É o sonho que nos leva.
Para muitos, senão a maioria dos pescadores, é importante que exista a perspectiva, (embora nem sempre isso seja acompanhado de concretização), de capturar peixes grandes.
Mesmo que não se pesquem, queremos saber que eles estão lá.
Já os outros, os pequenos, enfim, ninguém se importa muito com os pequenos, para nós estão lá só como “reservas”, à espera de crescerem.
Se tudo o que há são miudezas e se estes ainda por cima são em número escasso, então pouco ou nada justificam que nos levantemos cedo da cama para ir ao mar.
É o grande que motiva. Para o pescador de mar, a única coisa que verdadeiramente conta é mesmo o tamanho grande, o maior possível, claro.
E se a motivação é esta, então que se aponte ao recorde. Esse elemento do “máximo desconhecido” é psicologicamente importante para todos nós.
E para que aconteça um peixe recorde, o que é necessário?
Se as pessoas crescem ao seu tamanho máximo na adolescência, será que isso é comum aos peixes?
Por acaso não. A idade máxima de cada espécie de peixe é definida, dentro de limites bastante amplos, mas não o seu tamanho.
Pode haver até discrepâncias de tamanho e peso enormes entre indivíduos. São as características do habitat que definem a taxa de crescimento.
Desde logo a temperatura média das águas: em mares mais frios, uma espécie tende a crescer mais lentamente, viver mais tempo e amadurecer mais tarde do que na parte mais quente de sua área de distribuição.
Ao contrário dos humanos, um peixe tende a aumentar o seu comprimento e peso ao longo de toda a sua vida.
Devido a este facto, existe sempre a possibilidade de capturarmos um peixe que cresceu mais que os outros da mesma espécie. Pode perfeitamente acontecer termos a sorte de conseguir uma captura de um exemplar que, por força de melhores condições de alimentação e temperatura ambiente teve um crescimento maior. Ou que, por força de viver numa zona menos apoquentada por pescadores e predadores naturais, possa viver mais anos e por isso tenha mais tempo para completar o seu crescimento. E que por isso mesmo seja maior do que qualquer outro já capturado.
Por absurdo, um peixe recorde que seja libertado pode vir a ser de novo o “tal especial”, caso cometa a asneira de se deixar enganar de novo por um pescador. Entretanto ...cresceu.
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| Os peixes recorde andam por aí, ....e podem acontecer a qualquer um de nós. |
O tamanho, o crescimento, o peso e a idade dos peixes é pois algo que devemos relativizar porquanto pode sempre acontecer que um outro peixe tenha ainda melhores condições que o nosso máximo.
E que por isso venha a ser o nosso novo peixe recorde. Queremos sim que esses peixes nos deem luta, que se batam até ao fim, que mostrem a sua bravura.
Sei de uma fêmea de robalo pescada em Peniche que deu 14 kgs. É um disparate para um peixe que nos habituámos a pescar de forma comum abaixo dos 5 kgs, sendo raros os exemplares que conseguimos acima desse peso. Mas aquela fêmea ovada deu aquele peso e o pescador profissional que a conseguiu terá ficado feliz.
Pena não ter sido um pescador de linha a fazê-la, porque esse seria um excelente recorde para um peixe selvagem.
E depois há os outros, os que nascem com o fim de serem engordados até atingirem um peso padrão, ...o tamanho de “dose”.
Quem sabe muito sobre isto é quem vive de os fazer grandes, os homens das aquaculturas, que os vendem para os restaurantes.
Essas pessoas têm possibilidades de actuar sobre os peixes de uma forma que nós, pescadores lúdicos, nunca teremos.
Eles mantêm os peixes em espaços controlados, podem retirá-los a espaços de tempo regulares, e pesar e medir. Nós não podemos fazer isso, até porque as probabilidades de conseguirmos pescar o mesmo peixe duas vezes é remota.
Mas esses dados obtidos nas aquaculturas são altamente enganosos!
Imaginem que um safio na natureza cresce de forma progressiva e fica grande, vamos supor que atinge os 40 kgs de peso, ao fim de 20 anos. É possível conseguir o mesmo nível de crescimento num outro safio criado num tanque, em 5 anos, se lhe controlarmos a temperatura da água, a mobilidade no seu exíguo espaço, e se lhe administrarmos uma quantidade de alimento infinita.
Mas estas são condições de excepção, artificiais. Aquilo que nos interessa é o peixe de verdade, e esse não é controlável.
Mesmo a pesagem, marcação e solta em mar aberto de exemplares capturados com o objectivo de voltarmos a medi-los mais tarde pode não garantir qualquer efeito, já que as probabilidades de recaptura são baixíssimas.
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| Detalhe da linha lateral de um robalo. Nas escamas do peixe está gravado o seu BI, a forma como atravessou os anos bons ...e maus. |
Como podemos perceber a idade de um peixe?
A maior parte dos peixes tem escamas. E se eles possuem escamas ósseas isso já nos permite determinar a idade, assim tenhamos forma de ampliar a imagem de uma delas e perceber os seus anéis.
Cada anel, mais largo ou mais estreito, (isso depende da taxa de crescimento desse período...), representa um ano na vida do peixe.
O que devem fixar é que o crescimento é rápido no verão e lento no inverno e isso vê-se reflectido nas escamas.
O padrão nas escamas mostra ainda, para além destes períodos alternados de crescimento rápido e lento, breves interrupções no crescimento causadas pela desova.
Em algumas espécies, a idade registrada nas escamas é tão imprecisa ou incompleta que não tem valor prático.
Nesses casos difíceis, outras estruturas, como o osso opercular, uma das principais placas ósseas da cobertura branquial, podem fornecer um registro superior de crescimento e idade, também na forma de anéis concêntricos.
Algumas das estruturas internas dos peixes ósseos também mostram um ciclo anual de anéis ou linhas. Um bom exemplo são os otólitos ou ossos do ouvido, três dos quais estão presentes em cada lado da cabeça.
O exemplo mais conhecido é o dos otólitos das corvinas, particularmente grandes.
Mas muitos outros peixes são possuidores deste tipo de “acessório”, que entre outras coisas se julga ser o responsável pelo sentido de orientação do peixe.
Estes “sensores”, depois de removidos do ouvido interno do peixe, e quando analisados ao microscópio, permitem visualizar diversas camadas concêntricas, depósitos de carbonato de cálcio (daí a sua cor branca), as quais nos dão a informação necessária para sabermos a idade do peixe.
Contam-se as alternâncias de zonas opacas (formadas no inverno, perante águas mais frias) e zonas translúcidas (águas quentes de verão).
A maior parte dos nossos biólogos nacionais, que os temos de alto nível, sabe fazer isto.
Vítor Ganchinho
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