A cada duas semanas, quando a atracção do sol reforça a atracção da lua, as marés altas atingem níveis excepcionalmente altos e as marés baixas, níveis excepcionalmente baixos.
São os extremos a que estamos sujeitos quando decidimos ir pescar, e chamamos-lhes na gíria....”marés vivas”.
Acontecem quando temos lua cheia ou lua nova, as ditas “luas grandes”.
Por oposição, quando o sol puxa de um lado e a lua o faz do lado oposto, temos marés pequenas, a água não corre, a amplitude do movimento das águas é muito menor. As forças anulam-se entre si.
Este é o momento das fases lunares de quarto minguante ou crescente e não nos ajuda a colectar iscos, porque as águas não baixam o suficiente...
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| Um bom sargo e um robalo simpático, a roçar a superfície. |
Para os peixes, as sequências de marés são factores de vital importância.
Não lhes é igual que a água suba mais ou menos, porquanto a sua vida depende de haver ou não movimentação das criaturas vivas, as quais lhes servem de alimento.
Se fica água no pesqueiro, estes pequenos seres permanecem cobertos e escondidos, não precisam de se deslocar, mas se a maré baixa muito e fica a seco, ...sim, há que procurar refúgio e dar...”às pernas”.
E porque alguns deles têm mobilidade reduzida, é forçoso que o façam a tempo, iniciando essa saída mais cedo. Mostram-se mais e mais tempo. Leia-se expõem vulnerabilidades...
Vou tentar explicar-vos hoje de que forma este fenómeno é importante para os peixes, e por consequência, para nós, que os queremos pescar.
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| Os peixes encontram refúgio seguro debaixo dos barcos, onde podem esperar pela hora certa da maré para se alimentarem. É o caso deste robalo. |
Também para os pescadores, os efeitos indirectos dos ritmos das marés importam, e de que maneira.
No espaço intertidal, a zona que define o espaço de amplitude total entre marés, (se quiserem toda a área que fica visível e a seco na maré baixa e coberta de água na maré cheia), vive e alimenta-se uma infinidade de seres.
Entre eles até os peixes que pescamos, que aí vão procurar alimento, assim que as condições mínimas de altura de água o permitem.
E é aí que nascem e crescem os alimentos que poderíamos chamar de “fixos” ao substrato, aqueles que mesmo que queiram não podem sair. Falamos evidentemente dos mexilhões, das cracas, dos perceves.
É também nesse espaço de poucos metros de altura, nas suas paredes ou poças de água que acontecem as actividades de reprodução, alimentação e migração de uma infinidade de vermes, caranguejos, camarões, bivalves, lapas, etc.
Dá-se ainda o facto de muitas destas movimentações só serem possíveis quando a maré está em cima.
E, por estranho que pareça, algumas das migrações, esses movimentos de grandes massas de vertebrados e invertebrados, só acontecem mesmo em marés muito grandes, de excepcional amplitude. Os pequenos seres esperam meses por elas...
Nestas alturas, os seus predadores não perdoam esse momento de maior vulnerabilidade, de exposição, e aproveitam para encher o estômago.
O pescador não pode nem deve ser indiferente a estes momentos e caso utilize os iscos procurados pelos predadores da zona, terá sucesso garantido na sua pesca.
Para o pescador desportivo, mesmo desportivo na verdadeira acepção da palavra, a pesca com artificiais impõe-se, não faz concessões mesmo que isso lhe renda menos peixe...
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| Para um sargo ou uma dourada, isto é um frigorífico replecto, com a porta aberta... |
Imaginemos um dia em que a amplitude de maré é muito pequena, (temos uma diferença curta entre o ponto mais baixo da maré vazia e o ponto mais alto da maré cheia), e queremos ir recolher isca viva. Não o vamos conseguir fazer.
Para isso, para podermos trabalhar, é forçoso que consigamos ter as areias, ou a vaza, a seco. No caso de uma maré vazia em que ainda ficamos com um metro de água no local, não nos é possível encontrar lingueirão, ganso, ou casulo, por exemplo. Ou bem que a vazante deixa os baixios a seco, ou não vale a pena pensar em ir recolher iscas naturais.
Consultar as tabelas de marés é imperioso, neste caso.
Em Portugal, temos marés que, grosso modo, poderíamos classificar como médias, de 3 metros, e sabemos viver com elas.
Bem pior estaríamos se vivêssemos no Canadá, na Baía de Fundy, onde a diferença entre a maré alta e a maré baixa supera os 16 metros, chegando no limite a atingir os 17 metros.
