Norihiro Sato, um visionário que um dia chegou à criação de uma técnica de pesca hoje praticada por muitos milhões de pessoas, disse-me um dia: “Vitor, ninguém inventa uma técnica de pesca”...
Na altura não entendi o que me queria transmitir.
Afinal de contas ele próprio era o criador de uma técnica de pesca, o “slow-jigging”.
Alguns anos depois creio que começo a entender o sentido das suas palavras.
Na verdade, para uma técnica nova não se parte do zero, de uma tela em branco, tal como se pinta um quadro.
Na pesca, ensaia-se, tenta-se, perde-se, e por fim, se a técnica for eficaz, os resultados surgem, os peixes entram.
Mas nunca por nunca a técnica final é a que foi imaginada no princípio, de raiz, a partir de um fugaz click inspirador! Isso não existe.
O slow-jigging construiu-se como forma de pesca ao longo de anos....não foi uma inspiração momentânea de um minuto.
Segundo Satoh sensei, nada teve a ver com um raio de luz e sabedoria que caiu sobre si, antes se tratou de um longo e árduo processo de trabalho, feito de alguns avanços e muitos recuos.
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| Aqui ele ensinava-me a técnica de endurecer o aço de um anzol fino, de forma a dar mais resistência ao arame. Objectivo: aumentar a penetração na boca do peixe sem perda de resistência mecânica. |
Norihiro Sato diz-nos: “É o mar que nos ensina, que nos mostra como fazer”.
Cada vez que tentamos, que lançamos uma linha à água, somos surpreendidos com um efeito novo, um detalhe que não tínhamos considerado até aí.
E uma técnica de pesca é a soma de todos esses momentos separados: os positivos, poucos, e momentos negativos, muitos, imensos.
Ninguém sabe antes de tentar o que vai realmente acontecer, se o peixe acredita ou não, se morde ou não; apenas se tenta e observa.
E aí, Satoh sensei, o senhor Sato, observa melhor que todos os outros....
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| Jig que me foi oferecido e autografado por Satoh sensei. Este não o lançarei à água por nada... |
Com as devidas distâncias, creio ter criado também o meu próprio estilo de pesca.
Apliquei os princípios básicos do slow-jigging, mas não utilizo sequer o mesmo tipo de canas que este preconiza.
A ideia não é a de deixar à cana a missão de levantar o jig, de o fazer cumprir um determinado trajecto pré-definido do fundo à superfície, é a de poder eu próprio interferir a cada momento naquilo que me parece ser mais indicado, atendendo ao que vejo na sonda. Para mim não é igual pescar os primeiros metros junto ao fundo ou os últimos metros, perto da superfície.
Por isso não faço slow-jigging, puro, conforme consta do figurino.
Dei-lhe algumas nuances que o tornam, a meu ver, aqui, nas nossas águas e aos nossos peixes, bem mais eficaz.
Prescindo da execução perfeita, das voltas de carreto contadas, dos quartos de volta e dos oitavos de volta, dos padrões internacionais que toda a gente segue, e concentro-me no efeito que o jig produz no peixe.
Passo o predador para primeiro plano, e vou ao encontro daquilo que o peixe procura encontrar, naquele sítio e naquele momento.
Os tempos das marés, o efeito que estas provocam em termos de ciclo alimentar, são para mim bem mais importantes que seguir uma cartilha que, muitos querem fazer crer, é universal, e tem de ser aplicada sempre e em todo o lado.
Preciso de mais tempo.
Pese a quantidade de anos que levo a fazer jigging, tenho muitas dúvidas de que já possa dar a tarefa por concluída.
Na verdade ainda fico surpreendido com alguns dos efeitos deste ou daquele jig, por vezes o comportamento dos peixes não é aquele que espero, é melhor ou pior, ...sai do padrão normal.
O que significa que a minha técnica continua a ter espaço para evoluir, para crescer.
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| Esta é a hora em que “todos os gatos são pardos”, a hora dos peixes grandes morderem com força... |
Ponto prévio: não sou um indefectível apoiante da teoria do “quanto mais fundo maior é o peixe”....
Se alguma coisa os meus anos de pesca me mostraram foi que quanto mais longe da costa, quanto mais fundo, menos vida.
E querer encontrar peixes onde não os há, é um pouco como querer tirar leite das pedras.
Por isso procuro pescar em fundos baixos, onde os predadores encostam porque é aí que facilmente encontram comida. O mar alto, o mar das grandes profundidades, é um absoluto deserto de vida!
Faz sentido procurar o peixe onde ele está, e esse local é a faixa costeira dos primeiros 200 mts, onde 90% da vida oceânica evolui.
