ÁGUAS DE SINES

Pesco com muita frequência nesta zona de que vos falo hoje: Sines.
As razões são simples e posso enumerar algumas delas aqui: ponto prévio, a costa está bem forrada de pedra, indiscutivelmente. Os fundos são muito interessantes, há muito escolho para um peixe se esconder e escapar às armadilhas que lhe são lançadas a cada instante.
Também há, pelo recorte de pedra da costa, muita comida disponível para os peixes mariscadores, os sargos, as douradas, etc.
Os ventos dominantes de noroeste sopram por cima da Arrábida, sobretudo da ponta do Espichel, e seguem no sentido de Sines. São forças muito activas, potentes, e persistentes. Os ventos movem as  massas de água que circulam na baía de Setúbal/ Sesimbra e empurram-nas para sul. 
Essas correntes transportam consigo os sedimentos que saem do rio Sado, carregados de nutrientes. O peixe forragem segue esse alimento porque tem de o fazer e isso significa que por consequência também quem come esse peixinho miúdo é forçado a segui-lo, a dizer presente.
Os robalos, os lírios, os meros, os badejos, etc, são peixes que se alimentam de sardinha, cavala, carapau e outros peixinhos de menor tamanho mas não de menor interesse. Nada é por acaso, nada é isento de importância.

Badejo que deu 7 kgs depois de escamado. Um bom peixe para cozinhar, de carne branca, a sair às lascas.

Em Sines há grandes extensões com muita pedra partida, esburacada, que dão abrigo ao peixe. Se observarem bem, há toda a fileira dos molhes, pés de galo e blocos de cimento que formam labirintos de espaços escuros onde todo o tipo de peixe pode encontrar algum repouso.
Ali é virtualmente impossível lançar qualquer arte de pesca, e os peixes sabem e sentem isso. 
Como se não fosse suficiente, também soma o facto de as águas junto à costa serem fundas. Sines tem o porto mais fundo da Europa, caso não saibam, com 35 metros limpos. Os meros encontram ali um refúgio seguro. 
Acresce o facto de a frota pesqueira profissional ser menor que noutros lados e por isso mesmo, por haver uma menor quantidade de barcos a operar, também será menos activa no espaço, menos impactante.
Se pensarem bem, de Sagres a Sines há toda uma extensão de mar que será certamente pescada, mas muito menos, por obrigar a deslocações mais longas. O preço dos combustíveis não é um factor desprezível. No fundo, esta faixa de costa acaba por se proteger a si própria por um factor que tem expressão em termos de consumos de combustíveis e tempo: distância.
Por isso, por sentir que aquela zona tem algo a mais, por ter um mapa mental de sítios interessantes, ali vou com alguma frequência. Para mim, Sines oferece-me possibilidades de pesca bem mais atractivas que outros lados.
Mesmo a sair de Setúbal, não hesito em gastar algo mais, e perder mais alguns minutos, mas quando lanço os meus jigs à água sei que o estou a fazer com reais possibilidades de conseguir algo de excepção. Quero acreditar que vale a pena lançar, que não estou a malhar em ferro frio.
Por isso gosto de ir a Sines.

Estes badejos nórdicos, Pollachius pollachius, aparecem-nos quando as nossas águas ainda estão frias. É um peixe comum no norte da Europa.

Mas explicava-vos as razões de preferir pescar em Sines, e mais a sul se possível, se o mar deixar andar.
É verdade que a pressão de pesca é menor na zona do que algumas milhas acima, em Setúbal e Sesimbra. Por contra, toda a baía protegida que vai de Setúbal, a Sesimbra /Espichel e termina em Sines, é passada e repassada diariamente por artes profissionais.
Para aqueles que gostam de sair cedo para a pesca, não é difícil entender isso: há traineiras de luzes ligadas a trabalhar em cada recanto, cada uma na sua faina. Ninguém a pôr peixe e todos a retirar algo...
Não custa perceber a quantidade de barcos a largar redes, covos, aparelhos, que operam diariamente neste espaço. Muitas vezes, quando acabam de levantar as redes e iniciam o regresso ao porto de abrigo, chegam os pescadores lúdicos, armados das suas canas de pesca vertical, e dos seus estafados gansos coreanos. O local onde irão lançar as suas linhas acabou de ser pescado pelos profissionais, e o resultado não pode ser estrondoso.
Pesqueiros baixos são sempre mais sensíveis a estes excessos, e o resultado é mais uma pesca minguada para quem passa a sua semana a sonhar com grandes cometimentos. Não há milagres, os peixes que foram retirados pelos profissionais não estarão disponíveis horas depois para serem pescados por quem acredita que eles estão lá em baixo à espera de uma isca. Não podem estar...

