Outras gentes, outras culturas, outras pescas

Um dia de pesca não tem de ser um desfile de moda, mas tenho amigos japoneses que nem equacionam sair de casa sem estar devidamente equipados para a função.
Vão todos muito bem vestidos, com roupas concebidas pelas marcas para pescar. E também bem abrigados, até porque normalmente têm um clima mais rigoroso que o nosso.
Outro aspecto que me parece importante é o de serem eles próprios a insistir na utilização dos coletes de protecção.
Não pescam sem eles, por uma questão cultural, de segurança. O colete faz sempre parte de um dia de pesca, tanto quanto a cana e o carreto.

Mas há outros detalhes que considero importantes, e que porventura deveriam fazer-nos meditar um pouco.
Aqui em Portugal raramente lhes prestamos atenção, (até porque a preocupação de gastar pouco dinheiro se sobrepõe quase sempre ao factor conforto), mas a questão da lotação dos barcos é algo que muda por completo os resultados obtidos.
Quando veem gente do Japão a pescar, raramente terão oportunidade de ver um “molho” de pescadores encostados uns aos outros. A figura da traineira apinhada de gente, ombro com ombro, é algo que não faz sentido para quem tem da pesca uma visão de ocupação agradável do seu tempo livre. Se quiserem, e por outras palavras, ter um lado do barco disponível para nós, permite-nos movimentar, colocar os nossos materiais de pesca onde nos é mais conveniente, trabalhar o peixe com espaço, e permite ainda que alguém nos possa auxiliar com uma rede quando já temos o peixe em cima. Porque há efectivamente espaço para isso!

Aquilo que é corrente entre nós é a divisão das despesas do barco pelo número máximo de pessoas possível, o que torna a pesca um martírio, um “suportável” acto de recolha de pescado. Se o colega do lado deixa que o seu peixe enrole as linhas de dois ou três companheiros de pesca, (e qualquer peixe de bom tamanho o consegue fazer), há enleios para meia hora, impropérios de fazer corar Cristo, e no fundo, tudo tem a ver com a concepção que se faz do acto de pesca.

Penso que é unânime e incontestável que por cá toda a gente se queixa de falta de peixe, que apenas há peixe pequeno, que se paga muito para os resultados que se obtêm, etc. E é verdade. Nos sítios onde pescam isso é mesmo verdade.
Aquilo que se paga é tão pouco que os mestres não podem, sob pena de perderem dinheiro com a saída, ir para mais longe do que vão. É certo e sabido que os pesqueiros encostados às cidades estão exauridos de peixe.
Porque a pressão é diária, porque as pequenas e médias embarcações podem ter acesso a esses locais, porque é barato, e porque impera a lógica do: “posso não pescar nada mas pelo menos não gasto muito em combustível”.
Quando a questão fundamental é não gastar dinheiro, tudo o que está a jusante dessa decisão já está comprometido.

Porque me parece importante chamar a tenção para estes detalhes, trago-vos hoje uma sequência de fotos de um casal meu amigo, japonês, (com quem já pesquei algumas vezes lá, e até aqui no nosso país, nos Açores), que decide alugar um barco e ir pescar para fazer peixe para a família.
Ponto prévio: porque alugam um barco com dimensão, apenas para eles, têm espaço para se movimentarem. E tudo o que vem a seguir, é resultado de poderem decidir quando fazer, o que fazer e como fazer.


A minha amiga Xeng, a bater-se com um peixe feito com um jig. Reparem que está a chover, mas ela não se incomoda com isso, tem umas calças e casaco impermeáveis Gamakatsu. As marcas produzem equipamentos pensados para a função e pesca. Para além de cumprirem as funções de impermeáveis, este casaco e calças deixam ainda liberdade de movimentos para que se possa pescar confortavelmente. Claro que pesca com luvas, e a qualidade do conjunto de cana e carreto é acima da média. No Japão, pescar com jigs é tão comum quanto aqui pescar com isca orgânica.


