PARASITA MUITO COMUM

Um físico e alquimista chamado Paracelso dizia há muitos anos atrás que “entre o veneno e o medicamento está uma coisa que se chama dose”.
É tudo uma questão de quantidade.
O tema que vos trago hoje tem muito a ver com isso, com a capacidade que os nossos peixes têm de suportar verdadeiros flagelos provocados por parasitas. Que os sugam, que lhes mordem, que os deixam sem pinga de sangue. E até que lhes comem a ...língua!
Não é um tema fácil, mas se queremos ser pescadores de verdade, temos de saber tudo sobre os nossos peixinhos, e isso passa também pelas doenças e contrariedades que eles enfrentam na sua vida.


Uma Juliana, ou Badejo bacalhau, de nome científico Pollachius pollachius, vitima de uma pulga do mar. Vejam a marca no lombo.


Um dos mais aterradores parasitas que podem enfrentar é algo que nós, pontualmente, conseguimos ver a olho nu: a pulga do mar.
Cymothoa exigua de seu nome, ou pulga do mar, é um crustáceo parasita da família Cymothoidae. Entra no corpo dos peixes pelas suas brânquias, e agarra-se com unhas e dentes à sua língua.
Pode acontecer que sejam dois, e normalmente um casal: A fêmea agarra-se à língua e o macho às guelras, logo atrás da fêmea.
As fêmeas têm de 8 a 29 mm de comprimento e de 4 a 14 mm de largura máxima. Os machos têm de 7,5 a 15 mm de comprimento e de 3 a 7 mm de largura.
O parasita destrói a língua do peixe e liga-se à base do que era antes a língua. Passa a alimentar-se de muco, carne, sangue e restos alimentares do seu portador.




A pulga do mar extrai sangue utilizando as garras que tem na frente do corpo, causando atrofia na língua do peixe.
O parasita substitui então a língua agarrando-se firmemente aos músculos da base da língua. O peixe é capaz de usar o parasita como uma língua normal e, aparentemente, o parasita não causa nenhum outro mal ao peixe hospedeiro, que não a perda de algum peso.
Este é, até ver, o único caso conhecido de um parasita que substitui funcionalmente um órgão do hospedeiro.
Quando o peixe hospedeiro morre, o parasita desliga-se da língua, deixa a cavidade bucal do peixe e procura outro peixe.




Estamos agora a passar um momento crítico na vida das nossas douradas. Por enquanto ainda estão com força, com peso, e gozam de boa saúde.
Mas no fim deste ciclo reprodutivo, estarão com menos peso, magras, e por isso mesmo mais sujeitas a infecções e acessíveis a parasitas.
A pulga do mar é um deles. Vamos ver as douradas fazer o seu retorno aos locais habituais de alimentação e permanência, num estado que diria deplorável.
Passam a estar cravadas de pulgas do mar, normalmente numa zona exterior da cabeça, por cima do opérculo, e por vezes mais que um parasita.
As garras da pulga são de tal forma fortes que, pese os esforços da dourada, esta não conseguirá retirá-la.
Ficarão durante meses com este hospedeiro, e sempre com uma cicatriz bem marcada. Podem ver abaixo duas fotos, não muito felizes confesso, que fiz de uma delas, com cerca de 2,5 cm.




Muitos outros peixes são vitimas destas pulgas, as quais, se existem, alguma razão terão para isso.
Ainda que de momento, e para nós pescadores que tanto gostamos dos nossos peixinhos, que os queremos saudáveis e fortes, essas razões não sejam muito evidentes, e de todo convenientes...
Passávamos bem sem elas.



Vítor Ganchinho



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Comentários

  1. Boa tarde. Já encontrei agarradas ao dorso de alguns cargos. Pergunto se será saudável comermos esses peixes atacados pelos parasitas

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    1. Bom dia

      Os sargos nem são os peixes mais atacados por esta pulga do mar. Mas efectivamente também lhes acontece ficarem à mercê deste tipo de parasitas. Já pesquei alguns com este problema.
      As douradas estão agora a iniciar esse processo. Muitas delas, por estarem mais fracas pelo esforço da desova, vão ficar com o lombo cravado por bichos destes.
      Não provoca mal de maior, para além do incómodo que podemos adivinhar. Ao fim de algum tempo, o animal acaba por recuperar, e consegue desalojar o indesejado inquilino, desde que a localização seja exterior. Recuperamos muitos peixes com cicatrizes e isso quer dizer que esteve lá e saiu.
      Imagino é o sacrifício dos peixes que ficam com eles alojados na língua.

      Faz parte...


      Abraço
      Vitor

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  2. Um dia, estava à pesca apeada a ver se apanhava uns sarguitos. Senti um a picar e tento ferrá-lo. Ferrou mas desferrou logo de seguida. Recolho a linha e vinha um desses bichinhos na ponta do anzol. Acho que fiz um sargo feliz

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    1. De certeza que sim!
      Podia ser um sargo, ou...uma dourada.
      A boca delas é tão rija que não é fácil ser passada pelo anzol. O anzol prende, mas quando ela sacode a cabeça, acaba por saltar.
      As pulgas do mar podem, ocasionalmente, viver dentro da boca dos peixes.
      Mas também pode acontecer que o peixe passe no sentido da linha, a movimentar-se direito à isca. Se a baixada firmar naquele ressalto, o peixe sente a resistência e avança, para se libertar daquela pressão. Nessa altura, ao ferrar, a desgraçada da pulga leva a pancada do anzol e fica presa.
      E aparece-lhe a si....

      Estamos agora a chegar á altura do ano em que elas serão mais activas, em que massacram mais peixes.

      Abraço
      Vitor

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