Num dia com luz, com algum sol, podemos ver o sempre.
“Sempre” é uma palavra perfeita para um pescador, se aplicada a uma ponteira de cana que vibra.
Ter um peixe a morder numa isca, ou amostra, é tudo para quem pesca.
Esse é o primeiro passo, o explosivo click que falta para que o ritmo cardíaco acelere, o coração bata forte no peito, a adrenalina corra desenfreada nas veias e as mãos tremam de nervosismo.
A partir daí, do primeiro momento de contacto, a guerra começa.
Já só voltará a haver algum sossego quando um dos lados perder.
Se é o pescador quem perde é um drama, um horror, uma tragédia.
Quando o peixe se deixa vencer e perde é normal, afinal é isso que acontece na maior parte dos casos.
A percentagem de peixes que escapa é bem menor que a dos peixes que ficam e isso deve-se a uma cada vez maior qualidade dos equipamentos à disposição de quem pesca.
A ganhar ou a perder, queremos viver aqueles momentos de frenesim, de medo, de nervos, sempre e para sempre.
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| Um pargo capatão deste calibre, com 75 cm, não acontece todos os dias, e ainda bem que não: deve ser sempre um momento especial. |
Há pescas que se fazem quando as condições são perfeitas, ou ...não se fazem.
Podemos pensar que um peixe grande acontece quando calha, e que não há grande ciência em torno do assunto.
Isso é atribuir à sorte, ao acaso, a ferragem de um peixe adulto. Não é assim.
Esse peixe para chegar a velho, teve tempo para crescer, para aprender o que lhe era, ou não, conveniente. E escapou a redes, a anzóis, a outros predadores, e sobreviveu.
Ultrapassou todas as armadilhas que lhe lançaram durante anos e anos, até que um dia um pescador teve um dia com condições perfeitas e encontrou a forma de ultrapassar as suas defesas.
Esse é para o peixe o seu último dia de vida, e por isso mesmo deve ser um momento de mostrarmos respeito por um digno adversário.
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| Este jig da Cultiva tem boas razões para ser eficaz. Assimétrico, formato em lâmina, 40 gr, mais não é que uma perfeita arma de pescar peixes de boca dura. |
O primeiro contacto com um peixe destes é absolutamente decisivo.
É aí que se joga tudo: ou o peixe crava no anzol em zona firme, um pedaço de osso, um músculo duro, ou ...vai embora.
Não tem necessariamente de prender dentro da boca, até porque isso não garante em si mais que anzóis espetados alguns milímetros. Não significa mais que isso.
A quantidade de pargos que nos escapam depois de terem um ou dois anzóis presos no interior da sua dura boca não se contam só pelos dedos.
O importante é aquilo que se faz/ acontece a três níveis distintos:
O pescador quando bloqueia o braço e oferece um ponto de apoio fixo ao peixe.
Em segundo lugar quando estica a linha ao máximo, manivelando rápido o carreto três ou quatro vezes.
Por fim, quando o peixe sente a pressão e se movimenta violentamente para o fundo ...ajuda à penetração dos anzóis.
A conjugação destes três factores é decisiva para que a boa ferragem aconteça.
Ainda não é tudo. O peixe, mesmo bem ferrado, ainda pode escapar....
Este é o meu conjunto de pesca mais efectivo, de momento:
Cana :SHIMANO SEPHIA LIMITED METAL SUTTE B66MH-S/F
Carreto: SALTIGA 25 300 manivela esquerda
Linha Multi: SALTIGA DURASENSOR PE 1,2
Linha de leader: VARIVAS HARD TOP 0.33 mm (4513498063281)
Admitindo que faz confusão a quem me lê pescar tão fino, PE 1,2, (e eu nem acho que seja assim tão fino...), a solução acima é o PE1,5, com uma resistência de 26 libras, 12 kgs.
Eu pesco mais fino por várias razões que posso apontar: a zona onde pesco tem correntes que podem ser fortes e por isso a única forma de pescar na vertical sem recorrer a jigs mais pesados, é cortar no diâmetro da linha.
Recuso-me a aceitar que a única solução seja mesmo a de carregar no peso do jig porque isso rouba-me peixe, é totalmente diferente animar um jig de 40 gramas ou um jig de 50 gramas....
Para mim, menos peso é sempre sinónimo de mais peixe, e não fico constrangido por pescar a peixe velho, com peso, utilizando jigs de 20 ou 30 gramas. Eles mordem!
A quantidade de toques que temos com jigs ligeiros, 20, 30 ou 40 gr em nada compara com aquilo que acontece quando pescamos no mesmo local com jigs de 50/60 ou 80 gramas.
Muitas pessoas não conseguem pescar ligeiro porque a única linha que admitem colocar no carreto é o “zero-grosso”. Uma parvoíce....perdem peixes seguidos por isso, porque não conseguem pescar.