Pesquei este badejo com um jig Little Jack, à venda na GO Fishing em Almada, uma peça espelhada a que recorro quando está alguma corrente e o pesqueiro é fundo. Se queremos e precisamos de baixar muito depressa, este é o jig. Fabrica-se em 30, 40, 60, 80 e 100 gramas.

Podemos lançar este tipo de jigs quando procuramos peixes com algum peso. Na circunstância utilizei 60 gramas, mas se as correntes estiverem fortes posso recorrer a 80 ou mesmo 100 gramas.
A boca destes badejos acomoda bem estes jigs longos. Vejam como é a boquinha destes bichos:


Passo-vos dois filmes que podem achar interessantes. Reparem na acção das canas ligeiras, em ambas as situações de canas com pesos inferiores a 100 gramas.
São canas Shimano, com carretos Daiwa Saltiga, de modelos diferentes. A linha de carreto utilizada, em ambos os casos é PE 1,2 Daiwa Saltiga e o fluorocarbono tem o diâmetro de 0.33mm, para mim um standard, nunca pesco mais grosso que isso quando faço jigging ligeiro nas nossas águas.

Aí vai:


Clique nas imagens para visualizar e na rodinha das definições para melhorar a qualidade.



Espero que tenham gostado deste artigo.


Vítor Ganchinho


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4 Comentários

  1. Infelizmente as nossas aguas são bem diferentes das de Angola, mas támbém albergam alguns bons exemplares para nos divertirem nas nossas saidas.
    Saude e tudo de bom

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    1. E minha opinião que as pessoas que não capazes de pescar peixes pequenos dificilmente conseguirão algum dia pescar um peixe grande.
      Toda a enormidade de gestos técnicos necessários para concretizar a captura de um peixe, desde o lançamento, a ferragem, o combate, e a posterior solta ou colocação na geleira, são aprendidos e treinados com peixes pequenos.

      As pessoas que fazem capturas de marlins, ou de atuns, ou tubarões e não pescam peixe miúdo, são pessoas que na maior parte dos casos, para não dizer sempre, recorrem a skippers que lhes preparam tudo. E muitas vezes aqueles que figuram na foto oficial de captura pouco mais fizeram que enrolar meia dúzia de metros de linha.
      Com um pouco de sorte, sentaram-se numa cadeira de combate, deram meia dúzia de maniveladas e a seguir foram fumar um charuto.

      O desgraçado que preparou tudo, que ferrou o peixe, que o meteu a bordo, esse nunca figura na foto.

      Para mim, ser capaz de ferrar sargos, douradas, pargos, etc, é uma escola que nos vale em qualquer situação. Da mesma forma que, para quem faz caça submarina, ser capaz de arpoar alguns sargos significa ser capaz de fazer qualquer tipo de peixe.
      São eles que nos ensinam a fazer. Nós temos peixes atlânticos que são mestres do disfarce, da manha, da esperteza. Quando os conseguimos, temos o brevet tirado...
      Podemos ir dar a volta ao mundo que estamos ...sempre bem.

      Abraço
      Vitor

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  2. Olá Vitor.
    Eu gosto muito de pescar em Sines com o meu kayak.
    Pesco bons robalos e curto ferrar os sarrajões que dão boa luta.
    Descanso um pouco fazendo algum "jigging" e guardo uns carapaus que também aprecio.

    Gostava de usar melhores canas do que uso e decidir por um kayak que me leve mais longe, mas necessito de dominar melhor a tecnica (Para isso inscrevi-me em tempos num curso de jigging que nunca aconteceu XD).
    Vou continuar a explorar essas paragens generosas.

    forte abraço, paulo

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    1. Bom dia Paulo


      Sines é sem dúvida um dos meus locais favoritos de pesca.

      Para quem pode encostar bem a terra os robalos são uma constante.
      O pai e a mãe deles serão, sem dúvida, os molhes. É ali que eles se protegem de tudo o que de mal lhes queiram fazer, e só à linha é possível tirá-los de lá.

      Continue a dar-lhes com força!

      Os cursos de LRF/ Jigging estão interrompidos porque a maior parte das pessoas não quer aprender técnicas, quer saber onde pesco. Apenas.


      Abraço
      Vitor

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