ANDAM AÍ BICHOS ESTRANHOS

Não sabem ler e por isso não adianta colocar placas “proibida a entrada a estranhos ao serviço” no fundo do mar.
Os peixes deslocam-se por não haver barreiras físicas e por encontrarem em novos habitats marinhos as condições mínimas para que possam sobreviver.
Por vezes são perfeitos desconhecidos, (fiz um “blue runner” africano há algum tempo na Comporta, com um vinil), outras são apenas variantes de peixes já conhecidos e que de repente começam a surgir com tamanhos insuspeitos.
Neste leque de viajantes bem sucedidos e que acabam por conseguir o visto de residência, destaco um que pode vir a ser um caso sério na pesca à linha nacional.
Falo-vos de um aparentemente insignificante predador, de seu nome próprio “Serranus atricauda”, uma garoupinha que é muito comum nos Açores, e que vem competir com o nosso serrano, a conhecidíssima e pequenina “Serranus cabrilla”.
Tenho vindo a notar uma percentagem crescente de capturas, (sempre acidentais mas inevitáveis), deste tipo de serranídeo.
Se até há alguns anos os ataques se restringiam à nossa garoupinha endémica, neste momento, na zona onde mais pesco, Sines, a prevalência de casos começa a ser disputada por ambas as espécies.
Esta estava a 60 metros de fundo:

Esta garoupinha teria muito próximo de 500 gramas e elas crescem nos Açores até 1,5 kgs. Vamos ter bichinhos destes à solta em breve pelo país todo?...

Estão longe de ser raras naquela zona. Quem pesca em Sines sabe que cada vez mais aparecem aos jigs, e infelizmente não nos dão muitas hipóteses de sermos complacentes pois quando chegam à superfície já estão virtualmente mortas, ainda que aparentemente bem vivas. Mas o seu interior, devido à diferença brusca de pressão bárica, já explodiu.
Nenhuma irá sobreviver a uma diminuição de pressão tão grande, em tão curto espaço de tempo.
A sua bexiga natatória não tem tempo para proceder à descompressão em tempo útil. Caso seja lançada à água, na maioria dos casos nem chegam a conseguir afundar, pois a maioria delas sofre uma dilatação do abdómen por via da expansão de gases. Também é frequente que as órbitas fiquem salientes, o que significa que o peixe ultrapassou em muito a sua capacidade de adaptação a uma vertiginosa subida à linha de água.
Acabam por ser comida para gaivotas se ficarem à superfície, ou comida para safios, se conseguirem ainda assim chegar lá abaixo.

Imagem muito ampliada. As nossas garoupinhas pesam em média 150 a 200 gramas, quanto muito.

Neste caso avulta dizer que se travava infelizmente de uma fêmea, e estava ovada, no mês de Maio, o que quer dizer que há peixes destes que são residentes e encontram entre nós boas condições de sobrevivência. Daqui à propagação da espécie será um passo curto.
Em termos de pesca, e porque se trata de um predador muito eficaz, é de esperar que venham muito rapidamente a fazer parte integrante das capturas diárias de muitos daqueles que fazem pesca vertical, (a sua distribuição pelos fundos pode chegar a batimétricas próximas dos 100 metros), e também de quem pesca com artificiais, nomeadamente aqueles que pescam com jigs ou vinis.
Se nos Açores elas são visíveis a menos de cinco metros de profundidade, imaginem que irão colonizar grande parte do habitat agora pertença da sua “prima” mais pequena.
Como irão estabelecer a sua relação, como irão distribuir-se pelos fundos, como irão competir pelo alimento e até a sua própria inter-predação é algo que não poderemos responder de imediato.
Mas tenho a certeza de que daqui a um ou dois anos já saberemos muito mais sobre este assunto.


Podem não entender quais as verdadeiras repercussões da presença deste tipo de espécies invasoras, mas digo-vos que raramente serão benéficas para o equilíbrio que se pretende estável, e mais que isso, para a manutenção dos stocks de peixes que mais nos interessam.
Parece óbvio que um peixe que se lança a um jig que mais não é que uma imitação de um pequeno peixe costeiro é um sinal daquilo a que este predador vem.
Irão competir em termos de alimento com todos os outros peixes que temos como nossos, aqueles que conhecemos bem, e no fim alguém irá sair a perder.