Aí sim, deve ser bem complicado pôr um barco na água....e, depois da pesca, chegar com ele ao cais.
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| Há locais onde o peixe se alimenta na maré cheia e que pura e simplesmente ficam a seco na vazante... |
Um dos efeitos destas subidas e descidas de água são...as correntes.
Com efeito, quanto maior a amplitude das marés maiores e mais fortes serão as correntes provocadas por essas deslocações de água.
E há peixes que são especialistas em aproveitar o efeito negativo que as correntes provocam na estabilidade de natação dos pequenos peixes, seres com pouco peso e pouca mobilidade para enfrentarem a fúria dos elementos.
Os robalos são nadadores exímios e são dos que mais lucram com o mau estado do mar, ou com a ressaca das ondas e remoinhos provocados pela agitação marítima.
Também o vento pode influenciar negativamente o estado do mar, e prejudicar os nadadores menos fortes, já que cria vagas.
Para os menos atentos, repito que vagas são movimentações de água criadas pelo vento, com efeito local. Já as ondas, essas são criadas por grandes diferenças de pressão atmosférica, as quais originam ventos muito fortes e, no caso do nosso Atlântico, normalmente são originárias do outro lado do oceano.
Ocorrem sobretudo entre Outubro e Março, quando se dá o encontro da Corrente do Golfo com a corrente do Atlântico Norte.
A altura das ondas depende da distância que o vento percorreu sobre a superfície do mar. Em média, um vento forte soprando sobre seis quilômetros e meio de superfície do mar criará ondas de cerca de um metro de altura.
A profundidade ativa das ondas (a profundidade em que elas conseguem efetivamente agitar o fundo do mar) é aproximadamente metade da distância entre ondas sucessivas.
Outro fenómeno que ocorre com as ondas à medida que se aproximam da costa é que elas tendem a diminuir a sua velocidade e a distância entre elas torna-se menor.
A altura das ondas não é muito afetada por este facto, elas apenas se tornam mais íngremes, mais curtas e altas, e é nesse momento que as cristas quebram. Os tais..."carneirinhos".
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| Estas pedras à esquerda, em baixo, na Serra da Arrábida, são culpadas por inúmeros acidentes de barcos. Na vazante são perfeitamente visíveis, mas na enchente... |
As ondas podem, e isso acontece amiúde, deslocar-se num sentido contrário à movimentação das vagas.
Entendam-nas como fenómenos independentes, embora umas e outras perturbem o nosso trabalho se quisermos pescar ou colectar iscas vivas.
Na verdade, apenas já junto à rebentação, em águas relativamente rasas, as ondas agitam o fundo do mar de forma significativa, mesmo em tempestades violentas.
É essa agitação que arranca grandes quantidades de algas e desaloja animais que se agarram, se escondem ou vivem enterrados no fundo do mar.
Nessas circunstâncias, os peixes costumam alimentar-se avidamente de criaturas mortas, feridas, ou tão só descobertas, postas à vista, fora do seu habitat e da sua zona de camuflagem.
Durante o período de calmaria, após as tempestades, é natural que se obtenham boas pescas, sobretudo se utilizarmos iscas recolhidas no local, desenterradas por nós em águas rasas, costeiras.
Montes de algas recém depositadas ao longo da linha da maré são indicações de boas condições. Nestes casos, convém vasculhar e perceber se há ou não algo debaixo que possa servir-nos de isco.
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| Os sargos são especialistas em aproveitar ao milímetro os efeitos das marés. |
Ser previdente em termos de segurança pessoal significa pescar mais anos e por isso mesmo convém estar atento às movimentações de água, saber os horários das marés, e jogar com isso de forma a não ser surpreendido no caminho de retorno.
Ter um plano elaborado, com horas certas, e ser capaz de o cumprir, dá-nos saúde.
Bem sei que por vezes o peixe aparece, morde com vontade e promete mais e mais, mas há uma hora em que a maré muda e a partir daí, ser “agarrado” numa zona com demasiado fundo pode pôr a nossa vida em perigo.
Os peixes não se acabam, as iscas que não recolhermos ficam para um próxima oportunidade, e é bom ter presente que nada disso vale uma vida.
Ter um plano e ser capaz de o cumprir, é disso que se trata.
Não há nada mais gratificante do que ter um plano, e verificar que ele está certo.
Sites como “Windguru”, ou o “Windy.com” dão-nos toda a informação que necessitamos.
Em caso de dificuldade, é colocar a questão aqui no blog, e nós ajudamos a resolver.
Vítor Ganchinho
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