ROBALO - TEMPERATURA DA ÁGUA E ALIMENTAÇÃO - CAP II

Para quem pesca apeado, alguns desafios se levantam, mas nem tudo é negativo. 
Em determinados momentos do ano, do mês e do dia, os robalos estão “colados” à praia, e se houver ondas e ressaca, eles estarão na rebentação.
Nessas circunstâncias, pescar de terra acaba por ser uma vantagem, assim se saiba tirar partido do facto de não estar numa embarcação a qual, forçosamente, irá emitir ruídos no meio aquático.
Ser sigiloso, discreto, é um dom e uma característica comum a todos os grandes pescadores.
Em zonas baixas, o pescador actua por aproximação, furtivamente, e tenta maximizar as suas capturas, mas aquilo que de melhor pode esperar no caso de robalos grandes são uma a duas capturas, não mais.
Eles aprendem muito depressa que há algo errado naquele presumido "peixe" que afinal é feito em plástico. 
A seguir há que sair e procurar outro lugar, umas dezenas ou mesmo centenas de metros mais à frente, onde se possa repetir a pesca.


Os pequenos exemplares de robalo podem ser encontrados perto da costa e são um pouco mais permissivos, por menos experientes, mas esses não são os robalos troféu que tanto ansiamos.
Os grandes, os que brilham nas nossas fotos de telemóvel, aparecem junto à costa aquando dos preparativos para a desova, a ocorrer nos meses de Novembro e Dezembro, em locais de areão grosso ou recantos na pedra com areia no fundo,  onde fazem covas e depositam os ovos.
Poucos peixes guardam a reprodução para Janeiro já que as temperaturas nessa altura do ano são muito baixas e convidam a descer na coluna de água, até às reconfortantes termoclinas da centena de metros de fundo.
Irão voltar na primavera, em Março/ Abril, mais magros, quando os raios de sol começarem a aquecer a primeira capa de água junto à costa. 
A temperatura da água do mar é sem dúvida um dos principais factores a afetar a migração sazonal do robalo. Também influencia a quantidade e qualidade de alimentação do nosso predador. 
Os robalos pequenos tendem a comer camarões, lagostins e minhocas-da-areia, enquanto os robalos maiores se concentram principalmente em caranguejos, lulas, chocos e diversas espécies de peixes.

O conteúdo estomacal dos robalos maiores é predominantemente composto por caranguejos costeiros, os ditos caranguejos verdes dos sapais, e, menos frequentemente, caranguejo pilado.
Estes últimos são uma dádiva do céu não só para robalos mas também para muitas outras espécies, porém não estão disponíveis em permanência, não são algo acessível todos os dias. 
Quando aparecem são cobiçados e perseguidos até não caber mais nada no estômago.
Não deixa de ser curioso que se encontrem poucas tainhas no estômago dos robalos, quando é uma das espécies mais comuns na nossa costa. Aparecem sim em exemplares de grande tamanho, e aí as tainhas podem ter dimensões consideráveis.
Um robalo de 10 kgs engole viva uma tainha até cerca de 1 kg de peso, sem dificuldade. Vão vê-los a fazer isso nas noites de verão, na muralha do Clube Naval Setubalense, onde se juntam milhares de tainhas e ...alguns robalos. Desses, dos grandes....


Mas o comum é que se encontrem no estômago peixes longos e finos: as galeotas, os peixes agulha, e até minúsculos safios.
Outro alimento muito apreciado são...as pulgas do mar. Os jovens robalos ficam loucos com elas, dão-lhes primazia. Se houver uma grande proliferação de pulgas na água, o robalo juvenil irá alimentar-se exclusivamente delas.
Larvas geradas em montes de algas em decomposição também lhes servem, e por isso a sua atenção a tudo o que pode ser alcançado perto da linha superior da maré alta. O peixe segue a linha de maré até onde pode.
Não perdemos por, ao invés de chegar à costa e começar a pescar de imediato, tentar dedicar alguns minutos a tentar entender o que é nesse dia a presa preferida do robalo.
Debaixo das algas pode haver tiagem, podem haver pulgas do mar, muitos camarões e até caranguejos.
Um pontapé num tufo de algas pode ser importante. Toda a informação é útil, mesmo a que nos parece à primeira vista ...inútil...


Observar as águas rasas para ver se os robalos estão a alimentar-se, ajuda. 
De qualquer forma, e quando pescamos apeados, caminhando sobre a areia da praia, devemos mover-nos com cuidado, pois eles podem estar lá, por vezes muito mais perto da costa do que se imagina.
Um robalo pode estar a menos de um palmo de água....
Já quanto à sua vontade de morder, deixo-vos esta minha observação: quando temos frentes frias a passar na nossa zona de pesca, é natural que mais de metade dos peixes não esteja activa. 
Isso reduz de alguma forma as nossas probabilidades de conseguirmos picadas, mas faz parte do jogo.
O que nos leva a um dado curioso: é verdade que nem todos os peixes se alimentam ao mesmo tempo, mas existe um relógio biológico que cria uma tendência. Eu chamo a isso um ciclo de alimentação.
E nas nossas águas noto-o claramente a partir da terceira hora de enchente, até uma hora após o estofo da maré cheia.
Nesse período tenho a maior e melhor quantidade de contactos com o peixe. Ainda assim falamos de um espaço temporal de quatro horas!
Se não temos uma maior regularidade, um intervalo de tempo mais curto, isso deve-se, na minha óptica, a que alguns peixes estão saciados "no momento".
Os peixes, na verdade, respondem a impulsos naturais, instintos primitivos, à fome! Se já comeram...

Dificilmente poderia ser de outra forma: enquanto alguns peixes podem estar digerindo uma refeição completa, outros não tiveram sorte na sua prospecção de maré e ainda estão no ponto zero.
Há um desequilíbrio evidente. Muitos dos robalos que capturamos nada têm dentro. 
Mesmo peixes com o estômago bem “forrado”, e dado o surgimento de uma oportunidade irresistível, não desdenham comer algo mais. Quantos robalos ou pargos já pesquei nestas condições, de estômago e boca cheia?!...
Estômagos cheios não significam ausência de actividade, mas sejamos francos, é muito mais natural termos uma picada de um peixe faminto, ávido de comida, que o contrário.

Pescamo-los, na maior parte dos casos, ...pela fome.


Vítor Ganchinho


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