O capitão do barco, para além de conhecer bem os locais de pesca, e de providenciar um barco limpo e asseado, e alimentação, também auxilia a sua cliente, e está já a postos para ajudar a colocar a rede sob o peixe que sobe à superfície. Fazem isto indistintamente, quer se trate de uma senhora ou não. O objectivo é que a captura se concretize, e que a cliente fique feliz. De notar a possibilidade de poder trabalhar o peixe ao longo de todo o deck, sem obstáculos. Da popa à proa, o barco está disponível!...


É muito frequente que os carretos fabricados no Japão tenham a manivela à direita. Bem sei que vos parece estranho, mas é apenas uma questão de hábito.


Eles fazem à direita aquilo que nós fazemos à esquerda, tal como em Inglaterra se aprende a conduzir pela esquerda e nós o fazemos à direita. Não há um método melhor que outro, apenas é diferente.
Para a Europa, as marcas produzem equipamentos que são o inverso daquilo que é normalmente comercializado no seu país.
Aquilo que salta aqui à vista é a disponibilidade de espaço e a aparente facilidade com que a acção se desenrola. Reparem num outro detalhe: a minha amiga Xeng utiliza o polegar esquerdo para bloquear a saída de linha, porque já tem o peixe muito próximo da superfície. Se necessário, basta levantar o dedo e o peixe pode voltar a descer. Isto é bem feito tecnicamente. Resulta do facto de haver milhões de senhoras no Japão a pescar e de aprenderem desde pequenas a executar de forma correcta. A pesca é algo muito enraizado para esta gente, e muitos dos 130 milhões de habitantes são…pescadores.


E aqui o têm, um bonito pargo, feito com um jig, algo que dificilmente poderíamos ver em Portugal. Não pelo jig em si, que é um Deep Liner que existe à venda na loja GO Fishing Almada, mas porque o número de pessoas a praticar esta pesca é reduzido, e mais ainda se falamos de uma mulher. Culturalmente continuamos a ser um país de homens que pescam com isco, que pescam em barcos apinhados de gente. Muito sinceramente, penso que não seria possível fazer uma foto destas, com uma senhora, a pescar ao pargo com jig, em Portugal.


A pescaria continua, e outros peixes se sucedem, trata-se de espécies que não temos entre nós, mas temos outras que fazem as vezes destas e nunca será por não termos peixe que não podemos pescar desta forma. Claro que temos peixe!


Chamo-vos à atenção para um outro aspecto: podem ver aqui um balde de plástico com sangue. Lá dentro, está um peixe a que foi feito o processo “Ike jime”, para retirar o sangue e permitir com isso uma melhor qualidade da carne. Relembro que no Japão o peixe é consumido em cru, e por isso eles têm muito cuidado com a preservação do pescado. Esta é a forma correcta. Podem ler sobre este tema aquilo que foi dito na “semana sushi”, anteriormente publicado.


De resto, é mais do mesmo, é a foto para a posteridade, para mandar aos amigos, aos familiares, e o orgulho de poder fazer um peixe que irá alegrar a família. Poderia ser uma dourada, um bom robalo, ou algo mais…português, mas o sentido é o mesmo.


Podem reparar no jig. A sua dimensão leva-nos a pensar que estarão a pescar na casa dos 100 a 150 metros de fundo. Eu pesquei com eles em Kochi, a 360 metros de fundo, e para eles isso é uma profundidade corrente, sem nada de especial. Mas é verdade que os equipamentos de pesca que utilizam permitem conforto a pescar a essas profundidades. 


Mais um exemplar, desta vez um pouco mais pequeno.


Ao fim de uma jornada de pesca, o peixe é devidamente acondicionado numa geleira, e mais uma vez os japoneses são inacreditáveis na qualidade que colocam a produzir este acessório, pois para preservar em boas condições o peixe que pretendem fresco, necessitam de equipamento de alta qualidade. Não esqueçamos que por vezes eles têm de se deslocar muitas centenas de quilómetros para chegar a este ou aquele posto de pesca específico. Transportar o peixe é pois algo de extremamente importante. As geleiras da Daiwa permitem, nalguns casos, conservar gelo dentro durante…96 horas.
Para nós isso não deixa de ser importante, pese as nossas deslocações não sejam de longa duração. Mas temos um clima quente e isso só por si deveria fazer-nos pensar. Podem ver estas geleiras na GO Fishing em Almada.


