AMAZÓNIA - VENENOS E PERIGOS NÃO FALTAM... - CAP VI

Quando pensamos que somos suficientemente duros a natureza faz-nos friamente recordar que afinal não somos assim tão fortes.
Desta vez calhou-me um tipo de provação que não desejo a ninguém: ser mordido por dezenas de moscas, umas tais de “moscas mutucas”, tão incómodas quanto uma vespa, mas bem mais perigosas.
Mesmo com luvas de pesca calçadas, fui impiedosamente atacado pelas ditas.
Os sinais da sua acção fazem-se sentir por semanas: a pele explode em borbulhas e inchaço. Leva tempo a passar.
Porque estamos a fazer spinning, com os olhos concentrados na posição da amostra, não damos pela sua chegada. Pousam suavemente e sugam o sangue.
A mão direita, a que segura a cana, está estática, enquanto que a esquerda, porque roda a manivela do carreto está em movimento permanente.
Resultado: mão esquerda em boas condições, mão direita ...uma desgraça.

Reparem como sarou rápido, em dois dias, após a aplicação do líquido extraído da árvore.

Uma das árvores mais emblemáticas da selva, o molongoh, tem uma substância química no seu caule que a defende de invasores.
Imaginem se prendemos uma amostra numa delas, sem poder tocar no tronco para a soltar…
Aprendi isso da forma mais dura: numa tarde ventosa, quis chegar longe e lancei dois metros ao lado, para cima de uma árvore molangoh.
Por azar dos Távoras, o estupor da amostra ficou bem cravada pelos dois triplos. Apenas encostei a mão à casca da árvore alguns segundos, tempo suficiente para arrancar as fateixas do tronco.
À noite, a comichão instalou-se. Estava condenado a uma série de dias de pele infectada, com células mortas a rebentar com a inflamação.
A árvore defende-se assim de quem a quer atacar.

Ninguém conhece melhor os segredos destas árvores do que os índios.

Vejam o filme:
Escutem as araras na floresta.
Clique ne imagem para visualizar e na rodinha das definições para melhorar a qualidade.

Dias depois, já com a mão na última desgraça, falei com um nativo que me disse: “pois, isso acontece a muitos daqueles que nos visitam, é até muito comum. Nós temos um antídoto, um líquido extraído de uma árvore que cura isso…”.
Arranjou-me um pequeno frasco e resultou. Vim posteriormente a saber tratar-se de um potente anti-inflamatório índio, natural, um óleo de nome "Andiroba" que extraem de uma árvore.
Vim a saber que o princípio activo é uma tal de "Pocaíba", informação dada pelo clinico, o meu amigo Dr. Gustavo.
Os venenos existem na floresta mas o mesmo espaço natural dá-nos a cura…

Nestas “praias” é possível ver jacarés de 5 metros a apanhar sol.

Na selva amazónica damos por procedimentos que não nos são usuais.
As janelas são calafetadas com espuma, para impedir a entrada de marimbondos, um insecto gigante que não nos ataca mas caso tenhamos o azar de o esmagar com a mão, deixa-nos a arder por dois dias.
Não queiram ter uma queimadura na pele feita por um destes “artistas”...

Há quem cace moscas “mutucas” mas a produtividade é baixa para tanta mosca...

Porque tratamos de venenos, eles são a rodos…e muitos deles seguramente ainda desconhecidos da própria ciência. Muito haverá a descobrir na Amazónia. 
Cada aranha, cada cobra sucuri, podem guardar um horror de veneno. Ao final da tarde vi entrar uma cobra verde no meu barco. 
Com este fundeado, a dada altura, vinda da margem, a cobra aproximou-se da zona dos motores. E foi por aí que penetrou no seu interior. Fiquei atento mas numa imensidão de espaço daqueles, (o barco é grande!) não a voltei a ver. 
Ter uma cobra a bordo não é famoso, e por isso avisei o comandante da embarcação. A resposta não podia ser mais estranha: “Sim, essas entram e saem”…

O mosquito do dengue existe nesta região, o que obriga a cuidados redobrados.

À noite as onças patrulham os seus postos de caça, porque têm de comer carne. As anacondas amazónicas são aquilo que se sabe...
Os jacarés, espreguiçam-se ao sol e, se incomodados pela nossa presença, deslizam languidamente dos troncos secos para a água.
Ouvi o ruído de um deles a cair para a água a poucos metros, mas quando olhei para o sítio não o vi. Restavam apenas os círculos concêntricos de algo que entrou na água; algo grande e pesado.
O meu companheiro de pesca Gustavo fotografou um mas o “celular” dele não é um I-Phone 17, será alguma marca BR, “barato & ruim”, e a imagem saiu fraca. Que pena! Vejam abaixo:

Estes “meninos” atacam a partir da água, e são ...incómodos.


A verdade é que, tirando as moscas que a todos afectaram, (algumas pessoas são alérgicas e ficam com marcas durante muito tempo...), nada de especial aconteceu. 
A maior parte das queixas chega de pessoas com ombros, pulsos e cotovelos doídos, mas isso decorre dos milhares de lançamentos feitos durante aqueles dias. 
Ajuda ter conosco gente muito experiente, gente que já esteve lá muitas vezes e sabe dar resposta quando é necessário. Depois, o espirito de companheirismo e amizade que se gera levam a que o problema de um seja o problema de todos, e ...tudo se resolve. 
É remarcável o apoio que se consegue obter daquelas pessoas, gente amiga, solidária, e que tudo faz por manter um bom espirito de grupo. E mais que isso: gostam de nós portugueses. Somos alvo de piadas, mas no fim, dão tudo para nos ver felizes. 
Isso ajuda, porque as dificuldades são muitas. O que mais assusta é mesmo a imensidão de mata e água, ultrapassa em muito a compreensão que temos daquilo que é um rio. 
Bem vindos à Amazónia, bem vindos ao fim do mundo, onde tudo o que é estranho para nós europeus é ali perfeitamente normal.
No próximo capítulo, o VII, vamos ver peixes.


Vítor Ganchinho


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