, a reprodução. Até final de janeiro, irão estar em trabalhos de…parto.
A migração anual de peixes sexualmente maduros é feita em busca de temperaturas consistentes, mais estáveis, encontradas agora em águas mais profundas.
Esta estabilidade é essencial para a correcta formação dos ovos das fêmeas e para que os peixes machos alcancem a condição reprodutiva.




Porque o ano não tem vindo muito frio, é natural que ainda se pesquem alguns robalos grandes em águas mais superficiais, contrariamente ao que é habitual.
A água continua na casa dos 16 a 17ºC. Irá chegar aos 13ºC muito brevemente, expulsando os oportunistas que esperam a desova dos robalos para se banquetearem com os seus flutuantes ovos fecundados.
Para pescadores que apostem em quantidades, para quem quer ferrar muitos peixes de tamanho mais modesto, a solução é agora ir procurar dentro de rios e afluentes. Mas os maiores, robalos adultos e velhos, estarão longe, mais fundos, reunidos em zonas ao largo, em pedras mais sossegadas, longe do reboliço da costa.
O grosso da coluna destes peixes terá um período de actividade de caça muito reduzido ao longo do dia, muito circunscrito a breves períodos de algumas dezenas de minutos, e sempre de acordo com dois factores primordiais: o nascer e o pôr do sol, e as marés.
Os grandes robalos, aqueles que mais gostamos de ter na nossa linha, comem agora poucas vezes. Mas comem. É tudo uma questão de estar no local certo e no momento certo, e saber aproveitar as poucas e raras oportunidades.
Irão a seguir afundar mais algumas dezenas de metros, alguns ficarão inclusive abaixo dos 100 metros, e finalmente repousar destas correrias em que andam.




As primeiras capturas da nova temporada de robalos que irá começar lá para março geralmente não nos trazem peixes …“gordinhos”.
Quando voltam para junto dos pesqueiros de costa, após a viagem de regresso dos locais de desova offshore, parecem-nos e estão mesmo magros. Na verdade, o teor de gordura pode ter diminuído de valores superiores a 10% para quase zero.
Ficam magros e escanzelados. O robalo de Fevereiro e Março é ainda um peixe seco, sem muita qualidade gastronómica. Este é o momento de os soltarmos, de praticar captura e solta.
Irão aos poucos ganhar a gordura que lhes é característica, mas para isso vão ter de comer caranguejo pilado, cavalas, galeotas, carapau, camarão, lulas e chocos miúdos, em abundância.
Todas as corridas que deram desde finais de Novembro até Fevereiro, pagam-se em escassez de reservas energéticas. Também o facto de as águas estarem muito mais frias pouco ajuda, pois isso significa um acréscimo de dispêndio de energia e queima forçada de gorduras.
Não é pois surpresa que os peixes que retornam dos locais de desova sejam geralmente muito mais magros e, em geral, não tão fortes e poderosos se comparados com o estado físico que exibiam aquando do outono.
Por vezes pescamos exemplares de robalo tão magros que nos parece terem a cabeça desproporcionada para o tamanho do seu esguio corpo.
Isso deve-se ao facto de terem gasto as suas reservas de gordura, e o seu corpo estar mais estreito, mais fino. Podemos e devemos ter muito cuidado a desferrar e devolver ao mar. Para que se alimentem e possam vir a ser os robalos fortes que queremos voltar a pescar no futuro.
Acontece o mesmo com as douradas, é muito evidente o estado depauperado com que nos aparecem nos meses de Fevereiro a Abril, sem gorduras, sem perfil, quando a cabeça é a parte mais larga do corpo. O peixe nesta altura do ano é a cabeça e uma esguia e magra espinha.
Deixam-se vir, não lutam, porque não têm forças para isso.
Queremo-los fortes! Queremos peixes que ameacem partir-nos as linhas, e para isso, o bom mesmo seria nem os pescarmos neste período que vai seguir-se. Um robalo adulto, com alguns quilos de peso, e na posse de todas as suas faculdades, é um oponente sério.
Se capturado num local com mar batido, com espuma, com correntes, dá-nos luta e faz valer o seu poder de natação e velocidade.
Para que tenham uma ideia, robalos saudáveis foram testados num tanque de ensaios, e mostraram que, ainda com comprimentos entre os 24 e os 37 centímetros, podem suportar correntes com velocidade de 80 centímetros de deslocação por segundo (Pickett, 1994).
O seu poder de natação e velocidade aumentam proporcionalmente com o tamanho, e fica clara a razão pela qual os robalos não se incomodam com marés fortes, mar batido, espuma e turbulência. Eles aguentam!
Todavia, e como já vimos em publicações anteriores aqui no blog, eles não desperdiçam energia e são particularmente hábeis em usar objectos, pilares, rochas, ou outras estruturas que possam servir-lhes de deflectores, de travões de águas rápidas. Querem lá estar, mas sem gastar demasiadas energias.
Podem estar pontualmente em correntes fortes, suportam-nas bem, mas fazem-no apenas o tempo necessário para caçar. E saem.




