UTILIZAR AS SOMBRAS PARA PESCAR MAIS

Vimos no número anterior como as sombras podem ser importantes para quem espera por uma presa.
À primeira vista a situação comporta largas vantagens para quem ataca: o predador está imóvel, escondido, na penumbra, e com melhor acuidade visual relativamente à sua pretensa vítima.
Porém há um detalhe técnico que equilibra as coisas e nos interessa sobremaneira a nós pescadores...
Caso a investida do nosso robalo seja feita na direcção do sol, ele ficará temporariamente ofuscado quando tentar abocanhar a sua presa.
Isso pode ajudar o pescador, pois o peixe não consegue ser tão crítico em relação à amostra e ao líder nos centímetros finais do seu ataque.
Vantagem nossa.

Encharéus, peixes que normalmente se veem nas ilhas, mas que também aparecem por cá, no continente.

A sensação de incómodo causada por um choque de luz tão forte quanto o brilho do sol irá encurtar a distância percorrida até ao alvo.
Devido ao efeito ofuscante (como acontece connosco ao sairmos de um túnel...), o peixe percorrerá apenas uma curta distância desde a sombra onde estava emboscado.
Porque a sua visão não será clara o suficiente para tentar uma perseguição prolongada, então, caso não consiga acertar o golpe fatal à primeira tentativa, ele simplesmente esperará por outra oportunidade.
Uma forma de evitar isto é precisamente lançar do lado da sombra projectada, onde o predador pode ter um espaço de conforto maior, onde os seus olhos encontrarão acuidade visual suficiente para que a perseguição possa acontecer sem problemas. Mas nem sempre é possível...
Isto ilustra a necessidade de sermos precisos nos nossos lançamentos, de termos um controle absoluto sobre a queda da amostra.
Por outras palavras, se lançamos para uma sombra debaixo de um barco, convém que o engano caia mesmo junto à amura deste, pois caso isso não aconteça, estamos condenados ao fracasso.
Perto do barco, a roçar o casco, isso sim. Na realidade, "quanto mais perto, melhor".

Reparem que os encharéus andam misturados com os lírios, bons parceiros de caça.
Todos tiram vantagens das sombras projectadas pelos barcos.

Bem sei que é mais difícil colocar a amostra, ou por outras palavras, que é bem mais fácil lançar para uma zona larga, desimpedida. Mas não é aí que o peixe está.
Este é um segredo bem guardado: num estuário, e pese a existência do factor humano e da pressão que causa sobre a vida marinha, um dos elementos mais óbvios que atrai a fixação de peixes é algo que muitas vezes é completamente ignorado pelos pescadores: os barcos ancorados.
Não imaginam a qualidade dos peixes, sobretudo nas nossas ilhas, Madeira e Açores, que assim se esconde dos nossos olhos.
A maioria dos portos nacionais possui uma frota de barcos ancorados, estabilizados, e muitos deles abrigarão peixes debaixo em algum momento do ciclo de marés.
O pescador, querendo evitar prisões e perdas de equipamento, normalmente lança para longe do barco.
Mas o peixe está por baixo deste.
A razão pela qual os predadores se concentram sob barcos ancorados é devido à sombra que estes projetam, e que para eles é uma tremenda vantagem estratégica.
Vimos ontem que um peixe na sombra pode avistar um peixe miúdo sob a luz do sol a uma distância cerca de 2,5 vezes maior do que o inverso.
Desvantagem da presa...

Grandes peixes se escondem debaixo dos barcos...

Se tivermos um pouco de experiência neste tipo de pesca, podemos incluivé determinar quais são os barcos mais interessantes.
Tendo em conta a profundidade a que o casco se projeta abaixo da superfície, e no tamanho da sombra que o próprio barco projeta na água, é possível perceber quais são os mais atractivos para os predadores.
Geralmente, quanto maior o barco mais profunda é a quilha, e isso interessa ao nosso robalo. O que ele procura é uma cortina, um biombo, onde possa esconder-se, para a partir daí, poder trabalhar.
Em canais menos profundos, a existência de grandes barcos significa sempre que é aí que o fundo é mais significativo, e por isso esse será o ponto de passagem do peixe.
Mas um barco também pode ser um ponto de alimentação para peixes.
Inúmeros barcos ficam ancorados durante meses, ou anos. Nesses casos, os peixes congregam-se sob estes barcos porque eles frequentemente promovem o crescimento nos seus cascos de algas, mexilhões ou lapas.
Em casos extremos, e quando isso ocorre, o barco ancorado torna-se um importante ponto de encontro e alimentação.

