IR PESCAR COM AMIGOS

Assumo a pesca como algo que me interessa para o meu bem estar.
Posso fazê-lo de duas formas: sair ao mar sozinho, para pescar da forma que eu quero, que eu gosto, e que me parece ser a mais adequada para as condições desse dia. É um momento de puro egoísmo, em que cuido de mim e esqueço tudo aquilo que fica do lado de fora daquele mundo. É um barco, uma cana, uma amostra e um peixe.
A estes dias correspondem pescas ditas “de estalo”, porque consigo aplicar tudo aquilo que sou e tudo aquilo que aprendi ao longo de 54 anos de pescador.
Do outro lado da linha de água, há peixes que me desafiam, que desfilam perante mim as suas incríveis habilidades de morder um jig, uma amostra, sem ficar presos. Alguns conseguem.
A concentração máxima que nos é dada pelo facto de não termos de repartir atenções a bordo torna a pesca um acto de enorme eficácia. Os equipamentos modernos deixam muito pouco espaço para falhas.
São dias em que mais que pescar, (solto grande parte dos peixes capturados), aquilo que quero mesmo fazer é estar à pesca. Não é a mesma coisa.
É testar as minhas ideias, é pôr em prática aquilo que imagino poder resultar com aquele vento, aquela maré, aquela onda, naquele momento do dia.


Este meu amigo pescou a sua primeira lula, e ficou feliz.


Nem sempre é fácil fazer isso quando estamos rodeados de gente.
Desde logo porque conhecemos bem essas pessoas, sabemos como gostam de pescar, e sabemos se elas têm ou não interesse material no peixe que capturam.
Dificilmente me sentirei alguma vez confortável a pescar LRF a pequenos peixes, eventualmente para libertar logo de seguida, se estou com alguém ao lado que tem como objectivo encher uma geleira de peixe para levar para casa.
Quando isso acontece, aquilo que faço é prescindir de fazer aquilo que gosto, para fazer aquilo que devo. No fundo, anulo grande parte daquilo que me leva à pesca.


A dada altura, ferrei uma bica e passei-lhe a minha cana Xesta, o meu elástico. O sistema é de tal forma ligeiro e flexível, que a ideia é de que nunca seremos capazes de pescar um peixe com ela. Na verdade, devemos corrigir para “um peixe que toca, dificilmente será capaz de escapar”…


É muito raro que se consigam reunir todas as condições para ir ao mar com amigos que, nesse dia e nessa hora, querem estar connosco a pescar exactamente da mesma forma que nós gostaríamos de estar a pescar.
Devo dizer-vos que tenho pessoas amigas que saem regularmente comigo e são absolutamente exemplares nesse aspecto. Mas não deixo de sentir a pressão de lhes proporcionar bons resultados, quando, para mim, eles seriam dispensáveis.
O artigo de hoje é dedicado a três amigos brasileiros que saíram comigo à pesca e que estavam no sítio certo, na hora certa, a pescar como eu gosto de o fazer. É tão raro isso acontecer!...
Fiz zero concessões, zero frete, e por isso mesmo, guardarei na minha memória aquele dia como um dos melhores do ano.


Para quem chega de outro continente, pescar os nossos peixes, melhores ou piores, é uma satisfação. Todos são espécies novas...


Já é um privilégio estar com gente muito bem formada, gente “do alto”, gente que entende de pesca o mesmo que entende da vida, dos seus altos e baixos, das suas contingências.
Gente que assume a pesca como um momento de partilha, de troca de experiências, de conhecimento, de amizade.
Estive com pessoas que pescam no Brasil peixes de grande porte, espécies de extrema qualidade desportiva, e que tecnicamente sabem muito bem o que estão a fazer.
O facto de pertencerem a grupos de pesca muito organizados, e que pescam com frequência, leva a que saibam perfeitamente qual o nível de dificuldades que eu tenho de ultrapassar para que possa proporcionar-lhes um dia divertido, com peixe. E mais importante que isso: com bom ambiente.
Eles sabem valorizar o que é feito, e isso já é um primeiro passo para que tudo corra bem.
Senti que estavam verdadeiramente felizes, e isso enche o coração de alegria a quem tem de decidir, a quem tem de escolher fazer isto ou aquilo.