Aspecto geral da pescaria de hoje. O que avulta aqui é a importância que dão à qualidade do peixe. Há gelo, há uma geleira de alta qualidade, e o peixe foi tratado com o método Ikejime. A qualidade do peixe está garantida. Vão poder fazer os seus sashimis durante alguns dias.


O meu amigo a pescar com uma versão de um carreto Studio Ocean Mark. A GO Fishing distribui estes carretos para Portugal, normalmente com a manivela à esquerda.


Esta gente leva o seu tempo livre muito a sério, porque não têm muito e por isso encaram a pesca como algo que é pressuposto que corra bem.
Assim sendo, deixam muito pouco ao improviso quando se trata de planear as suas saídas, de marcar as suas pescarias.
Não vos vou mesmo fazer a pergunta, por recear saber a resposta: …acham que isto seria possível em Portugal?
A verdade é que é possível. Eu faço-o três a quatro dias da semana, durante todo o ano, e se hoje vos escrevo estas linhas é no sentido de fazer um pouco de luz sobre a forma como é possível conseguir resultados de pesca quando temos poucas pessoas a bordo. Para duas a três pessoas é possível conseguir estas condições. Para vinte pessoas não é.
Os custos de deslocação são muito mais altos, as despesas existem, são reais e são divididas por pouca gente. Isso é um facto indesmentível. Mas também é verdade que não é possível corrigir a técnica de alguém quando temos duas dezenas de pessoas a pescar à nossa frente. De resto nem imagino o que seja ter essa quantidade de gente a fazer jigging. É contra tudo aquilo em que acredito.
Para o peixe deve ser algo como estar literalmente no meio de uma tempestade de bocados de chumbo. Não acredito que funcione, de todo.
A pesca é algo que tem de ser feito com discrição, em silêncio, respeitando os tempos do peixe, procurando pescá-lo quando se encontra activo a procurar comida. Se me perguntam o que é que isto tem a ver com um barco cheio de gente a fazer barulho, que logo por azar está ao lado de outros barcos que lançam ancoras e recolhem ancoras, que têm motores a trabalhar, que pescam num sítio onde acabaram de levantar redes, ….não vos sei responder.

O método que utilizo baseia-se sobretudo em ser discreto, em procurar peixe em pedras longínquas que por isso mesmo estão descansadas, que são pouco pescadas, e que por isso têm algum peixe.
É caro ir longe, é caro ter de dividir as despesas por duas ou três pessoas. Mas o peixe que está em cima das pedras também é dividido apenas por duas ou três pessoas, e não por vinte...



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Mais um excelente texto amigo Vítor 😀👍 Em relação à manivela do lado direito e em ter várias pessoas a largarem jigs no fundo eu tenho que discordar 😊
    Passo a explicar as razões. A manivela à direita num carreto só faz sentido no caso dos de big game, pois necessitamos do nosso braço mais forte para conseguirmos ter um equilíbrio entre força e agilidade quando estamos a recolher linha. No caso dos de jigging ou de qualquer outro de casting o mesmo já não faz sentido pois precisamos de força mas para agarrar na cana e carreto e deixar o ato de enrolar para o braço esquerdo! A meu ver não se trata de uma questão de preferência ou hábito mas sim de uma questão física e muscular!
    Em relação ao um número elevado de jigs a cair no fundo, ele é benéfica em diversas situações. A primeira porque aumenta a actividade e o frenesim dos pelágicos, a segunda porque aumenta a possibilidade de capturar peixe de fundo como garoupas, pelo simples facto de conseguirmos colocar os jigs numa área maior e por terceiro permite a captura de duas ou até três espécies quando estão em cardume. E que por norma são espécies que se assustam quando um dos peixes está ferrado, como é o caso das corvinas!
    Grande abraço e tudo de bom para a família caro amigo 😀👍👍👍

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    1. Boa tarde Luis Ramos O mais sentido agradecimento pelo comentário. Para mim, ter alguém com o perfil do Luis Ramos a discordar de algo é desde já um privilégio e uma grande honra. Fiquei muito feliz por o ter aqui e lanço desde já um desafio, que é o de escrever algo para todos nós, devidamente ilustrado com umas fotos desses peixes de sonho que há em Angola. Eu pesquei em Luanda e em Cabinda....

