Para quem está no mar e tem de enfrentar as ondas altas, a angústia de ter de lutar pela vida, as tempestades são um momento para olhar para cima.
Olhar para cima e agarrar com força o crucifixo do fio que se traz ao pescoço. A duas mãos.
É o tempo das vagas subirem o barco até estarmos muito próximos de Deus.
Porventura demasiado cedo.
É também o tempo de todos os barcos muito grandes encolherem bruscamente e passarem a ser todos...muito pequenos.
Não há barcos seguros quando as ondas lhes passam por cima.
Nesses momentos difíceis, de temor, de receio pela vida, podemos pensar em algo mais que na sobrevivência?
É possível pescar-se nessas condições?...
E a...segurança?
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| Há dias em que, decididamente, a melhor e única solução é ficar em casa. |
Por ser imperioso fazê-lo, vamos dividir a pesca em dois segmentos diferentes: a que é feita a partir de uma embarcação e a pesca feita a partir de terra.
Avançamos hoje algumas pistas dedicadas à pesca apeada, e deixamos a pesca embarcada para o próximo número do blog.
Importa dizer-se que ambas são perigosas e devem ser praticadas se e quando há efectivas condições para isso.
Nenhum peixe vale uma vida humana e quem pesca deve ter isso em mente a cada segundo.
Não é apenas por termos os pés assentes em terra firme que estaremos mais seguros. Pescar a pé, em terra, também é perigoso.
O mar rouba todos os anos a vida a gente que acreditava piamente estar a salvo de qualquer percalço.
Salvaguardar a segurança individual e colectiva é mais que um dever de todos os pescadores. É uma morte inglória ser levado por uma onda e deixar uma família amputada de um dos seus membros à conta de um simples peixe.
Não façam isso.
Mas se souberem acautelar o factor segurança, inclusive pensando num cinto de salvação, como fazem muitos pescadores japoneses, (*), então é possível sair e fazer alguns peixes.
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| Esta série de novas amostras Megabass para robalo já está disponível na GO Fishing store. |
(*) – No Japão deixa-se muito pouco ao improviso e o equipamento se segurança, para quem tem temporais bem superiores aos nossos, (tsunamis...), não podia deixar de reflectir essa realidade.
Porque se trata de um povo umbilicalmente ligado ao mar, um povo que adora a pesca e faz dela um elemento de tradição e cultura, cuidadosamente passado de avós para netos, não é estranho que a indústria local providencie acessórios que cubram todas as necessidades.
No Japão, a produção de material de pesca vai de A a Z, da cana ao anzol, do carreto ao chapéu.
Mais que isso, trata-se de um país com uma forte legião de fervorosos adeptos da pesca, (estima-se que existam entre 5,6 a 6,4 milhões de pescadores lúdicos no Japão.... e isso já é uma legião de indefectíveis adeptos da arte, com poder financeiro, com conhecimentos técnicos de pesca), o que os torna globalmente muito conhecedores.
Ou não fosse o Japão um arquipélago de ilhas, cerca de 6.000...(sim, o país que conhecemos como Japão é um amontoado incrível de ilhas, das quais apenas 426 são habitadas...,) e uma riqueza de peixe como poucos países no mundo têm.
Quando se sai para pescar e há a possibilidade de o fazer numa ilha deserta, (5576 ilhas japonesas são desertas....!), e quando algumas dessas ilhas apenas surgem com a maré baixa, não podemos contar com o tradicional optimismo português do “dou umas braçadinhas e subo para terra”....
Assim sendo, e porque as tempestades numa zona de tsunamis surgem do nada, as fábricas japonesas dedicam muita atenção a equipamentos de segurança.
Há quem fabrique acessórios porque há quem se preocupe em sair vivo de um dia de pesca e paga para isso.
O colete de salvação é um deles, não incomoda quando pescamos, não se sente, mas está lá se necessário. Porque é um factor de segurança e esse é um pressuposto que os japoneses consideram, ... é muito utilizado.
Vejam um exemplo:
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| Os coletes de cintura expandem por acção de uma garrafa de CO2, dão uma volta e meia ao tronco da pessoa e impedem o afundamento. |
A GO Fishing em Almada tem em stock coletes destes.
Porque não são homologados para pesca embarcada, (apenas são válidos para pesca apeada) não são publicitados ou sequer apresentados na nossa loja on-line.
