A resistência das nossas canas

A maior parte dos nossos pescadores não leva o seu equipamento de pesca ao limite, nem perto disso. A primeira reacção quando sentem um bom peixe, é abrir a embraiagem e dar linha.
Apoderam-se deles uma mistura de suores frios, de nervoso miudinho, e de desespero por pensarem que algo pode correr mal.
A raridade de uma boa captura obriga-os a lutar por cada peixe como se fosse o último exemplar do oceano, e isso tolhe-os de movimentos, de vontade de experimentar o limite elástico das suas canas.
Compram canas novas, utilizam-nas durante anos e deitam fora, já velhas, sem nunca chegar a saber o que elas lhes poderiam ter dado.


Com estas canas Alpha Tackle pode-se apertar à vontade: são inquebráveis, impossíveis de partir em acção de pesca. Seguramente que outros componentes irão partir muito antes.


Uma cana Shimano Bandit, um portento de tecnologia. Muito leve, mas potente, a trazer peixes grandes de 200 mts de fundo, pescando com carreto eléctrico alimentado a bateria de lítio. Sim, o mesmo material das baterias de telemóvel. Dá horas e horas de energia e não necessita de qualquer tipo de fio, o que nos permite ter muita mobilidade a bordo.


Desde cedo habituei as minhas filhas a não terem muita pena das canas, em acção de pesca. É pescar e tirar de uma picada tudo aquilo que ela nos pode dar, de força, entusiasmo e …incerteza.
E isso não se faz largando linha fácil e acabando por meter o peixe no barco esgotado, ao fim de uma eternidade de tempo, quando pode haver dúvidas de que este pode este ter sido vencido pelo cansaço, ou por ter…morrido à fome.
Os cuidados de limpeza ao chegar a casa, de verificação dos estado dos passadores, etc, esses sim, sempre. Confirmar a ligação perfeita do carreto à cana, sempre.
Nós levamos as canas montadas de casa e a análise de pequenos detalhes é feita em sossego, na nossa bancada de trabalho, quando estamos a tempo e tudo pode ser remediado.
Ter a certeza de que o carreto não tem linha de diâmetro que exceda a resistência da cana, sempre. Não tem graça partir a cana porque a linha não partiu antes. Proceder à limpeza das linhas com água doce, sempre.
Se há gestos que não devem nunca ser feitos, um bom exemplo é colocar à vertical uma cana carregada com um peixe grande (se a quisermos partir de certeza …é fazer isso!). As canas trabalham, no máximo, a 45º de inclinação.
Por outro lado, deixar que o peixe aperte com a cana a sério, é algo que não me incomoda. O material está preparado para isso. Aquilo que faço é deixar o drag regulado com alguma precisão, e o resto deixo ao cuidado do fabricante.


As minhas filhas a apertarem com as "varetas". Se partirem, o pai compra outras, pelo que é sem dó nem piedade. Vejam-nas aqui a brincarem com os lírios pequenos. 


Um conjunto Daiwa Saltiga, com um pargo valente, a puxar bem. Bem que pode fazer força, porque o material aguenta sempre.


Penso que uma das razões pelas quais os nossos pescadores arriscam tão pouco tem a ver com o que leem na própria cana, aquilo que julgam ser a sua acção. Este é o grande busílis da questão.
O trabalho de hoje que vos trago ao blog tem a ver com isso. Vamos aprender que uma cana feita no Japão, salvo melhor indicação, ou indicação expressa em gramas, traz a sua acção mencionada em GOU`s.
E que medida é esta, que raio de palavra é esta que nunca ouvimos falar?! É isso que vamos ver hoje.