Mas nós temos tudo aquilo que faz falta: a cana, drag no carreto e ...mãos.
Fui pescar para oferecer uns peixes a um amigo que regularmente me oferece...pão.
O meu amigo João tem a paciência de amassar pão e cozer o dito num forno de lenha. E oferece-me dois pães ainda quentes por semana, o que significa que me sinto eternamente em dívida para com ele.
Por isso mesmo, dedico sempre algum do meu tempo de pesca a fazer uns peixes mais “maneiros”, peixinhos para grelhar, para uma família de apenas duas pessoas.
As bicas encaixam aí na perfeição já que são suficientemente curiosas e vorazes para morder os meus jigs ligeiros, e suficientemente boas para uma refeição de peixe fresco.
Porque há toneladas de bicas na nossa costa (nem acho estranho que as pessoas não as pesquem porque a maior parte das pessoas procura peixe nas pedras e elas vivem ao lado, na areia....), parecem-me o alvo indicado.
Serão sem dúvida mais fáceis se armarmos o jig com um triplo, mas em zona de peixe grosso não se pesca com fateixas porque a seguir a uma bica vem um pargo de 10 kgs e invariavelmente vai embora.
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| Vocês não têm ideia de como é bom o pão caseiro, quente, e feito com o carinho de quem o faz por prazer, não para o comercializar... |
Feita a pescaria de bicas, encostei o barco a uma zona onde anda um mero que deve ter, pelo trabalho que tem feito, uns 20 kgs....
O meu amigo Carlos Campos já o teve na linha e perdeu, eu próprio já o ferrei mas demasiado próximo do buraco e perdi, e porque já fiz outros dois meros no local, sei que este vai um destes dias ter o azar de andar a passear um pouco mais longe da toca. E nesse dia, eu tenho algumas possibilidades de ganhar, mesmo que uma baixada de 0.33 mm não seja propriamente um portento de linha para um mastodonte destes...
É sempre uma questão de o encontrar a deambular um pouco mais fora, a alguns metros do buraco.
Desta vez, lancei o jig para o fundo e senti uma pancada forte. Era ele.
Ficou no sítio, não fez qualquer movimento de fuga. Mordeu o jig mas não chegou a ferrar, apenas prendeu a peça metálica entre as maxilas, sem engolir. Por isso não ferrou.
Acontece mais aos pargos, que mordem, não aspiram. Mas pode acontecer também a peixes predadores que normalmente engolem mas ...neste caso isso não aconteceu.
Uma breve troca de “forças”, (senti bem o peso e poder do meu adversário), uma ligeira saída de linha, não mais de um metro, e o mero cuspiu o jig e foi à procura de algo menos indigesto.
E eu fui procurar algo menos estratosférico, mais indicado para o conjunto ligeiro que tinha em mãos.
Um dia volto...
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| As bicas para o João, o meu amigo padeiro. |
Daí a pouco, com a maré já a subir, uma mancha de um peixe interessante, uma mancha bem densa, ganhou destaque no centro da minha sonda.
Estava alvorado, uns 10 a 12 metros acima do fundo e acompanhava um pequeno cardume de carapau miúdo.
Lancei o jig de imediato para baixo e ao chegar perto da marca dei o melhor de mim para o provocar. E aconteceu: o peixe atacou o jig quase de imediato. Tinha fome.
A rapidez de todo o processo de detecção do peixe e tentativa de captura só foi possível porque tudo estava pronto, e o equipamento era o adequado à função.
A linha, a ser demasiado grossa teria provocado uma deriva do jig na corrente, atraso na chegada ao fundo, e porventura não teria conseguido a ferragem.
Mas um PE 1,2 é facilmente arrastado por um jig de 40 gr em formato de agulha. Desce vertiginosamente!
Também o facto de o carreto ser um Daiwa Saltiga bem lubrificado e não uma chinesice barata ajudou a desbobinar linha num ápice.
Por todos estes motivos o jig desceu bem rápido.
E o pargo ferrou bem.
O resto é trabalho, é paciência e quando se pesca a solo tudo tem de estar pensado antes de acontecer.
Os acessórios, o enxalavar tem de estar à mão, o alicate de desferragem, enfim, tudo o que é de direito.
Podem ver um curto filme aqui:
Clique na imagem para visualizar e na rodinha das definições para melhorar a qualidade.
Há muito mais pargos destes que aquilo que as pessoas julgam, a questão é que a forma como se tentam nem sempre é a melhor. Quase nunca é a melhor.
Neste caso, um pargo capatão, tem zero interesse por uma iscada de lingueirão, ou de ganso. Eles comem peixe vivo e um jig ligeiro, bem trabalhado, é um peixe vivo.
Boas pescas para todos vós.
Vítor Ganchinho
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