MUITO MELHOR QUE ISCO VIVO!

Pesco em determinados períodos do ano com isca viva. Concretamente quando as águas estão muito frias à superfície, e o peixe afunda para cotas na ordem dos 100 metros, ou mais.
O recurso a isca viva, cavala em primeira instância, e a seguir carapau, tem a ver com a facilidade da sua obtenção. Há toneladas na costa, e durante quase todo o ano. Pesco estes peixes miúdos com jigs pequenos, nas zonas baixas onde costumam andar com regularidade.
Prefiro as cavalas, por razões que têm a ver com a resistência que demonstram perante a contingência de transportarem um anzol, e porque a prioridade de alimentação dos nossos peixes predadores a isso obriga.
Poderíamos definir uma escala de “preferências”, um menu que começa na sardinha, passa pela galeota, cavala e por último o carapau. Há muitos outros, mas a sua presença não é tão consistente. Haverá razões alimentares que determinam a preferência, ordenadas pela quantidade de aminoácidos, gorduras, proteína, etc, que nos são indiferentes, mas não para os nossos peixinhos. E, relativamente ao carapau, pelo menos quando em estado adulto, terá defesas que uma sardinha não tem.
Segurem com a mão num e noutro peixe, vivos, e entenderão a razão.

A pesca com artificiais oferece possibilidades que não devemos desprezar. Se é verdade que não existe uma amostra que imite a 100% uma presa viva, ainda assim um jig ou uma amostra de superfície manuseadas com destreza podem ser muito mais convincentes que um troço de isca orgânica depositada no fundo, inerte. Para muitos peixes é bem melhor um jig feio em movimento que uma iscada bonita de peixe morto, estático.
Os peixes necrófagos não hesitam em comer peixe decomposto, tudo aquilo que lhes possa trazer um aporte de energia. Falamos de moreias, safios, abróteas, tintureiras, etc. Mas não são esses que procuramos.
Aqueles que fazem sobretudo da caça de presas vivas a sua forma de obter alimentos, com pargos e robalos à cabeça, sentem-se mais tentados a atacar uma peça de chumbo brilhante em movimento que um estático naco de peixe espetado no anzol.

Vejamos hoje aqui no blog alguns jigs e amostras que funcionam muito bem, uma selecção restrita de “máquinas de guerra” preparadas para pescar em diversas situações:


Jig de 30 gr equipado com assiste duplo Cultiva/ Owner, tamanho 1/0, com cordão de 15mm de comprimento. Por vezes, e porque estes materiais são fabricados do outro lado do mundo, visando outras espécies de peixes, é necessário trabalhar sobre o tamanho dos anzóis e inclusive o comprimento dos assistes. Algo que fazemos com gosto, em casa, prolongando o prazer de preparar uma pescaria.


Trata-se acima de uma peça de slow jigging, a qual pode ser utilizada para pescar a quase totalidade dos nossos peixes. Aponto esta peça para pescas até 40 / 50 mts de profundidade.
Imita na perfeição uma pequena sardinha e desde a superfície, e dos peixes que nela trabalham, o caso das cavalas, dos atuns sarrajões, passando pela meia água, com os robalos a pontificar, mas também as choupas, as sardas, etc, e o fundo, com os pargos, as bicas, douradas, os sargos, etc, tudo se lança a esta “sardinha”. Para não travar demasiado a progressão do jig, aconselho a utilização de linha fluorocarbono de diâmetro não superior a 0.33mm. Chega e sobra para os nossos peixes.




Ter em carteira diversas opções de cor ajuda, nomeadamente quando queremos estar de bem com a visibilidade da água.
Repito uma ideia já muito difundida aqui no blog: águas muito limpas, transparentes, lusas, pedem jigs em cores naturais, como temos nestes três exemplos acima.
Em situações de falta de visibilidade, por exemplo após um ciclo de chuvas, de descargas de barragens, de vento norte que empurre as aguas carregadas de sedimentos dos rios para a nossa zona de pesca, então aí os metalizados puros, os laranjas, amarelos, brancos, etc, funcionam melhor. Chamamos-lhes cores…flash.
Por exclusão de partes, chegamos à conclusão de que, em profundidades de trabalho de 15 a 60 metros, é possível fazer tudo com uma selecção de jigs entre os 12 e os 40 gramas.
Podemos ter de “negociar” o peso dos jigs em função de um ou outro dado de excepção, tal como uma corrente particularmente forte, um dia de ondulação mais severa, mas se quisermos investir pouco em equipamento, então a seleção deve ser feita entre os 20 e os 40 gramas. Estimo que bastem uns 8/10 jigs para que nos possamos considerar armados. Depois, são as visitas à loja de pesca, e acabamos por aumentar a coleção.
Como me disse um amigo há dias, …”se vamos ao Toys“R”us”, compramos sempre algo”….


