Quando vos escrevo sobre um tema de pesca tenho sempre um objetivo em mente: levantar um pouco o véu sobre um ou outro detalhe.
No fundo colocar um foco de luz a fazer sobressair alguma coisa que me parece importante.
Isto pode ser interessante para quem começa a pescar, para as pessoas que ainda estão na fase de apenas ver uma árvore. Acontece a todos, um dia todos fomos inexperientes.
Os pescadores consagrados, com muitos anos de arte, conseguem ver a árvore, a floresta e os melhores dos melhores vão ainda mais longe: olham e veem todas as árvores da floresta, uma por uma….
Não temos de nos preocupar se pertencemos (ainda) ao grupo dos ainda menos aptos, ou se quiserem, de resultados menos consistentes.
O tempo ajuda-nos.
Indiscutivelmente uns são e serão sempre mais capazes que outros, mas se isso em termos de ranking permite estabelecer comparações, permite escalonar as competências, também é verdade que no fim o interesse que isso tem é nulo.
O que não falta é gente que pesca mal, assumidamente mal, e se diverte imenso com o pouco que faz.
Mas afinal, qual é no terreno, a diferença entre os ditos “bons” e os outros? Valerá a pena escalonar as pessoas por...rankings?
A nível da abordagem inicial, há diferenças significativas.
Quando um pescador consagrado pesca, faz uma apreciação das condições de mar que tem à sua frente de acordo com os dados disponíveis na sua memória.
Chamem-lhe “experiência de pesca”, se quiserem, ou tão só....utilização da sua base de dados pessoal.
Recorrendo aos padrões de memória que tem, o seu cérebro faz previsões sobre o que pode obter, e estabelece uma estratégia para o conseguir nas condições de mar que tem nesse dia.
O novato, ou menos apto, não faz isso: apenas lança a linha o mais longe que pode (acredita que quanto mais longe maiores os peixes....) e carrega a sua amostra de verde esperança. Vai pela fé.
E esta é a primeira diferença palpável: um vai por aquilo que sabe fazer, por aquilo que já fez naquele local, pela experiência, o outro, para quem qualquer sítio com água é bom e esperançoso, vai por palpite, por fezada.
Experiência versus crença....
A seguir, há que escolher a técnica e os equipamentos.
Para quem faz spinning e tem experiência, é bom de ver que deve utilizar um certo tipo de amostra.
Sabe que para robalos vai uma de 10 cm na cor X, mas se por sorte tiver algo maior próximo do barco, por exemplo um atum, vai uma de 24cm na cor Y.
Isso faz sentido e no fim tudo sai bem.
Quando acertamos os iscos ou amostras com os peixes que queremos enganar, tudo está correcto.
É uma espécie de emparelhar as nossas meias, as azuis com azuis, as verdes com as verdes, tudo como deve ser, certo?
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| O Carlos Campos e uma dourada com as medidas certas para o forno. |
Se por qualquer motivo nos enganamos no equipamento de pesca, se desencontramos o peixe da técnica mais eficaz para ele, as coisas começam a não funcionar.
Se lançamos uma pequena amostra de robalo de 10 cm a um atum, ele até pode morder, mas no arranque vai abrir os frágeis triplos de imediato.
Se tentamos um robalo com uma amostra Magnum de 24 cm, não obstante a sua bravura e coragem, é natural que ele não a consiga morder, ou até que tenha medo dela. Não funciona muito bem.
Grosso modo é ter as meias todas desemparelhadas, com cores misturadas. Se começamos a ter calçadas nos pés uma desta cor e outra daquela, uma verde e uma vermelha, tudo se complica, as pessoas acham que somos malucos.
O resultado final é que uma meia não consegue encontrar o seu par e passa a vaguear pelas gavetas, perdida, sem ter utilidade nenhuma.
Em linguagem de pescador, andamos no mar sem rumo, sem saber o que fazer, aos caídos, a tentar ver o que os outros barcos estão a conseguir.
O pescador experiente tem um rumo, um fio de raciocínio, e segue-o. Está convicto das suas ideias, dos seus conhecimentos.
O novato não tem a certeza de nada, e joga tudo na esperança de alguém lhe dizer o que fazer, procura ...um sinal.
Aproxima-se demasiado dos outros barcos e no mínimo recebe uma saraivada de impropérios e nomes feios que o deixam corado de vergonha.
Está condenado a vaguear de um lado para o outro sem ter a possibilidade de fazer um peixe.
É a meia de cor desencontrada de todas as outras, não tem par.
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| Para cada tipo de peixe, o seu equipamento específico. |
A verdade é que este conceito de utilidade zero é algo que me fascina, que me faz pensar imenso.
Adoro desafios. Para mim isso é o estranho, escuro e misterioso mundo das coisas sem qualquer utilidade aparente, ao momento.
Procuro sempre tirar o máximo partido de algo que, aparentemente, não serve para nada.
Acontece-me isso quando vejo crianças de tenra idade, ou até adultos, sem a menor noção do que é pesca, a tentarem pescar peixes de formas....absurdas.
Nós sabemos que aquilo não resulta, mas eles não sabem. Insistem e não percebem porque razão os peixes não aparecem, ficam apenas a olhar para uma estática cana sem entender porque não vibra.
Insistem porque não há ninguém que lhes mostre como se faz, que lhes indique um caminho, que faça brilhar uma luz no escuro. Que lhes dê uma mão.
Fico ultra motivado a pensar em todas as possibilidades criativas que algo absolutamente inútil encerra em si, o que no fim não é muito diferente de ser advogado de causas perdidas.
Mas penso sempre que essa pessoa que anda ao sabor do vento, se tiver a possibilidade de encontrar quem a ajude, pode vir a ser um grande pescador.
E não nego ajuda a quem a solicita, mesmo sabendo o quanto a natureza humana é ingrata. Um dia essa pessoa dirá que aprendeu sozinha....a memória é sempre curta para registar quem nos forma.
Por outro lado, e como contraponto, também o mundo certinho da gaveta com meias perfeitamente emparelhadas é algo perfeito demais para mim. Controlado demais.
Ver toda a gente a copiar-se, a pescar de forma igual, padronizada, também é algo que me maça. Copiam-se demasiado os bons, aqueles que sabem.
Inventa-se pouco e é pena que isso aconteça.
Faz falta mais gente com ideias absurdas, novas formas de pescar, novas técnicas.
Penso que devemos deixar as crianças ser mais livres de encontrarem as suas próprias formas de fazer, de tentarem enganar os peixes. Mesmo que os resultados possam não ser os melhores.
Acredito que um mundo perfeito tanto precisa do par de meias iguais como também da meia isolada, sem par.
Por outras palavras, tanta falta faz o pescador experimentado, o que sabe muito muito, como faz falta o inexperiente, aquele que eventualmente estará em trânsito para um dia vir a saber muito.
Ou não...
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| Excelente ideia: esta amostra permite escolher a profundidade a que ela irá evoluir na água... |
E não vem mal ao mundo se alguém se fica por “meio conhecimento”, por nunca chegar a saber muito bem como empatar um anzol, ou fazer um lançamento sem fazer uma cabeleira de linha.
No fundo, por ficar a ser uma meia desencontrada, sem par...
Vítor Ganchinho
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