Os sarrajões apareceram, e embora pequenos, puxaram pelas linhas.


Saímos em Setúbal, e fomos para sul, até Sines. Havia aquilo que é costume nestas alturas, as bicas, as sardas, as cavalas de bom tamanho, as lulas, e um ou outro pargo mais atrevido.
Foi mais que suficiente! Bem sabemos que nem todos os dias aparecem os pargos acima de 10 kgs, ou os robalos de 8 kgs, e por isso mesmo, pescamos aquilo que está disponível, sem lamentos.
Recebemos de braços abertos aquilo que a natureza nos entrega, focando a atenção na técnica de pesca, (mostrei-lhes como se pesca com jigs de muito baixo peso, algo que nunca fazem no Brasil), e adoraram!
O Light Rock Fishing, quando aplicado a espécies de Inverno, é super divertido, porque num espaço de tempo muito curto, permite uma enorme diversidade de experiências.
Aquilo que penso é que muitas das pessoas que pescam, ou tentam pescar com jigs de pesos consideráveis, não perdiam por experimentarem um dia a fazer uma pesca mais leve, mais ligeira, porque os resultados são francamente animadores. É trocar uma ocasional picada, produzida a mais de uma centena de metros, e que pode ser a única desse dia, por umas dezenas de toques, que podem eventualmente incluir um peixe maior que aquele que iriam conseguir a pescar pesado.
O material não é o mesmo, a própria técnica em si também não, o esforço físico bem menor, mas os resultados são sempre mais animadores.




Poucas vezes me acontece que um grupo de amigos cante a peito aberto como este. Estavam felizes, e eu sentia-me feliz por isso.
Um deles trouxe uma coluna de som conectada ao seu telemóvel que deu música a todo o barco e a todos os peixes ao largo de Sines. Tudo gente boa!
A música, …essa é aquela que gostam de ouvir em Ilha Bela, S. Paulo: o forró, e outros estilos que tais. Penso que naquele ambiente, qualquer música, de qualquer origem, serviria para aquecer os corações. O importante era mesmo a comunhão de ideias, a satisfação de estar com amigos.

Coluna que colocaram no barco, a dar música para todos.


No fim, os peixes eram mesmo aquilo que menos importava, até porque grande parte do tempo foi para aproveitar uns petiscos, umas cervejas, e para falar sobre técnicas de pesca. É incrível a quantidade de informação que pode ser partilhada com quem assume ter tempo.
Quando questões como a quantidade e qualidade do peixe são secundárias, podemos concentrar as nossas atenções em detalhes que no futuro irão fazer a diferença.
No caso deles, foi o contacto com uma realidade de pesca diferente, e sei que gostaram. O Light Rock Fishing é um modelo de pesca que permite acção continua, e isso é muito estimulante para quem apenas quer distrair-se um pouco. 


Muito peixe foi libertado logo a seguir à captura, em boas condições de sobrevivência. Ficaram alguns exemplares para um sashimi em família.


Irei visitar estas pessoas em Setembro deste ano, e estou certo de que me vou divertir.
Porque a pesca em grupo é sobretudo isso.



Vítor Ganchinho



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2 Comentários

  1. Partilho deste momento: "que estavam no sítio certo, na hora certa, a pescar como eu gosto de o fazer. É tão raro isso acontecer!...
    Fiz zero concessões, zero frete,"

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    Respostas
    1. Bom dia


      Nem sempre conseguimos conciliar os interesses de toda a gente que se encontra a bordo.
      Quando tudo e todos estão em perfeita harmonia, acontece uma magia especial.

      Quantas vezes temos pessoas dentro do barco cujo principal interesse é levar muito peixe para casa. Por vezes é o único interesse, e não saber de técnicas, ou de equipamentos. Ou, o que não é tão raro assim, vai alguém cujo principal intuito é o de tirar pontos de GPS, para a seguir ir lá com o seu próprio barco. Acontece de tudo.

      Por isso resolvi chamar à atenção para um momento em que tudo esteve perfeito, sem
      nada que pudesse estragar o bom ambiente de que todos disfrutámos.

      Tem dias...



      Vitor

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