Parecem sargos, ...mas não são

Quando mergulho, frequentemente acontece-me ser chamado de urgência (!!) por colegas que esbracejam e agitam freneticamente os braços fora de água, para eu ir ver “sargos” grandes, gigantescos.
Eu já tenho demasiada idade e suficiente falta de entusiasmo para andar a correr atrás de sargos monstruosos. Que no fim e afinal não são nada disso.
Porque têm um comportamento algo parecido, e frequentam quase o mesmo habitat, estes peixes podem dar-se a alguma confusão e erros. Falamos das “Kyphosus sectratix”, as nossas patruças.
De cor acinzentada, e porque entram pontualmente em cavidades, frestas escuras, lajões que assentam sobre outras pedras e deixam várias saídas, as patruças podem de facto confundir-se com outros peixes mais comuns, como os nossos omnipresentes sargos. O seu peso pode ser significativo, 6 kgs, e crescem até aos 76 cm. Isso, aliado à fértil imaginação dos mergulhadores, transforma-as em gigantescos “sargos”, prontos para levar uns fogachos de arpão.
Não valem o esforço. A sua carne não tem grande qualidade, desde logo porque tratamos de um herbívoro convicto. A patruça alimenta-se de plantas marinhas, algas bentónicas, em suma um vegetariano, embora com uma pequena percentagem de crustáceos e moluscos incluídos na sua dieta.
Existem do outro lado do Atlântico, e em Fernando Noronha, alimentam-se de…excrementos de golfinhos….
Casa-se a fome com a vontade de comer, ou seja, porque preferem viver numa faixa estreita de água superficial, entre 1 e 30 metros, com preferência pelos primeiros 10 metros, chocam de frente com os caçadores submarinos novatos, que ainda não conhecem os peixes, e que, por falta de rotina de caça e capacidades físicas, pouco baixam dos primeiros metros de profundidade. Encontram-se. E por grande azar, temos no mesmo sitio, um caçador inexperiente que as confunde com os sargos da sua vida, e um peixe que para além de ser conhecido por patruça, também é conhecido por….”preguiçosa”. Deixo à vossa imaginação adivinhar o que se passa a seguir.


Vejam aqui a diferença entre uma patruça e um sargo. O sargo tem riscas verticais e está no fundo da foto. Estas finas riscas horizontais deveriam ser suficientes para alertar os caçadores sub de que não são sargos, mas muitas vezes é tarde demais. Na cena do crime já cheira demasiado a pólvora para ainda irmos a tempo de as salvar.


Este é o habitat preferido das patruças: água limpa, mexida, com alguma ressaca, e muita luz. E poucos metros de profundidade, ou seja, um cenário óptimo para procurarem as algas de que se alimentam.


Ei-las, em estilo. De facto o formato lembra um sargo. São é grandes demais para serem sargos.


As patruças encontram-se normalmente junto à costa, encostadas à pedra de onde retiram alimento. Podem aparecer em baixas ao largo, mas sempre com algum tipo de protecção, normalmente rochedos com fendas. Não diferem muito em termos de comportamento das suas congéneres salemas, que são um peixe extremamente vulgar, desde logo pela sua reduzida captura por parte dos humanos. A razão é simples de entender: a falta de qualidade da sua carne não torna nem uma nem outra particularmente atraentes.


Aqui um cardume de salemas. Os fundos que frequentam são os mesmos.


Ei-las, a raspar as algas de uma pedra encostada à superfície. Estes peixes têm o tamanho certo e por isso são alvo de predação por outros de maior porte. Já aqui escrevemos no blog algo sobre salemas, e as suas propriedades alucinogénias, recordam-se? É andar para trás no blog e ler de novo.


Os caçadores submarinos mais inexperientes abrem fogo a peixes destes. Estou certo de que, alguns anos depois, e já mais conhecedores, seriam incapazes de o fazer. Mas todos aprendemos a partir do zero.


De reter que as patruças não são sargos e em termos culinários, a diferença é enorme, abismal, bem maior que as subtis mas ainda assim perceptíveis diferenças que possam ter em termos físicos.
Deixem-nas em paz, por favor.



Vítor Ganchinho



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