Esta cavalinha faz milagres!


Aqui, temos uma proposta da marca japonesa Xesta, com o mesmo peso da anterior, 30 gr, mas com características diferentes.
Quando temos a certeza de que existem peixes de bom porte na zona, podemos adicionar um assiste simples à cabeça. Mas em jigs curtos, de pequeno volume/ comprimento, não é imprescindível.
Este jig dá-nos excelentes resultados quando temos águas com visibilidade média, ou mesmo muito limpas. As vibrações que emite aquando da descida são facilmente captadas pelos predadores, através da sua linha lateral.
Este órgão, muito sensível a tudo o que seja a percepção de ondas de choque emitidas por algo que se agita no plano de água, ajuda o peixe a orientar a sua busca de alimento. Os predadores têm muita dificuldade em resistir a um jig deste tipo, quando bem trabalhado. Representa para eles uma cavala juvenil, perdida, em choque pelo facto de estar sozinha, sem orientação. A natureza faz o resto, trata de eliminar todos estes casos rapidamente.
Por azar do peixe que morde, trata-se do nosso jig. Este ano deu-me fantásticos robalos, a caçar nos baixios.
O jig After Burner Xesta, versão 20 ou 30 gr, pode ser equipado com um triplo à rectaguarda, ou com um assiste duplo curto.

A razão de ser um assiste curto tem a ver com a maior ou menor probabilidade de enrocar nas pedras do fundo. Quando procuram comer uma presa os peixes podem ter dois tipos de acção: ou mordem na acepção da palavra, o conceito que temos de “trincar” entre os dois maxilares, apertando com força para imobilizar a vítima, ou abrem a boca e fazem um movimento rápido de sucção, sugam a presa para dentro da boca e tratam de a engolir o mais depressa possível. Este processo é, conforme podem entender, muito rápido, quase instantâneo. Corresponde a um instinto natural do peixe e é determinado pelo tipo de dentição e formato de boca do predador. Conseguem imaginar que não seja idêntica a mordida de um pargo armado de dentes caninos fortes, e um robalo, que de dentes apenas tem alguns vestígios ásperos. Pois o assiste mais longo favorece a ferragem, sobretudo para os peixes que aspiram, porque os anzóis estão mais soltos, mais propensos a serem transportados à boca pela corrente de água que se forma aquando da sucção. Sendo que para os peixes que mordem, haver uma distância demasiado grande entre o jig e o anzol pode inviabilizar que a cravagem seja efectiva.
Mordem naquilo que faz volume, que tem massa, mas desprezam as “barbatanas”, os nossos jigs. Tive esta época duas picadas falhadas de pargos capatões que poderiam ter acima de 10 kgs, por isso mesmo: assistes demasiado longos…apenas ficaram as marcas dos dentes no chumbo do jig. E que marcas…
Viria a fazer num outro local um capatão de 11 kgs, conforme mostrei aqui o blog. Provavelmente recorde de Portugal em linha PE0.6, e chicote de fluorocarbono 0.30mm. Um verdadeiro milagre ter conseguido um peixe daquele peso e força, com uma linha tão fina. O multifilamento PE 0.6, com resistência inferior a 6 KGS, (13 lb) não é “receitado por nenhum médico” para aquela função, mas tratando-se de um fio marca Daiwa Morethan 12, …aguentou.


Um jig Xesta After-Burner, numa cor muito universal, que até funciona bem entre nós.


Não gostaria que subestimassem estes jigs em termos de capturas de peixe grosso. Na verdade, e desde que armados como o exemplo acima, um assiste duplo da marca Daiwa, com muita qualidade, estamos equipados para pescar os grandes peixes que nadam nas nossas águas. A resistência mecânica da peça, do jig em si, será inquestionável, mas aquilo que conta mesmo é a tenacidade dos anzóis, a sua capacidade de resistir aos esticões que os peixes de maior tamanho necessariamente nos irão dar. Também não será pelas argolas que algo de ruim irá acontecer, até porque muito antes disso, haveria algo mais a ceder.
Quando temos um conjunto equilibrado, ou seja, quando a cana, o carreto, a linha multifilamento, o baixo de fluorocarbono, os anzóis, quando tudo está harmonizado, passamos a depender mais
da nossa habilidade de mãos do que da resistência de cada peça de per si.
Não esqueçam que, mesmo com material mais ligeiro, podemos perfeitamente pôr a seco peixes muito interessantes. A questão não se coloca tanto ao nível de anular um ponto frágil, porque quando temos equipamentos ligeiros, …tudo é frágil.
Mas temos a embraiagem do carreto, que nos ajuda a suportar as primeiras investidas do peixe. E a seguir, já com ele afastado de escolhos, pontas de rocha, estruturas, podemos gerir a pressão que aplicamos a nosso gosto.
Ter pressa a mais resulta em roturas de linha. Um peixe grande trabalha-se com tempo, sem pressas. No mar não há pressas, tudo deve levar o tempo que for necessário. É inglório estar horas, ou dias, à espera de um peixe digno de um bom combate, e deitar tudo a perder por querermos vê-lo depressa demais. Demasiada sofreguidão e curiosidade fazem-nos perder o peixe.

