NOÇÕES DE PESCA JIGGING - CAP II

Na natureza qualquer sinal de fragilidade é tomado em conta e tem consequências.
Uma refeição fácil, gratuita, evita dispêndio de energia e é sempre bem vinda. Por isso mesmo, peixes diminuídos, fisicamente afectados, são um alvo imediato para qualquer tipo de predador.
Mesmo peixes que normalmente não são associados a ataques a jigs, o caso das abróteas e dos safios, podem, se tiverem oportunidade e tempo para isso, morder um jig.
No caso dos safios muito raro, no caso das abróteas muito menos raro. Mas acreditem, se puderem, eles mordem!

Um peixe que deixe ver o branco do seu ventre aos demais é um peixe debilitado e a natureza reage a isso da única forma possível: põe todos os predadores da zona no seu encalço, a querer atacar esse dito “peixe fragilizado”. O nosso jig.



Trabalhamos o jig para obter esse efeito de "fragilidade" com o nosso equipamento de pesca. 
Da sua qualidade e harmonia ressalta a perfeição daquilo que fazemos. 
De resto é o conjunto de cana, carreto, linhas e anzóis que nos definem enquanto pescadores. 
É por ele que podemos ser entendidos como sendo pescadores deste ou daquele tipo de peixe.
Eu olho para o conjunto de acessórios de alguém e por ele consigo perceber qual o nível técnico a que essa pessoa está. As linhas são um indicador perfeito para isso: quanto mais novato e inseguro mais grossas são...

A experiência dá-nos a confiança suficiente para sermos capazes de tirar o máximo partido do nosso equipamento mas há quem pura e simplesmente não o consiga nunca.
Vejo muitas pessoas a movimentarem jigs na água como quem atira pedras ao mar. 
Essas pessoas não só não têm noção nenhuma do tipo de gestos que podem/devem fazer, como ainda por cima não conseguem visualizar o efeito que as suas acções provocam no jig, e por consequência, nos peixes que com ele se cruzam.
Em bom rigor, há muito quem, através dos seus gestos, pouco mais consiga que afugentar todos os peixes que cruzam o seu jig. 
Porque não pensam em dotar o seu jig dos sinais distintos que concorrem para o êxito da pesca:

- é negativa a imitação de um peixe miúdo saudável que se desloca junto ou mesmo dentro do seu cardume, seguro de que a cada momento pode recorrer às suas energias para escapar a um ataque.

- é positiva a imitação perfeita de uma presa sem capacidade de manter a sua estabilidade de natação e discrição a que qualquer pequeno peixe se obriga, se quiser manter a sua vida.

- é positiva a velocidade de deslocação lenta e irregular, típica de um peixe afectado, diminuído, frágil de forças, a querer escapar do seu predador, mas sem energia para mais.

- é positiva a queda em folha seca de um peixe, ou parte dele, que foi atacado metros acima, (os golfinhos atacam cavalas e carapaus à superfície e promovem esta situação....) e que, debilitado, não tem condições para fazer mais que cair ao fundo.


Pensar pelo lado do peixe, pela perspectiva do peixe, ajuda-nos a perceber como fazer.
Dar ao jig tempo para que este execute movimentos laterais, para que possa vibrar entre patamares, ajuda.
Perceber as condições de mar que temos diante, entender as correntes, pensar que tipo de jig, que formato e peso podem ter melhor desempenho, ajuda.
Pensar, a cada momento de maré, se o predador tem interesse em estar hiper activo, ou se o momento é de recato e descanso.
De que adianta apresentar violentamente um jig a um peixe que está pesado, farto, que tem o estômago cheio e nenhum interesse por alimento?

Isso é não respeitar os diversos momentos por que passa um predador ao longo do seu dia.
Se há um tempo para que estejam vigilantes, nervosos, activos e a procurar comida, há outro tempo para que se deixem ficar inertes, passivos, sem interesse por aquilo que lhes lançamos.
Esse tempo é o de terem a barriga cheia, o de não terem necessidade de comer mais. São tempos diferentes e quase sempre correspondem aos ciclos de alimentação de que vos falo regularmente aqui no blog.


Vejo pessoas a esgrimirem jigs na água como se fossem rockets disparados de uma rampa de lançamento.
A velocidade que imprimem à recuperação da peça inviabiliza de todo qualquer tentativa que o mais fogoso dos peixes possa fazer de conseguir algum contacto.
Repito: na água, um peixe que se desloque com velocidade máxima é tido como um alvo impossível de capturar, por outras palavras, ...um peixinho saudável demais, com demasiada energia, logo descartável.
O sinal que esses pescadores dão aos peixes que querem pescar é negativo, é um sinal contrário ao que estes procuram.

Essas pessoas estão entretidas a recolher fio, a executar o mais rápido que conseguem, numa demonstração técnica de fulminante bobinagem de linha, que não de pesca....
Eles não estão a pescar, estão a enrolar linha.
Estranham não conseguir toques, mas são precisamente elas que os inviabilizam.


