PESCAR CHOCOS, SEM DEMASIADA FÉ NA TONEIRA - CAP II

Não serão muitas, mas existem em Portugal pessoas que pescam chocos por saber, por conhecimento do ofício, da técnica.
Fazem regularmente pescas de boa qualidade, e quanto a “fé na toneira”, numa única toneira, ...dispensam.
Olhando às condições do mar, pescam com aquilo que lhes parece mais conveniente nesse dia, a essa hora.
Esqueçam as “fezadas”, os devaneios de quem acredita que só se pesca com aquela toneira e que sem “ela” ...nem vale a pena viver.
Dou-vos um conselho: se querem mesmo aprender a pescar chocos, vão ver como é, mas passem ao lado dos barcos com motores de alta potência, cheios de barulhenta gente da cidade ...não parem aí.
Vão sim ter com as pequenas embarcações a remos, com uma só pessoa a bordo. Vão ter com os varinos de Setúbal, os silenciosos homens das aiolas de madeira, barba por fazer, aqueles que saem de madrugada ao rio, camisa de quadrados para proteger do frio da noite, para fazer uns quantos chocos para o almoço.
Esses são os grandes mestres deste tipo de pesca porque a fazem desde sempre, aos chocos de sempre.


Gostaria hoje de vos deixar alguns conselhos práticos para quem se inicia nestas lides dos chocos e pretende encurtar caminho.
Podemos pescar chocos de duas formas diferentes: a deixar cair a montagem sobre o fundo, a rocegar as estruturas onde se abrigam, onde depositam os seus ovos, ou a fazer lançamentos em distância, com posterior recuperação.
Os setubalenses, gente que sabe de chocos aquilo que Maomé não sabe sobre o toucinho de porco, deixam cair a montagem, logo fazem pesca vertical.
Aqueles que seguem as tendências da moda e estão atentos ao Youtube, esses pescam mais baixo e lançam, perto da superfície. Chamemos-lhe pesca horizontal.
Ambas as opções são válidas, uns preferem pescar mais em profundidade, outros pescam nos baixios, onde os chocos estão menos apoquentados e por isso mais receptivos a morder.
Necessariamente as toneiras para cada uma das situações não serão exactamente iguais.
Nem no peso e flutuabilidade nem sequer nas cores.
Desde logo porque as cores mudam quando submersas, são absorvidas à medida que a profundidade aumenta.


As cores

Quem pesca até aos 10 metros de fundo pode utilizar os vermelhos, mas quem pesca a 30 metros não o deve fazer. Poder pode, mas não deve.
Também pode engolir uma toneira e no entanto será consensual que não deve, porque no mínimo ficará com as agulhas cravadas na garganta. Mas poder....pode.
Sabemos que o vermelho se torna um castanho baço e a seguir um preto, a partir dos 10 metros de fundo.
E também sabemos que os verdes e sobretudo os azuis mantêm as suas cores a grandes profundidades. Este assunto já aqui foi abordado no blog, mas podemos recapitular:
A água do mar faz desaparecer progressivamente as cores dos objectos, à medida que a luz do sol que as reflecte é absorvida.
As primeiras cores a deixarem de ser vistas são as cores quentes, (comprimentos de onda longos), e termina nos tons frios. A ordem exata de desaparecimento é esta:

Vermelho: Desaparece rapidamente nos primeiros 5 a 10 metros.

Laranja: Some-se por volta dos 10 a 15 metros.

Amarelo: Desvanece-se entre os 15 e 20 metros.

Verde: Começa a perder intensidade por volta dos 20 a 30 metros.

Azul: É a cor que mais persiste na água, sendo a última de todas estas a desaparecer.

Assim sendo, se vamos pescar para zonas rasas podemos optar por cores quentes, um vermelho ou laranja, um castanho, mas se vamos para um fundão, a escolha lógica será uma cor fria, eventualmente um verde ou ainda melhor, um azul.

A toneira e a técnica de movimento da montagem

Existem toneiras com chumbo frontal de compensação e outras sem esse chumbo.
A pesca ao choco é normalmente feita com a primeira possibilidade e a pesca da lula com a segunda.

Peso frontal em chumbo, (ou dropper) típico da pesca ao choco. Excesso de chumbo implica um movimento não natural.

Toneiras Van Cliff, específicas para a pesca à lula, com queda ultra-lenta.
Reparem que não têm peso frontal como o exemplo acima e as cores são neutras, naturais, tais como as presas habituais se apresentam.
   VER NA GO FISHING   

Na pesca feita na horizontal, de lançamento, é pressuposto que o pescador de chocos não adicione à toneira nada mais.
A profundidade é baixa, e colocar um peso adicional seria arriscar a prisão nos escolhos do fundo.
Para além disso, a sua queda deve ser lenta, a dar tempo ao bicho para se acercar e prender a amostra nos tentáculos.
Já na pesca vertical, ao fundo, a montagem necessita de um peso adicional. Também a pesca à lula implica a adição de um peso, logo duas linhas, uma para a toneira outra para o peso.
O que é normal no nosso país é que se coloque uma chumbada vulgar. É barato, é corrente, ...mas não pesca.
Os japoneses, que não se importam de gastar mais alguns yenes na sua montagem para pescarem mais, aplicam um “jib”, (ou “piteira”, em linguagem de varino).
Ou seja, isto:

Versão acima em formato lula, peso de 80 gramas, feita em tungsténio. Ou ao lado uma alternativa em chumbo, em 57 gramas, da Evergreen.

A vantagem de substituir a chumbada por um destes objectos é simples: a chumbada não pesca....
Já com estes artefactos mencionados acima, quando estão dois chocos juntos no fundo, sobem os dois, um na toneira e outro no “jib”. Pagam-se a si próprios com a captura de um ou dois chocos...
A ligação da linha, quando se pesca verticalmente, é feita em toneiras com a argola situada na ponta da toneira.
Isso reduz a pressão transmitida à ponteira da cana aquando dos toques verticais, e promove um movimento mais natural da isca.
Já quando se pretende lançar a toneira, e para que possamos imprimir-lhe um movimento “darting”, essa ligação deve estar recuada, por cima do olho da amostra.
É dessa forma que podemos conseguir o “zig-zag” que tanto excita os chocos.

Vamos continuar esta sequência de artigos sobre chocos, e no próximo número iremos ter informação sobre as agulhas das toneiras e o brilho ultravioleta e sistema “glow”.


Vítor Ganchinho


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