O GOU japonês em rigor nada tem a ver com gramas. Nem sequer há uma tradução para inglês deste tipo de referência, aquilo que se faz é utilizar o símbolo hashtag #.
Concretamente, #1 quer dizer 1 GOU, e isso significa algo como 3.75 gramas, aproximadamente.
Por exemplo eu encomendei à Daiwa Japão uma cana para pescar profundo, com carreto eléctrico, e eles indicavam-me a sua referência Shot Viper SMT com uma acção #20 - #150. Reclamei, dizendo-lhes que era manifestamente insuficiente, já que eu iria pescar com chumbadas acima dos 250 gr, quase sempre. E que por isso, estaria sempre muito fora da zona de conforto da cana, ou seja, iria estragá-la rapidamente, para além de não conseguir obter rendimento de pesca com ela.
A paciência dos japoneses fez o resto e explicaram-me então, ainda em 2020, a razão da sua proposta: o que me estavam a aconselhar eram 20 a 150 GOU`s, ou seja, 75 a 562.5 gramas de acção. Por outras palavras, estavam carregados de razão, e vim a constatar isso aquando da estreia da cana.
É uma preciosidade. Na verdade, é hoje a minha melhor cana para pesca profunda, sendo que me aconselharam acção média, dada a profundidade significativa a que pesco habitualmente.
Eu prefiro canas mais rápidas, se quiserem mais “rijas” mas a solução certa, aquela que permite uma maior percentagem de capturas concretizadas, não é a cana mais dura, mas sim a intermédia, de blank mais progressivo, que acompanha melhor os movimentos do peixe, na sua tentativa desesperada para se escapar. As canas rijas rasgam muito a boca do peixe, abrem muito facilmente o buraco do anzol, e dado o tempo que medeia entre a cravagem e a chegada à superfície, acabam por se perder muitos exemplares. E por vezes já nos últimos metros, perto da superfície, com o peixe à vista.
Os carretos eléctricos trazem o peixe muito rapidamente para cima, são nesse aspecto insubstituíveis, mas têm o inconveniente de “apertar” com os bichos. Se vem mal cravado, pela ponta do lábio, é certo que escapa.
Quando temos carapaus no pesqueiro, e se estamos a pescar a 150 metros, não imagino o que seja enrolar linha À MÃO, até acima, um destes pilantras. Aí, vantagem do carreto eléctrico, de novo. No fim de tudo, basta adequar o diâmetro da linha, da embraiagem, e temos no carreto eléctrico um aliado precioso. Eu não o dispenso.
Mas voltemos aos GOU`s….passo-vos abaixo uma tabela, à qual por razões de espaço cortei inúmeros valores intermédios, exemplo o 21, 22, 23, 31, 31, 33, 34, etc, ( mas que posso passar por e-mail a quem dela necessitar), na qual é possível perceber com exactidão a que se referem os japoneses nas suas canas, quando a unidade de medida não é mencionada, por exemplo em gramas. Tratam-se de GOU`s, e esta é uma tabela de conversão de acção muito útil:

No. 1 - 3.75g
No. 10 - 37.50g
No. 20 - 75.00g
No. 30 - 112.50g
No. 35 - 131.25g
No. 40 - 150.00g
No. 45 - 68.75g
No. 50 - 187.50g
No. 60 - 225g
No. 70 - 262.50g
No. 80 - 300g
No. 90 - 337.5g
No. 100 - 375g
No. 120 - 450g
No. 150 - 562.50g
No. 200 - 750g
No. 250 - 937.5g
No. 300 - 1125g


A relação de forças entre a cana e as variações de peso que ela suporta dependem em primeira instância do tipo de cana. Não é idêntico lançar amostras ou deixar cair um peso para o fundo.
Uma cana de lançamento não tem a mesma robustez e peso de uma cana de pesca vertical. Ou não lançaria bem.
Bem sei que vocês olham única e exclusivamente para a “ACÇÃO da CANA”. Não nos diz tudo.
Podemos generalizar dizendo que, excepto para amostras e outras pescas de lançamento, basicamente é de pensar que a cana irá apenas largar um peso aos nossos pés e fazer o seu acompanhamento até ao fundo. Falamos de pesca vertical, carretos eléctricos, jigs.
Pretender uma cana mais versátil que dê para tudo é algo que nenhum vendedor de canas sério poderá indicar-vos. Ninguém pode vender, ou comprar, uma cana que "dê para tudo", porque isso não existe. Quem a vende não é sério, e quem a compra não sabe muito sobre pesca.  
A compatibilidade de uma cana de lançamento com uma cana de pesca vertical é difícil ou impossível de conseguir pois se foi desenhada para uma função foram-lhe retirados outros atributos que seriam úteis para outras funções.
E assim sendo, quando falamos de canas de lançamento, podemos considerar que o peso de carga indicado, quase sempre, senão sempre, se refere à variação de peso da amostra a lançar.
Se temos uma cana ligeira 3-12, isso significa que será optimizada quando pescamos com amostras, jigs, vinis, entre os 3 e os 12 gramas. É esse o peso que podemos lançar, com segurança.
Se quiserem ser mais precisos, a sua carga óptima será a de uma amostra com 7.5 gramas, ou seja, a soma dos dois valores divididos por 2. O critério é este.
Eu tenho canas cujo intervalo de lançamento é de 0.5-3.5 gramas, e utilizo-as para lançar, com linhas muito finas, amostras de 2 a 3 gramas.
E, porque utilizo linha muito fina, lanço a algumas dezenas de metros, sobretudo micro-amostras de superfície, (em dias sem muito vento ou com vento favorável), quando quero divertir-me fazendo subir os peixes à linha de superfície, para comerem à vista. É muito motivador fazer subir peixes e colocá-los a comer onde nós queremos. Com uma cana de acção mais pesada, não as consigo lançar, as pequenas amostras caem-me aos pés, não têm peso suficiente. O que pesco? Peixe-agulha, cavalas, sardas, sargos alcorrazes, carapaus, e se quiser carregar a cana um pouco mais, são os robalos, lírios, atuns sarrajões, etc.
Trata-se de uma cana SRAM, da casa japonesa TICT, que pesa 55 gr, e é de uma sensibilidade extrema. Nos dias de calmaria em que as grandes amostras não ferram um peixe, este sistema em conjunto com um carreto tamanho 1000 e linha PE 0.3, que lança perfeitamente amostras de 1.5 a 3 gr, mantém-me ocupado e divertido durante horas e horas.


