CHOCOS - COMO ESCOLHER UMA TONEIRA SEM RECORRER À "FEZADA"... - CAP I

Tenho muitos anos de contacto com fervorosos pescadores de chocos.
Porque sou conversador, curioso e gosto muito de saber das suas aventuras e desventuras, penso ter acumulado informação suficiente para poder exprimir de forma clara e inequívoca o seguinte: apenas 1 em cada 100 pescadores sabe qual o real motivo técnico que o leva a comprar uma determinada toneira.
Dito desta forma nua e crua, aqui estou eu à vossa frente, já regado dos pés à cabeça com dezenas de litros de gasolina. Avancem!
Venha daí alguém riscar o fósforo e ...puxar-me fogo ao corpinho!
Os pescadores de chocos nunca me perdoarão dizer-lhes isto assim, de uma forma tão crua, talvez rude, mas a verdade é que....



Ficariam espantados se soubessem quais os critérios técnicos que 99% das pessoas utiliza para adquirir uma toneira para chocos.
Uns vão pela cor da peça: vermelho se do Benfica, verde se do Sporting.
Outros “porque sim”, sem mais explicações. Outros compram rosa porque é óbvio que os chocos só gostam de rosa.
O preço também é um argumento forte: todos sabemos que os chocos não atacam toneiras caras....
Ao sábado sim, é bom, mas ao domingo não, o choco não morde bem: é dia de ir à missa e não dia de picar.
Isto pode porventura parecer-vos nebuloso, albergar alguns laivos de alguma religiosidade, crença esotérica, de um saber passado em segredo, por sussurro, de boca a orelha, mas os pescadores de chocos é que sabem os porquês das suas escolhas, eles terão razões que a razão desconhece.
A irmandade dos pescadores de chocos faz com que até a escolha de uma vulgar toneira pareça algo só ao alcance do saber de uma seita secreta.

Os tamanhos mais correntes são estes e referem-se a comprimento em polegadas: #2.5, #3.0, #3.5.

No fim de tudo, o critério científico da questão pura e simplesmente não existe, os pescadores de chocos borrifam-se para qualquer tipo de racionalidade.
Fazem finca pé e não há forma de tentar explicar-lhes de forma racional aquilo que só faz sentido se lhes chegar pelas mãos de uma cartomante cigana.
Acreditam na espiritualidade e não na objectividade do assunto.
Para alguns pescadores de chocos, é evidente que a coisa “tem dias”, e não vale a pena tentar encontrar justificação terrena para o “hoje não querem nada”...
Podemos até chegar ao inevitável e fatal: “hoje só pegam no rosa”...
O choco é um bicho estranho e pelos vistos responde apenas a um intrincado código de cor de toneira, uma chave numerada de acesso restrito.


Só os bons pescadores de chocos têm a fórmula que os faz pescar sempre, e isso passa por possuir a ...toneira mágica!
O vento, a quantidade de água doce diluída, a força da corrente, a hora do dia, o estado da maré, a temperatura, a pressão atmosférica, nada disso conta!
O que verdadeiramente conta é mesmo se estamos ou não a pescar com a toneira da sorte, aquela em que temos uma enorme “fezada”. Isso sim.
Isto de ir por fezadas é arte e deve ser reconhecido como tal!
E vou mais longe: esqueçam a carne barrosã, o pastel de nata, as músicas da Amália: o que pode ser exportado é a “fezada numa toneira”.
Temos “fezadas” a rodos, paletes, e ...podemos exportar!


Mas vamos imaginar que não temos mais fezada que aquela que um simples pedaço de plástico colorido nos merece.
E que vamos aceitar que a pescaria absurda de chocos feita por alguém que publicou no Facebook há dias, foi feita porque essa pessoa utilizou uma toneira X, indicada em termos de tamanho e peso para essa profundidade, com o tipo de animação certo, com uma queda à velocidade certa, tendo em conta a temperatura da água, a sua visibilidade, maré certa, corrente certa, e que, por incrível bambúrrio de sorte, encontrou um quadrado de fundo de mar onde havia, por alguma razão, uma enorme concentração de chocos, não pescados há alguns dias.
Recapitulando: sitio não explorado, muitos chocos, toneira com tamanho e peso indicados para a profundidade em causa e pescador com um mínimo de jeito para a função.
Deve ler-se: alguém capaz de “sacudir o palhacinho” à frente dos desgraçados dos chocos!
O que é que isto tem a ver com cartomantes ciganas que lançam as cartas, ou ...fezadas?!


Absolutamente nada.
Vamos ver no próximo número quais são os detalhes de uma toneira a que devemos prestar atenção quando queremos pescar chocos.


Vítor Ganchinho


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