O corpo do robalo foi desenhado para provas curtas de velocidade. A sua forma de torpedo, fusiforme, uma característica comum de todos os peixes nadadores rápidos, favorece-lhe o seu “estilo de vida”.
Para um predador, poder nadar a alta velocidade, ou ser capaz de grandes arranques bruscos, é vital para a sua sobrevivência.
A juntar a um corpo extremamente hidrodinâmico, o robalo acrescentou também uma grande barbatana caudal. Com isso, o seu poder de natação é maximizado, dando-lhes incontestáveis vantagens.
Bastam-lhe três a quatro movimentos de sua cauda, para se projectar a uma enorme velocidade para a frente. Nesse instante, todas as outras barbatanas colam ao corpo, fecham, para reduzir o atrito. O robalo é um torpedo veloz quando lançado contra um pequeno peixe.
A potência e a velocidade de natação são essenciais no ciclo de vida do robalo, em todos os aspectos.
Desde logo enquanto é pequeno, juvenil, porque precisa disso para conseguir escapar a peixes pelágicos predadores, a pássaros, enfim a tudo o que possa querer comer um pequeno peixe de alguns centímetros.
Nos estuários e lagoas onde se cria, não faltam aqueles que o querem comer. Este é pois um factor crítico para a sobrevivência dos robalos juvenis.
À medida que cresce, e logo que avança para águas mais profundas, precisa muitas vezes de lutar contra fortes correntes de maré. Mais que isso, precisa de manter alta a sua capacidade de realizar sprintes rápidos para conseguir as suas presas.
Sendo um peixe que efectua longas deslocações, também está muito dependente da sua mobilidade para a execução das suas migrações ao longo da costa.
Boa forma física …precisa-se!



Vítor Ganchinho



😀 A sua opinião conta! Clique abaixo se gostou (ou não) deste artigo.

Comentários

  1. Boa noite, Sr. Vítor.

    Já cheguei a ver bons exemplares durante a noite a virem à luz caçar os peixinhos juntos aos pilares da ponte velha de Portimão em pleno mês de janeiro.

    Pensei ser comum encontrar bons exemplares agora em molhes e rio a dentro.

    Abraço.

    ResponderEliminar
  2. Emanuel Cordeiro19 janeiro, 2023

    Boa noite, Sr. Vítor.

    Já cheguei a ver bons exemplares durante a noite a virem à luz caçar os peixinhos juntos aos pilares da ponte velha de Portimão em pleno mês de janeiro.

    Pensei ser comum encontrar bons exemplares agora em molhes e rio a dentro.

    Abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Emanuel Cordeiro

      É mesmo muito frequente que os robalos se encostem a estruturas feitas pelo homem, porque tiram partido delas, e conseguem bons resultados. O grau de salinidade da água não é um problema para eles, porque são peixes eurialinos.
      Em certas cidades da Europa há mesmo o hábito de os pescar à noite, pois vêm às luzes dos candeeiros fazer exactamente aquilo que refere: caçar peixinhos miúdos.
      Chama-se a isso "Street Fishing" e há muita gente que a faz, a seguir ao jantar, para se distrair.
      Não deixa de ser curioso ver famílias inteiras a pescar, nos canais e pontões, dentro das cidades.
      Abraço
      Vitor

      Eliminar

Enviar um comentário