Um dos grandes craques europeus, António Pradillo, que faz o que quer com uma cana na mão. Ele pesca muito fino.



Neste caso chamo-vos a atenção para o facto de, em termos técnicos, a minha cana nunca passar dos 45º relativamente à linha de água. Nessas condições, a utilizar jigs ligeiros até 30 gramas, é muito difícil que uma cana parta. O resto, é mais peixe menos peixe, sendo que a maior parte dele vai inevitavelmente ser devolvido à água. O peixe aqui é o que menos interessa, reparem sim na acção da cana. 

Voltamos à questão da definição das instruções mencionadas: canas de lançamento de amostras para pesca de costa, têm gravadas na sua acção o peso que permitem lançar.
A maior parte destas canas é fabricada a pensar em pesca executada a partir de lançamentos, e isso faz delas canas menos próprias para outras tarefas.
Parece-me que se impõe uma palavra sobre uma situação muito comum na pesca vertical: há muita gente, no caso de pesca a horas de correntes fortes, (normalmente com luas muito grandes), a optar por aumentar o peso da chumbada.
E fazem-no até valores que excedem em muito a acção da cana que compraram. Seria bem melhor rever a questão da linha que estão a utilizar. O aumento do peso da chumbada faz-nos perder peixes por ficarmos mais lentos a ferrar.
Se a calibragem dos peixes que estamos a pescar é baixa, porquê insistir em pescar grosso, qual a necessidade? O sentimento de insegurança que as pessoas sentem por pescarem fino é algo que não tem correspondência factual, a rotura de uma linha, desde que de boa qualidade, é mais que rara!
O que rompe é material de baixa qualidade, ou seja aquele que é escolhido em loja por ser o mais barato. Preferir o mais barato é aceitar jogar um jogo em que o pescador perde sempre.
Com material de qualidade, a questão rotura de linha raramente se coloca. É mais fácil que aconteça com a cana, e sempre por má utilização. É o pescador que parte a cana, não o peixe. Uma acção inadvertida pode deitar tudo a perder, o peixe, a cana, e por vezes até danificar o próprio carreto. A verdade é que os equipamentos podem partir-se se insistirmos em dar-lhes a utilização errada. Ter a noção da sua fragilidade é já um bom princípio. E para isso, a tabela acima, em GOU´s, pode ser útil.
O conceito pode aplicar-se a outros tipos de canas, embora do meu ponto de vista seja perigoso pretender generalizar. Como vos disse, há que separar as águas, e considerar se temos nas mão uma cana de spinning, de pesca vertical, de surf-casting, de jigging, de trolling, etc. Cada uma destas canas terá as suas características particulares e não resulta bem pretender aplicar um princípio universal, válido para todas.
No limite, deve imperar o bom senso, e devemos considerar se vale a pena estar a forçar uma cana com cargas de chumbo, ou outros esforços, por exemplo pesca em correntes fortes, que excedam em muito a capacidade do nosso material. Há alguns tipos de pesca que exigem um pouco mais dos nossos conjuntos, por inerência de função. Por exemplo a pesca com jigs a partir de costa. Aquilo que os espanhóis fazem muito na Galiza e que também deste lado se faz, a pesca ao robalo com “chivos”. Mais não são que um jig com um atrelado de pelos ou penas. Nestas situações, não há que improvisar, a escolha certa é mesmo uma cana de lançamento, concebida para isso. Também não é possível lançar um jig de 80 gramas e esperar que a cana possibilite grandes acções de animação, algo de muito diferente de lançar e recolher. Alguns esticões de pulso, alguma arritmia na recuperação e a acção fica por aí. Verdade que na maior parte destes casos a pesca é feita em condições de ondulação elevada, de rompente, em que o peixe está condicionado a morder, ou a perder a possibilidade. No meio de correntes fortes e muita agitação marítima, com espuma, o peixe decide morder ou não em fracções de segundo. Ou morde ou perde a presa.