Barcos de grande porte podem atrair para eles muita vida. Basta que estejam alguns dias ancorados e a cadeia alimentar forma-se.

Entendo que se substime a importância que uma embarcação ancorada tem para a fauna local.
Todavia vale a pena pensar na enormidade de possibilidades que a existência de um casco traz em zonas carentes de estruturas sólidas.
Para o predador as vantagens são óbvias: o ataque a partir da sombra é uma estratégia deliberada para melhorar a eficiência das suas capturas durante o dia.
Mas também para os peixes pequenos pode haver vantagens: podem proteger-se da predação aérea caso decidam ficar sob um barco ancorado.
E não só: por estarem próximos do casco, e podendo girar sobre ele, ficam amplamente protegidos das correntes de maré.
Nem tudo o que luz é ouro: obviamente, se houver uma concentração residente, permanente, de peixes pequenos sob um barco ancorado, este também rapidamente se tornará uma área de alimentação preferencial para peixes predadores.
Para os nossos robalos...

Em África, os locais de descarga de peixe são muitas vezes visitados por peixes muito interessantes.
Para quem vai de férias, não é demais ser portador de um equipamento de pesca e tentar lançar debaixo dos barcos.

Por outro lado, os pequenos peixes sabem bem de onde lhes podem chegar os problemas. Aqueles que ainda sobrevivem no cardume são os que sobreviveram, não os que foram comidos...
Sabendo-se caçados, eles ficam, quando próximos de áreas sombreadas, (onde sabem poder acontecer um ataque de um predador), muito nervosos. Por isso estarão mais vigilantes, mais atentos ao perigo.
Nem sempre porém as condições do local permitem que se evitem zonas potencialmente perigosas, e ...há que seguir em frente.
Canais mais estreitos, zonas de passagem obrigatória com sombras projectadas, nomeadamente pelos cascos dos barcos, ramos de árvores submersos, bancos de algas, pedras ilhadas, tudo isso dá ao pequeno peixe muito poucas oportunidades de evitar o perigo potencial.
Caso tenham pesqueiros assim, devem trabalhar metodicamente as amostras nessa zona, e procurar o local onde o predador estará escondido. Em algum momento da maré, ou a alguma hora do dia, ele irá acabar por atacar.
Nós não temos, mas os predadores têm muito tempo ao longo da sua vida para procurarem estes postos de caça mais favoráveis.
Quando os descobrem, posicionam-se de forma a tirarem o máximo de vantagens na hora de interceptar qualquer presa que esteja a mover-se na área onde o sol bate directamente.

Debaixo dos pilares e barcos há sombras, ....e predadores!...

As sombras são exaustivamente exploradas por quem ataca, e ao mesmo tempo, um ponto de conflito para quem procura escapar vivo.
Passa-nos ao lado que, em mar aberto, os peixes tenham de se preocupar com todos os predadores que possam surgir, robalos, atuns sarrajões, peixes agulhas, cavalas, sardas, lírios, bailas, etc, mas também com o facto de, quando próximos da superfície, com todo o tipo de aves aquáticas. Certamente já todos viram as quedas verticais dos gansos patolas.
Quando estes iniciam as suas vertiginosas quedas em cima de um cardume, e não é algo que possa ser discreto, os pequenos peixes passam a ter de lutar contra vários inimigos: os predadores que estão por baixo e as aves que os atacam por cima.
Muitos cardumes são dizimados até ao último peixe, por não conseguirem gerir esta situação.
Quando debaixo dos barcos, esse é um problema que não se coloca.

Aqui, em Setúbal, e pese a pouca profundidade, há robalos de bom porte debaixo dos barcos.

Na maioria das vezes, os peixes abocanham a amostra na descida, enquanto ela afunda lentamente. Aconselho a utilização de vinis, pequenos, pouco lastrados, com cabeças de chumbo de pesos não superiores 5 gramas.
As picadas são muito rápidas, especialmente se dermos um ou dois toques com a ponteira. Ajuda uma arrancada curta e forte no início do recolhimento, para chamar a atenção do predador de que algo vai acontecer.
Quando um robalo morde a amostra, é importante tomar imediatamente a iniciativa de aplicar força lateral, de forma a garantir que a luta ocorrerá na água limpa, desimpedida, entre o barco e o pescador.
Não fazer isso permitirá que o peixe enrole a linha na amarra da âncora e.....é peixe perdido.
Alguns peixes com mais peso, ou mais sabedores, irão levar-nos ao desespero, indo directos à amarração do barco, cortando a linha na corrente, normalmente rugosa, áspera.
Pode ser uma pescaria difícil e tensa, as dificuldades são muitas, mas a excitação é garantida.


Vítor Ganchinho


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