Têm uma forma fácil de entender isso: olhem com muita atenção para a vossa sonda.
Desses 200 metros, por questões que se prendem com o meu conforto físico e do entusiasmo que tenho em pescar peixes, eu fico-me pelos primeiros 60/ 70 metros.
Deixo tudo o resto para todos aqueles que acham que só abaixo dos 100 metros há peixes...
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| Fiz este badejo-bacalhau de 7.1 kgs a 72 metros, a sul de Sines, com um jig agulha Little Jack de 60 gramas. |
A observação quase contínua do ecrã da sonda dá-me muita informação.
Tenho o cuidado de manter um olho no momento presente, a linha vertical à direita da sonda. E só essa!
Essa é a única informação, a real, aquilo que está a acontecer naquele tempo preciso.
O resto, já foi, já passou.
Muitas pessoas olham para um ecrã de sonda e entendem-no como uma televisão, em que cada centímetro daquele rectângulo corresponde a uma fotografia exacta do fundo.
Profundamente errado. Não é o ecrã todo, é a linha vertical à direita....e só essa. Por comodidade, pelo hábito de olharem para ecrãs, querem transformar um sinal vertical numa fotografia panorâmica.
Isso dá-lhes uma imagem distorcida da realidade já que mesclam o presente com o passado, aquilo que está a acontecer nesse momento debaixo do cone de sonda do barco com algo que se passou instantes antes.
E que por isso mesmo... já não existe.
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| Entender a sonda, perceber o que se passa lá em baixo, ajuda-nos a pescar melhor. |
O foco das minhas acções de pesca vai invariavelmente no sentido de tirar partido das três faixas de água em que mentalmente divido o pesqueiro: o fundo, uma zona quente de 0 a 10 metros em que
viso os peixes que caçam emboscados, escondidos em estruturas, atentos ao que surge. Este é preferencialmente um território para o pargo, a bica, a dourada, o sargo, o mero, o peixe galo, a abrótea, etc.
Daí para cima um patamar intermédio, em que muita coisa pode acontecer, sobretudo em dias de mar calmo, em que o peixe de fundo sobe, alvora, e vem comer na coluna de água. Surgem aqui regularmente os robalos, as lulas, as choupas, os carapaus, etc, mas também acontecem os grandes pargos ou os excitantes lírios.
No último terço, os 15 metros da faixa superficial, já muito próximos do barco, são ocupados por pelágicos que evoluem muito próximo da linha de água.
Sobretudo quando as águas são limpas, temos aí as cavalas, os peixes agulha, as sardas, os atuns sarrajões, etc.
Cada uma destas faixas é trabalhada de forma ligeiramente diferente, com ritmo e amplitude de movimentos diferentes, porque os peixes não são os mesmos.
Não é igual procurar peixes predadores que caçam de emboscada ou predadores pelágicos que caçam por perseguição....
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| O autor com um bonito pargo macho, um capatão de 11 kgs. Pescado com um jig de 30 gramas, da Zeake. |
Deixei de dar cursos de pesca porque 99 em 100 das pessoas que levei ao mar tinham um interesse exclusivo no sítio, nas marcas GPS onde pesco.
E perdi imensos locais de pesca que eram muito bons e hoje são desertos absolutamente áridos....sem vida.
Por isso, torna-se mais difícil explicar qual a base geral de movimentos. Posso tentar por palavras, embora saiba que a realidade ao vivo ensina muito mais.
Como padrão, faço um movimento relativamente curto, diria de média amplitude, e a seguir uma queda em que por breves momentos o jig desce descontrolado, por si.
É o tempo de dar liberdade de movimento ao jig, deixá-lo cair a fazer vibrações, patamares, intermitências de queda lateral em folha seca e breves paragens, antes de nova queda, (algo que o chumbo faz na perfeição e que o tungsténio nunca fará....por excesso de densidade).
Sempre provocando os peixes que procuram presas fáceis, obrigando-os a reagir, a mostrar que são fortes e rápidos....
Este detalhe é para fixar: parece-me importante não controlar a descida do jig mantendo a linha esticada atrás dele, ou estaremos irremediavelmente a forçá-lo a cair como um prego.
Se lhe aplicamos pressão sobre uma das pontas, invariavelmente a ponta ligada à linha, a outra, por força da lei da gravidade, ...desce.
A partir daí, a queda vertical é inevitável, e estamos de facto a lançar um prego para o fundo.
No próximo número do blog vamos continuar e terminar este trabalho.
Vítor Ganchinho
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