Devem ser entendidos com um meio facultativo de segurança para quem pesca a partir de terra, e quem os adquire deve saber que não os pode utilizar em pesca embarcada, por falta de homologação.
O seu custo é bastante superior aos vulgares e incómodos coletes de pescoço, na maior parte adquiridos por quem vai ao mar, por duas razões distintas: por serem obrigatórios por lei, e por serem baratos.
O factor custo é primordial na escolha do pescador, (na maior parte dos casos é o único factor que conta), e é uma pena que assim seja, mas é a realidade. As pessoas não querem saber da eficácia, apenas o preço conta.
Neste caso este colete não se trata de um produto a ser adquirido por ter um custo baixo, mas sim porque é um equipamento que pode salvar uma vida.
Dispondo de uma garrafa de CO2 no seu interior, e munido de um disparador automático que actua na presença de um líquido, estes coletes japoneses são comuns por lá, para quem pesca apeado e pode ter o azar de cair à água.
E que tipo de equipamento deveremos utilizar?
Partindo do princípio de que as condições de tempo serão mais agrestes que o normal, e que iremos lutar contra o vento forte e as correntes, é inteligente pescar com equipamento um pouco mais pesado e maior que o habitual. Canas e carretos mais robustos.
O ruído ambiente provocado pelas vagas e vento será superior pelo que as amostras podem ser portadoras do babete frontal emissor de altas vibrações e conter em si as esferas que produzem o efeito “ratling”.
Jogamos com tudo aquilo que possa atrair a atenção da nossa amostra, queremos ser notados, queremos atrair peixes que caçam em águas turvas e com baixa visibilidade. Cores brilhantes e de alto contraste são mais eficazes.
Atenção, isto é muito importante: porque estamos em áreas marítimas inundadas, com presença de água doce e as suas consequentes lamas, quer seja no interior dos estuários quer em regiões costeiras exteriores batidas pelas ondas, convém pensar que as cores de amostras deverão ser mais brilhantes, mais coloridas. Não pescamos em águas turvas com as discretas e silenciosas amostras que utilizaríamos em águas límpidas, certo?
Onde pescar? Este é um tema que divide opiniões, mas que para mim não oferece muitas dúvidas.
A pesca de predadores é sempre mais produtiva em locais abrigados, a exigir menor dispêndio de energia, mas ainda assim próximos dessas zonas de turbulência.
Falamos de encontrar bolsas de água mais limpa, a correr mais lenta, fora da corrente principal.
A estratégia chave de um predador sempre foi e sempre será a de gastar o mínimo possível de energia mas captar o máximo de nutrientes a partir das suas presas, sem correr riscos.
Os peixes concentram-se em zonas onde exista deflexão de corrente, um pilar, uma ponta rochosa, uma pedra alta, e se possível sempre perto da entrada de um estuário.
É aí que abunda o alimento.
Os postos de caça são ocupados sobretudo durante as mudanças de maré, em que os alevins e restante peixe miúdo são obrigados a mudar de posição por força da inversão do sentido da corrente.
Assim, se pudermos ir inspecionar o local previamente, devemos fazê-lo durante o período da maré baixa, de forma a podermos identificar obstáculos submersos, redemoinhos tranquilos e até tomarmos nota da existência de alguma possível vegetação costeira.
Toda a informação é útil, assim a saibamos utilizar.
Num estuário, sabemos que a água doce fica sempre posicionada sobre a água salgada, por diferença de densidades.
Se houve um temporal forte na costa nos últimos dias, é natural que os peixes procurem algum abrigo no interior deste, que existam movimentações nesse sentido, peixe que vem de fora, do mar aberto, para dentro, interior do estuário.
Assim sendo, é de esperar que os peixes que entram necessitem de algum tempo de adaptação aos novos graus de salinidade. Isso faz com que se disponham na faixa inferior, mais junto ao fundo, ou em fundões naturais, onde essa salinidade é mais forte.
A água salgada, por ser mais pesada e densa, irá permanecer mais próxima do fundo, e é aí que devemos procurar lançar as nossas amostras.
Ao fim de alguns dias de mar calmo, este efeito irá desvanecer-se, e a dada altura os peixes disponíveis para pescarmos já ocupam toda a coluna de água.
Vamos ver no próximo número alguns detalhes de como pescar embarcado em dias de tormenta.
Vítor Ganchinho
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