      Mas vejamos as razões de ser do meu cometário. Vamos ver então por partes:
      1- Aquilo que ressalta das minhas experiências de pesca por terras japonesas é muito claro e não deixa grande margem para dúvidas: eles pescam sobretudo com manivela à direita. Falamos de 99% das pessoas. Basicamente os carretos japoneses aparecem cá com o nosso posicionamento de manivela porque eles sabem que não venderiam um único se fosse ao contrário. E por isso fabricam para nós europeus, mas para eles, é mesmo à direita. Confesso que da primeira vez que fui "forçado" a pescar dessa forma, me senti desconfortável. Foi com o dono da fábrica de jigs Deep Liner, em Kochi, a pescar extremamente fundo, com jigs de 400 gr, e foi ...penoso. Fiz peixes, ainda assim. Depois disso passei a frisar-lhes que para mim, era sempre um carreto com manivela esquerda. Para eles, isso é tão estranho quanto para nós o oposto. Eu concordo com o Luis quando refere que o nosso braço mais forte é normalmente o direito, e por isso deveria ser esse o braço da cana. Concordo e pratico, para mim, é manivela à esquerda e não se fala mais no assunto. Mas vamos lá dizer isso a quem é nipónico...! Para eles, está fora de questão uma manivela à esquerda. Porque se habituam desde miúdos a pescar dessa forma. Dado que os europeus aprendem ao contrário, assim ficam o resto da vida. Eu nunca mudarei. Mas acredite que não é por trabalharem com manivela à direita que eles deixam de pescar peixes gigantescos. Não me custa nada concordar que existam pessoas que preferem fazer ao contrário. O meu amigo prof. José Rodrigues diz-me que para ele é absolutamente indiferente, sendo que tem carretos com manivelas direitas e esquerdas. Que ele compra...
      Sobre a força de braços ser muito diferente, ...eu tenho uma PT (personal trainer) loira, atlética, peituda, de nome Nancy, que não me deixa desequilibrar muito....estou muito igualzinho...

      Sobre a questão da molhada de jigs: estaremos a pescar em sítios que apresentam realidades diferentes. Aí desse lado, com muito mais peixe poderá ser assim, mas se o Luis tentar pescar garoupas deste lado vai ver que o jantar vai ser frango no forno. Concordo em absoluto, aí será assim, mas isso não se adequa ás nossas águas, salvo raras excepções. Veja o caso dos lírios, que entram que nem malucos quando um deles está ferrado. É um excelente exemplo. Nos Açores fazem-se pescarias incríveis dessa forma, com peixes acima dos 30 kgs. Mas os nossos lírios aqui têm 2 kgs...e são raros...
      Saí ao mar hoje, fiz alguns robalos, um pargo bom e curiosamente...um lirio.
      São realidades diferentes. Aquilo que resulta bem aqui é ser discreto, pouco ruído, até porque a quantidade de pedras efectivamente boas, é reduzida. A nossa costa é muito batida, dia e noite pelos profissionais, e aquilo que sobra para a pesca à linha não é muito. Eu estou a ir à água 4 dias / semana e sei que não há peixe para todos. Se levo quatro pessoas pescam sempre menos que duas. Luís, deste lado é assim...

      E queremos notícias do seu projecto de abrir um centro de pesca! Para quando? Queremos publicitar aqui e queremos visitar o espaço, obviamente! Caso possamos dar alguma ajuda, quer em termos de divulgação, quer em termos de envio de clientes para esse lado, estamos cá e disponíveis para ajudar.

      Um grande abraço Luís Ramos!

      Vitor Ganchinho




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