Posso dizer-vos que os safios grandes, normalmente designados por congros, têm uma chegada ao pesqueiro quase que ...anunciada.
Temos peixe na sonda, alegre, a comer junto ao fundo e a dado momento esse peixe alvora dois ou três metros. Primeiro sobe, afasta-se do fundo, e a seguir pura e simplesmente desaparece.
Para quem gosta de ferrar choupas, carapaus, parguinhos, etc, é um momento de desalento.
De repente, os peixinhos que alegremente mordiam os nossos anzóis com denodo, com vontade, foram-se embora.
Têm razões para isso, um mastodonte negro (que também os come se puder),....chegou.
A picada é suave, como suave é a sua abordagem à isca.
O safio não tem pressas, sabe bem que nenhum dos parceiros do lado irá roubar-lhe a sua refeição prometida.
Vamos assistir a uma discreta vibração da ponta da cana, repetida, lenta, e que pode durar mais de 30 segundos. Em qualquer desses momentos podemos ferrar.
![]() |
As manhãs escuras, preferencialmente com algum nevoeiro, são “terríveis” para os safios já que estes prolongam a sua noite de caça e continuam bastante activos. |
As opções são deixar engolir e garantir que o anzol firma dentro da boca, cravado na goela ou nas mandibulas, e isto pode demorar tempo, ou ferrar ao segundo ou terceiros toques.
A diferença é esta: se o deixamos engolir vamos ter de sujeitar a nossa linha ao desgaste da fricção com os seus dentes. Se o nosso fluorocarbono é bom, e grosso, não tem problema.
Já trazer o safio preso por fora da boca pode garantir-nos um trabalho mais limpo, menos riscos de rotura, e sem necessidade de substituição do estralho.
Confesso-vos que penso muitas vezes mais nisto, no pós ferragem, no trabalho que irei ter em mudar o anzol, do que propriamente no acto de pesca em si. Ninguém falha uma ferragem de safio!
Se for preciso, eles ferram-se sozinhos!
E se falhamos uma vez, temos logo outra hipótese de correcção a seguir, no lance seguinte. E outra e outra. Mandem-lhes comida....até os ferrarem.
Já sabemos que vamos ter uma luta que acaba invariavelmente por levantar penas na capoeira, os safios defendem-se bem, são astutos, percebem o que lhes convém e o que não lhes interessa mesmo nada, e jogam com a sua força e morfologia esguia.
![]() |
A ausência de luz favorece-os. Os safios vivem entocados e saem quando chega a penumbra. |
Não vale a pena pensarem em xalavares convencionais porque, ou bem que são disformes de grandes, e os peixes cabem lá dentro, ou vão perceber que aquela rede que têm na mão não foi feita a pensar em cobras daquele tamanho.
Já é um milagre que se consiga meter o animal dentro do xalavar, mas pode bem acontecer que ele salte ainda antes de o metermos no barco. Os movimentos que fazem, a rapidez com que enrolam e desenrolam, são suficientes para fazer perder a paciência a um santo.
Por mim, sem dúvidas um bicheiro. Um gancho em inox, comprimento de 1 metro e abertura de curva não inferior a 8/10 cm, e sim, ele sobe.
Para quem trabalha com barcos semirrígidos, aconselho a que invariavelmente se mantenha a ponta afiada virada para fora. Não seria o primeiro pescador a falhar a estocada e furar o flutuador....
Aquilo que se quer é um esticão brusco que o agarre a dois palmos da cabeça, e já está! Sobe e sobe bem, sem problemas de maior.
A bordo, um safio é um problema.
É bom que antes de iniciar a pesca se tenha uma imagem visual de tudo aquilo que irá acontecer a seguir à picada. Prevenir aquilo que irá passar-se ajuda a evitar danos e problemas.
Precisamos de espaço, de um sítio onde depositar o corpo do safio, certos de que ele vai explodir de energia e irá tentar voltar para a água. E eu já vi muitos deles a conseguirem-no, muito depois de entrarem no barco!
Ter uma moca curta e pesada, um pau em madeira muito densa, algo que nos sirva para dar três vigorosas pauladas na cabeça do bicho pode não só ajudar a “amaciar” a criatura como a dar alguma ordem ao barco. Por onde passam largam a sua característica "lisga", uma mucosa que lhes cobre a pele, escorregadia, persistente, e que irá incomodar-nos até à hora da lavagem.
Não descurar a possibilidade de eles morderem a mão a algum incauto que acredite na bondade deles....
Também vos digo que não é de bom tom guardar os safios na mesma caixa do outro peixe, chamemos-lhe o ...”peixe-fino”...
Não façam isso, o safio vai acabar por esmagar tudo e todos, trata-se de uma besta de força e não é bom que se misturem, a não ser que se proceda à sua morte antecipada, dando um golpe de misericórdia com um estilete na sua cabeça. Ou utilizando a moca, o tal pau de madeira de que vos falei antes.
É dar-lhes sem piedade, sem receio de posteriores remorsos.
Três pancadas bem “apessoadas”, firmes, com a gana com que o Corpo de Intervenção bate de cassetete nas "pacificas" pessoas das claques de futebol, ...devem chegar.
Vítor Ganchinho
😀 A sua opinião conta! Clique abaixo se gostou (ou não) deste artigo e deixe o seu comentário.