Importante mesmo é termos a picada, e para isso, contamos hoje com amostras que são cada vez mais reais. Vejam a linha JigPara, à venda na GO Fishing Portugal, que tem tudo para ser um sucesso. A forma de armar estes jigs pode ser a tradicional, com um assiste à cabeça, e um triplo na cauda. Mas também funciona bem, sobretudo a versão 40 gr, com um assiste duplo na cauda. Há que decidir em função da espécie de peixe pretendido, o peso médio que é expectável, a possibilidade de enrocar dos fundo, etc.
Muitos fabricantes deixam à consideração do pescador essa escolha, e retiram ao preço da peça o valor que teriam de cobrar pelo armamento. Outros, cientes de que a maior parte das pessoas irá seguir os seus conselhos, fundamentados em testes de mar, comercializam os jigs completos, prontos a pescar. Eu prefiro comprar as peças em separado, e equipo de acordo com a intuição que tenho para o momento em que vou pescar, e que difere durante as várias épocas do ano. Tenho sempre em casa algum stock de diversos tamanhos de triplos, e assistes, simples e duplos e em função do que vou fazer, assim preparo de uma ou outra forma os meus jigs.




Dado que aplicamos os anzóis simples, duplos, ou fateixas triplas utilizando argolas fendidas, o sistema é extremamente flexível, permitindo-nos decidir em função do nosso gosto pessoal.
Para tal, basta-nos ter um alicate próprio para esse tipo de argolas. Estas peças são básicas na mochila de um pescador. Uma pequena caixa estanque, onde acondicionamos uma pequena quantidade de acessórios, resolve todas as questões que possam surgir durante uma saída de pesca. O resto, é….escolher a cor.




Recentemente surgiram versões de jigs em Tungsténio. Vêm identificados com a sigla TG, conforme podem ver abaixo. Trata-se de um material muito mais caro que o chumbo, pelo que o valor dos jigs é incrementado de acordo com essa premissa. Não os julguem melhores apenas por serem mais caros. Deveremos analisar friamente se são necessários ou não.
Se por um lado tem vantagens, (e a principal é mesmo o facto de ser compacto, muito denso, afundando mais rapidamente que o chumbo), também terá as suas desvantagens.
Digamos que, numa situação de dia ventoso, com o barco a deslocar-se rapidamente, o tungsténio permite-nos atingir o fundo mais depressa, conseguindo alguns segundos preciosos de pesca vertical, que podem ser decisivos. Outra situação em que terá indiscutíveis vantagens é a termos o barco a ser rebocado demasiado rápido pela corrente. Em dias de luas grandes, a corrente é mais forte, e isso pode inviabilizar a pesca. O tungsténio ajuda, e de que maneira, por afundar em menos tempo. Outra vantagem: por ser um material mais denso, isso permite, para um peso idêntico, fabricar jigs mais pequenos, logo mais universais em termos de capturas de espécies.
Os pargos, os robalos, os sarrajões, têm bocas grandes, mas as bicas têm a boca pequena...


Por outro lado, está por provar que uma descida mais rápida seja interessante para peixes que comem na caída. Em zonas mais baixas, de 20/ 25 mts, eu até pesco com jigs feitos, não em chumbo, mas em zicral, uma liga que pesa pouco mais que alumínio.
A ideia é ter um volume um pouco maior, e com isso obrigar o jig a descer mais lento. Em dias de pouca corrente, pode ter vantagens. Explico isso nos cursos de pesca que dou: é o mar que manda, é ele quem decide qual, naquele momento, é o material mais indicado.
Como em tudo na vida, não existem soluções perfeitas, teremos sempre de considerar as condições que temos à nossa frente e tomar a nossa decisão.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Fernando Santos26 outubro, 2021

    Olá Sr Vítor !
    Grande aula sobre jigs e as suas diversas utilizações.
    Muito obrigado pela partilha de tanta informação. Para nulidades no assunto como eu essas "aulas" são mesmo muito úteis e satisfatórias. Já tirei os meus devidos apontamentos.
    Forte abraço !