O jig utilizado foi um Little Jack de 40 gramas, na versão luminescente, equipado com uma lula de vinil também ela luminescente. A razão pode ser explicada: comecei a pescar logo à alvorada, com o sol a nascer, e não havia muita luz no fundo.

Vamos ver a evolução deste caso, sendo de prever que muito mais peixes irão ser capturados nos próximos tempos.
Na minha óptica, seria interessante que fossem reportados os casos de peixes desta espécie conseguidos ao longo de toda a costa portuguesa.
O blog pode e deve servir precisamente para isso, para que os nossos pescadores passem informação a todos os outros. E para que se consiga construir um mapa
com a distribuição real deste tipo de garoupa. Vamos ver se as pessoas colaboram….

Ei-la, a “Serranus atricauda”, uma espécie invasora que cada vez aparece mais entre nós.

Na mesma zona apareceram uns peixes balão verdes que podem eventualmente ser a mesma espécie que provoca intoxicações alimentares fulminantes no Japão.
Pode não ser o mesmo peixe, e pode, sendo o mesmo, também pode acontecer que não sejam tóxicos por não existirem por cá as mesmas algas e/ ou toxinas.
Pronunciem-se os biólogos desta terra.
Pelo sim pelo não, é bom não pensar em comer os bichos...


Vítor Ganchinho


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4 Comentários

  1. Olá Vitor.

    As nossas garoupinhas em Peniche, são uma autentica praga.
    Por vezes, para descansar um pouco a pernas de uma sequencia de trolling no meu kayak, paro um pouco aos diversos para tentar algum sargo. Cada vez mais, essas garoupinhas atacam os nossos anzois sistematicamente, não restando outra alternativa senão regressar ao trolling e castigar as perninhas.

    Forte abraço.

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    Respostas
    1. Agradeço a confirmação de que se tratam de facto das nossas, a endémica, a " Serranus cabrilla", porque até ao momento não tenho qualquer referência quanto à presença da garoupa açoriana, a "Serranus atricauda" por essas paragens.

      Se um dia estas últimas chegarem por aí, atenção, são um peixe excelente para comer, são deliciosas. E suportam meses de frigorífico.
      Se neste momento elas são uma praga, imaginem uma "praga" com 1,5 kgs....


      Obrigado pelo comentário.

      Abraço
      Vitor

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  2. Mais um excelente artigo.
    As "nossas" águas estão a mudar a um ritmo muito acelerado são várias as espécies que vão aparecendo para ficar na nossa costa, o rascasso da Madeira, o verme fogo entre muitos outros!
    Alterações ao ecossistema raramente trazem pontos favoráveis, mas sendo estes forçados pela Mãe Natureza por norma tendem a criar equilibrio.
    Neste caso apenas podemos ir observando e adaptando a estas mudanças.
    O peixe porco sendo presente em quantidades muito generosas na nossa costa não tinha qualquer valor económico, hoje em dia já não se pode dizer o mesmo talvez muito por culpa das redes sociais, é o mundo em constante mudança.

    Abraço Vitor

    Emanuel Fernandes

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    Respostas
    1. Boa tarde Emanuel Fernandes. Obrigado por estar aí desse lado.

      Está tudo a mudar e certamente nem tudo para melhor.
      Eu sinto que o mar que tenho à frente não é hoje o mesmo de há 5 anos e muito menos aquele que tinha há 30 ou 40 anos atrás.
      Não deixo de pensar naqueles tempos com alguma nostalgia, quando os materiais de pesca eram muito ruins, mas havia tanto peixe que compensava tudo isso.

      O peixe porco vende-se em supermercados a 14 euros o kg.
      Por isso as traineiras arrasam os cardumes, enrolando-os nas redes assim que chegam.

      Num lance fazem 5 ou 6 mil euros e está o dia feito...

      Como dizem os espanhóis, é um dia de fartura e vinte dias de fome.


      Abraço
      Vitor

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