O PORQUÊ DE UM PEIXE PREDADOR SE ESCONDER... NAS SOMBRAS

Quando queremos pregar um susto a alguém, ....escondemo-nos numa zona escura, imóveis, em silêncio, emboscados na sombra.
Não é preciso mais para que a pobre criatura apanhe um susto de morte se, no momento certo, aparecermos de rompante e berrarmos bem alto.
Há um instante em que a vítima fica paralisada, imóvel, perante a nossa atitude agressiva.
Isto, meus caros companheiros de pesca, é, na sua essência, tudo aquilo que acontece na natureza todos os dias, a toda a hora.
Com a diferença que um robalo não grita, não se diverte, apenas se lança desabrido para a frente e...engole a sua vítima.

Num jogo de contraste de luz, os predadores podem virtualmente ficar invisíveis. Aqui um pequeno lírio....

O tema de hoje aqui no blog é este: porquê as sombras, que importância têm as sombras?
Parece demasiado evidente, parece-nos bastante aplicar o senso comum, porém a explicação técnica é bem mais complexa.
Mas sim, existem razões técnicas que o justificam.
Desde os primeiros dias, o instinto de um robalo diz-lhe que deve procurar zonas sombrias para emboscar as suas presas.
E o instinto predatório meus caros, é algo que, sendo geneticamente passado de geração para geração, tem de funcionar. Ou não existiria.
Num porto, num cais, um peixe que se esconde debaixo de um barco não está só a esconder-se dos transeuntes que passam, não procura apenas libertar-se da incómoda pressão de ter sobre si a atenção de muitas pessoas curiosas, está também a esconder-se e a ganhar posição para desferir um ataque fulminante.
Um pescador de robalos sabe, por experiência própria, por saber feito, que deve estar no mar bem cedo, ou ir à costa lançar amostras tarde, muito tarde, ao lusco fusco.
Esses são os momentos do dia em que pode ter êxito. Não é por acaso.
O momento certo, se quisermos pensar sobre o assunto, são os dois limites mínimos de luz diurna. Vale para primeiros raios de luz do amanhecer, quando o sol ainda nem apareceu no horizonte, e vale para o pôr-do-sol, quando o astro rei desaparece dos nossos olhos, afogado no mar.
Nessas duas alturas do dia, a luz entra na água segundo um ângulo muito fechado, e por isso os valores de luminosidade que a penetram baixam consideravelmente.

Quando à sombra, o cinza escuro de um robalo não oferece um contraste significativo para uma presa encandeada e ...descuidada.

Menos luz, mais possibilidades de caça.
Façamos um exercício simples: quando conduzimos, caso tenhamos o sol por cima da nossa cabeça, não evidenciamos qualquer dificuldade em ver a estrada.
Porém, se o fizermos de manhã cedo, ao nascer do sol, e com este a incidir directamente nos nossos olhos, ....deixamos de ver a estrada. Baixamos a pala do carro, ou colocamos a mão em pala sobre os olhos, certo?
Acontece que os pequenos peixes que servem de alimento ao robalo, ...não têm mãos. Nem sequer podem semicerrar os olhos.
Avançar mar fora com o sol nas costas significa, para um robalo, poder ver e não ser visto. E assim sendo, a vantagem é toda sua, ....faz sentido?
Uma fugaz fracção de segundo pode ser a diferença entre a morte ou a sobrevivência para um pequeno peixe.
No jogo mortal entre predador e presa a detecção precoce da vitima ou do predador têm um enorme impacto no resultado final.

Poder estar debaixo do casco de uma embarcação significa ter uma estrutura sólida, a fazer sombra, a esconder. Um bom ponto de partida para um arranque fulgurante...

Podemos traduzir isto em números: um peixe imóvel na sombra consegue avistar uma presa iluminada sob a luz do sol a uma distância cerca de 2,5 vezes maior do que o inverso.
Isso ocorre em parte porque a sensibilidade dos olhos de um peixe à luz é determinada pelo brilho do seu ambiente. A luz solar que entra na água é refletida pelas partículas suspensas de lodo e matéria orgânica que dão cor à água.
Esses reflexos espalham a luz em todas as direções, para cima, para baixo e para os lados, o que torna a água relativamente brilhante ao redor dos olhos de um peixe sob o sol.
Sob luz intensa, os olhos dos peixes ajustam-se às condições, reduzindo a sensibilidade. Nós humanos fazemo-lo baixando as pálpebras, fechando-as de forma a reduzir a entrada de luz. Ou ficaríamos cegos em pouco tempo.
Os olhos dos peixes predadores, na sombra, por outro lado, ter-se-ão adaptado ao fim de algum tempo, aos níveis de luz mais baixos.
Serão assim mais sensíveis ao movimento, logo mais capazes de poder actuar quando caçam na zona mais escura.
Este conceito, acreditem, é fantástico.
E um bom exemplo de que, por detrás dos resultados de pesca milagrosos de alguém, há sempre uma explicação técnica que os justifica.

Ficariam espantados com a quantidade e tamanho dos robalos que descansam sob os barcos de um porto. Mesmo em locais com pouca água...

Para entenderem este fenómeno na sua totalidade, podemos ir mais longe: imaginem que estão a conduzir debaixo de sol intenso, e vão entrar num túnel escuro.
Quando vocês estão sob o sol e olham para dentro do túnel, não conseguem ver muito mais que a penumbra escura do interior. Zero detalhes.
Ao entrarem na escuridão, porém, e após algum tempo para que os vossos olhos se ajustem, vocês já conseguem ver a estrada, e até o que está em redor, as portas das saídas de emergência do túnel, as luminárias nas paredes, etc.
Quando saem, e porque os vossos olhos estão preparados para ver com pouca luz, passam a ter uma visão cerca de 20% mais sensíveis do que quando vocês ainda estavam ao sol, antes de entrarem no túnel.
Disse-vos acima que um peixe debaixo de raios solares é 2,5 vezes mais visível que outro imerso na penumbra.
Podem assim calcular a vantagem que a sombra oferece a quem a sabe utilizar....

Aqui, um robalo “estima” as suas possibilidades perante uma tainha ferida no dorso por algum hélice de barco.

Essa é uma das razões pelas quais as estruturas que proporcionam sombras são tão importantes para o nosso sucesso na pesca.
Por isso mesmo os robalos, e todos os outros predadores, procuram tirar partido deste jogo de luzes e sombras, das “zebras”, espaços de luz intercalados de sombras escuras.
Uma boia de sinalização marítima, um tufo de plantas aquáticas, uma ponta de rocha, um pilar de cimento, um detrito oceânico, um tronco afundado, um pneu atirado ao mar por um pouco varrido.
Tudo serve para tirar partido da sombra desde que ela exista.

As zebras, zonas escuras intercaladas de outras mais claras...

E como tirar partido deste factor quando pescamos?
Vamos ver isso no próximo número do blog.


Vítor Ganchinho


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