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    1. Boa tarde Fernando Santos É um prazer receber as suas mensagens! Nós vamos apostar muito na divulgação de informação que seja útil em acção de pesca. Os próximos artigos vão ter uma componente muito forte de imagem em filme. Porque exemplifica muito bem aquilo que se pretende. Penso que é mais fácil entender a partir de um filme, mesmo que eu faça a seguir alguns comentários, porque nem sempre as condições de filmagem são as melhores. Por vezes está vento, e o som perde um pouco.

      Mas vai ser eficaz, penso eu.


      Um grande abraço!!

      Vitor

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  2. Boa tarde, excelente artigo! Gostaria de experimentar a utilização de jigs para a pesca de costa ao robalo. Profundidades baixas e com necessidade de lançamentos longos. Recomenda algum tipo de jigs ou características específicas para este tipo de pesca!?

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    1. Bom dia Rui Alves.

      Há momentos em que pescar com um jig pode resolver muitas questões que, em termos técnicos, seriam complicadas. Por exemplo no caso de, a pescar de costa, termos vento de frente, e não conseguirmos por isso colocar uma amostra a 60 / 70 metros, atrás da rebentação.
      Por mais que as amostras voem, por melhores que sejam as canas, há limites práticos para esse tipo de lançamentos. Os jigs voam muito mais, por serem mais compactos e aerodinâmicos. A utilização de jigs não é nada de novo no nossos país, há muitas dezenas de anos que os "chivos", uma peça metálica acoplada a um pingalim, com anzol simples, é utilizado para pescar o robalo. Faz-se ainda hoje na Galiza, e no norte de Portugal. Em mares muito agitados, isso é algo que já deu bastantes provas de eficácia. Os jigs apenas são uma versão moderna dos antigos chivos, com melhor aspecto, menos toscos, mais realistas, se quiser.
      Não tenha dúvidas de que a pesca jig casting, feita a partir de costa, resulta. Mais ainda se houver mar formado. Lance que eles picam, desde que haja robalos. Um conselho: não pesque com fateixa tripla, porque vai encalhar no fundo. A pescar com jigs de costa, aquilo que é correcto é pescar com um assiste duplo, de corda curta. Os japoneses fazem mesmo uma diferenciação muito marcada entre a pesca embarcada e a pesca apeada. Eles têm outros peixes, mas o principio básico é o mesmo: aproveitar o facto de os peixes predadores chegarem à costa para comer peixe miúdo, e apresentar-lhes um jig, que para eles é...peixe miúdo em fuga. Força nisso! mande fotos com os seus robalos.

      Abraço
      Vitor

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    2. Rui Alves, faltou-me referir que o peso dos jigs não deve exceder o máximo necessário para colocar a peça à distância pretendida. Se puder pescar com 20 gramas, não utilize 30, se conseguir fazer com 12 gramas, melhor ainda. Porque irá operar em fundos baixos, o peso excessivo significa sempre problemas: ou por encalhes na pedra, se a houver, ou quase pior que isso, por não ser capaz de dar qualquer tipo de vida, de animação ao jig. E se lançar e recolher um jig de forma linear, fica algo amorfo, sem vida, e que não provocará qualquer estimulo no peixe. Nunca esqueça que não e só uma questão de lançar e recolher, ....há que dar a a aparência de uma presa viva, que está debilitada e que por isso é um alvo fácil.

      Vá dando noticias!


      Abraço
      Vitor

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  3. Excelente tema e partilha, muito obrigado.
    Se puder, não esqueça os seguidores que pescam em kayak.
    Eu muitas vezes pesco atrás das ondas ... literalmente. e com sucesso, mas ao trolling.
    Irei ver as próximas publicações, com muita atenção!!!

    Forte abraço, Paulo

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    1. Boa tarde Paulo Fernandes O pessoal das "banheiras" fica muitas vezes para trás, porque quando se pensa em pesca, pensa-se em sair de barco para a pesca. Não tenho a menor dúvida de que há por aí pescadores "anafados", para o obeso, a quem qualquer médico estagiário seria capaz de receitar a pesca de kayak como solução para o excesso de peso.
      E ainda conseguem uns peixes para casa!

      O que vem aí é pressupostamente melhor que o que já foi feito. Fique atento a um artigo que deve sair dentro de uns 5/6 dias, sobre pesca à abrótea. Acho que vai gostar, mesmo não sendo a sua especialidade.

      Para si, reservo-lhe algo sobre ventos......vai gostar!



      Abraço
      Vitor

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