O maior contraste entre aquilo que faço e o que se entende por slow-jigging puro é sobretudo o ritmo que imprimo ao jig.
Quando vejo pessoas a contar oitavos de volta de manivela, quando chegam a acreditar que vale a pena marcar separadamente cada sequência de movimento de uma só volta de carreto, fico a pensar se estarão a considerar a outra parte, a do peixe que irá presupostamente atacar o jig. Parece-me que se considera mais a matemática do movimento, a perfeição técnica da execução, em detrimento da eficácia.
Bem sei que procuram dar uniformidade à subida do jig, evitando que este desça abaixo do último patamar onde já esteve, mas será isso assim tão importante?

Quando sinto um contacto de um peixe que falhou o ataque, não raras vezes deixo cair o jig alguns metros e faço passar de novo no mesmo local.
Isto vai contra as leis dos mais puritanos, que entendem que devem continuar a fazer subir o jig, ao mesmo ritmo, mesma cadência, como se não tivesse acontecido nada.
A seguir irão lançar para o mesmo sítio, mas aí já perderam um dos factores que mais nos dá toques: a excitação momentânea, o enervamento do peixe que decidiu morder.
Numa segunda descida, já é tarde, esse peixe já está ...noutra onda. Desconfiou e a partir daí.... entra em modo de “retorno à calma”, não morde.


É certo e sabido que um pescador que levanta a sua cana violentamente, a toda a amplitude do seu comprimento, e enrola linha no carreto ao máximo de velocidade que consegue, estará a dar ao predador um sinal de “peixe saudável, pleno de vigor, com muita energia para gastar”. Isso é exactamente o oposto daquilo que os predadores procuram....
Tirando muito poucos casos, (os lírios são nadadores tão rápidos que apenas se sentem estimulados a atacar presas ultrarrápidas), aquilo que se procura é preservar energia, não gastar aquilo que tanto custa a armazenar, em corridas estéreis e improfícuas. Se a potencial presa é saudável e veloz, ....mais vale esperar por outra, lenta e fraca. E é aqui que o pescador, por excesso de entusiasmo, por executar demasiado rápido, provoca a sua própria desgraça.

A ausência de toques de peixes pode ter muitas causas: a ausência de peixe na zona, as temperaturas baixas na água, o excesso de pressão de pesca no local, o equipamento errado, e, o mais comum, a deficiente técnica de pesca do pescador.
De facto não é fácil encontrar o ritmo certo, mas com trabalho faz-se. Há um momento para o pescador, que imprime tensão à linha e consequentemente ao jig, e há um momento para o jig trabalhar sozinho.
Da proporção correcta nascem os bons resultados. Por outras palavras, nem tensão a mais na linha nem linha demasiado folgada....
Eu dava, até perceber que estava a pregar no deserto porque as pessoas apenas queriam saber onde pesco, (tirar marcas GPS dos meus pontos), explicações em mar de como isto se faz.
Cansei-me de perder pedras....


Um outro detalhe que me parece importante referir é o seguinte:
Há peixes que adoptam comportamentos agressivos em permanência. Sinto isso da parte dos pargos capatão que pesco: são violentos na forma como se lançam ao meu jig.
Bem vejo as marcas de dentes cravados no chumbo dos jigs, e percebo o quanto podem ser intensos a morder.
Outros nem tanto, crescem em agressividade perante ameaças de intrusão no seu território, por fome, mas são normalmente calmos.

Dependendo da época do ano, de termos mais pargos ou mais robalos no pesqueiro, assim devemos optar por um estilo de pesca mais brusco, mais “nervoso”, ou um pouco mais pausado.
Se procuramos ferrar um mero, e eles existem em determinados locais da nossa costa, a estratégia terá de ser outra já que eles, sendo muito fortes, potentes, são porém maus nadadores.
E aí, podemos explorar a sua agressividade mas não devemos apelar à sua rapidez de deslocação. Para eles, bater o jig no fundo, fazer saltar o poalho, dar-lhes um ponto de contacto através do som, pode ser o suficiente.

É ir ao mar lançar jigs para o fundo. O mar ensina-nos. 

Por vezes perguntam-me: “Vitor, mas...e qual a cor ideal para um jig?”....
Não há uma só tonalidade de água no mar, ela varia de acordo com a hora do dia, com a quantidade de sedimentos em suspensão desse dia, e muitos outros factores, e por isso não há uma resposta única.
Em dias de tormenta e chuva temos barro na água, em dias de sol e tempo estável teremos água mais limpa. E por isso não é igual, nem pode haver um único jig a fazer tudo, mas eu diria que tomando como cor base para um jig o prateado, a cor metalizada, não podemos estar mal.
A partir daí, e em função da profundidade e escala de cores que desaparecem progressivamente à medida que baixamos o nosso jig, os tons de verde e azul serão os mais eficazes.
Por serem dos que mais retardam a manutenção de cor reflectida.

Estou e estarei sempre disponível para ajudar naquilo que puder, para responder a questões colocadas aqui no blog.
Boas pescas!


Vítor Ganchinho


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