Aflorei esta questão da resistência das canas no dia 1 de Setembro de 2020 aqui no blog, a propósito de um artigo técnico, seguramente dos melhores que já escrevi, sobre canas de spinning da marca G- Craft. Vale a pena reler.
Trata-se de uma marca que mesmo no Japão é considerada uma coisa “do outro mundo” pela qualidade que tem, e que escolhe muito bem os seus distribuidores. Não vende G- Craft quem quer.
A marca é bastante selectiva, exige muito de quem coloca uma das suas canas à venda, faz formação prévia aos lojistas, dá muita informação técnica, não deixa nada ao acaso na sua representação.
Porque têm a sua produção completamente tomada, (têm sempre muitas centenas de clientes em lista de espera), depois da confirmação de aceitação de uma encomenda pode acontecer um prazo de entrega superior a três a quatro meses.
Não basta ter dinheiro e querer comprar. O cliente é convidado a explicar o tipo de capturas que pretende, pesos médios das amostras a lançar, quais os tipos de peixes na sua zona, qual o tipo de carreto que irá utilizar, as linhas com que pretende pescar e em função disso é-lhe aconselhado um determinado modelo.
Eles preferem não vender a entregar uma cana a quem possa estragar a sua reputação. Caso suspeitem que alguém irá servir-se dela para fins para os quais não conceberam o seu produto…optam por não vender.
Verdade que tudo o que produzem já está vendido e até recebido à anteriori, mas ainda assim, significa uma posição de força e exclusividade num mercado bastante aberto. Há milhares de fabricantes de canas…
As canas G-Craft são canas de spinning e actualmente as detentoras de inúmeros recordes do mundo de lançamento de amostras, em várias categorias.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Vitor,

    Deste excelente conteúdo de informação, quero apenas realçar a partilha do vídeo das suas filhotas, é simplesmente maravilhoso ver a "nossa" juventude a dar continuidade a esta tão maravilhosa paixão... os meus parabéns!

    Abraço,
    A. Duarte

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    1. Olá António Elas apertam com as canas e levam-nas ao limite. Pudera, se houver algum azar, o pai trata. Aquilo que quis deixar claro com a passagem desse vídeo é que as canas aguentam muito mais do que parece, desde que sejam cumpridas as regras de não ultrapassar os 45º de inclinação em esforço. Eu pesco com canas muito finas, com acções de 0.5 a 3 gramas, e no entanto faço peixes de 2 kgs com elas. A última coisa que me poderia passar pela cabeça seria tentar puxar para dentro do barco um desses peixes, à força. É um absurdo gastar 600 euros numa cana e não saber trabalhar com ela. Por isso penso que se deve aprender ( e partir algumas canas....) com material muito barato, até estarmos no ponto certo para poder disfrutar de material topo de gama. Há diferentes níveis, patamares que se vão cumprindo, até chegarmos acima. No domingo passado, um jovem cliente da GO Fishing, um alemão de 17 anos, fez um pargo de 2 kgs com uma baixada com linha de nylon de 0.20mm. Estava a pescar com um camarão de vinil, a peixe miúdo, e o peixe apareceu. E correu tudo bem, porque ele cumpriu em rigor todas as instruções. DEu a linha que tinha de dar, foi paciente, e o pargo entrou no barco. Ficou feliz por fazer uma foto com o peixe e a seguir libertou-o.

      As minhas miúdas fazem o mesmo. Vem aí uma geração "catita"!

      Abraço
      Vitor

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