Não isentos de perigos, os esteiros oferecem ainda assim algum abrigo natural para uma dourada que acaba de nascer e ainda acredita ...na bondade do mundo.
A sua riqueza em matéria orgânica, potenciada pelos sais minerais trazidos do interior das terras a montante, é suficiente para alimentar toda a biomassa viva que ali se alimenta.
Falamos de fito e zooplâncton, o grande motor de desenvolvimento de todas as cadeias alimentares.
Podemos pensar que a experiência de vida de um ser acabado de nascer é pouca e isso joga sempre contra ele. Ao mesmo tempo, os predadores que habitam o mesmo espaço serão suficientemente oportunistas para se fazerem valer das suas superiores capacidades e atacam os indefesos alevins.
O que sobra em termos de possibilidades de sobrevivência não é muito, e daí a grande mortandade que se verifica nesta fase de vida.
Grande parte das posturas perde-se aqui, neste momento crítico.
A fragilidade física de um alevim é gritante. Nada parece ajudar a que se salve um único, mas ainda assim, e contrariando a lei das probabilidades, alguns destes crentes na “bondade do mundo” ...salvam-se. A percentagem que o consegue é diminuta, irrisória, mas existe.
Estima-se que percentualmente menos de 3% das posturas resultem em indivíduos adultos, e em anos difíceis, ...ainda menos.
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| Um dia na vida de uma jovem dourada é uma perfeita aventura. |
Os alevins lutam contra tudo e contra todos.
Contra o tempo porque querem e necessitam de crescer, contra os perigos que os rodeiam e que implicam alguma “sorte” na escolha dos locais de permanência, contra causas naturais, os frios, a agitação marítima, etc. Ver o mundo através de olhos liliputianos tem os seus inconvenientes.
Em termos de natureza e seus riscos, a quantidade de imprevistos que podem acontecer a uma dourada jovem, de corpo magro, franzino, são um absurdo.
Não poderão nunca contar com a complacência dos mais velhos, mais fortes e mais rápidos os quais, a este nível, podem ser robalos de...5 cm. Todos querem comê-las!
Mais vale a pena acreditar na protecção das algas marinhas, na sua capacidade de camuflagem, e daí a necessidade de lá chegar o mais rápido possível.
Com efeito, o instinto de migração dos alevins leva-os a aceitar a força das correntes de enchente, a deixarem-se ir na direcção da zona de transição de águas salgadas para águas doces.
Aí chegados, parte da empreitada está concluída, mas a luta pela vida ainda só começou, a cada instante um predador espreita, ameaçador.
E a vida do nosso pequeno peixe não deixará nunca de estar em perigo: comer e não ser comido é o lema.
Para isso, há que aprender a escapar a situações de perigo, e elas existem a toda a volta, a qualquer segundo do dia.
Atenção absoluta a todos os detalhes que contam, saber usar o instinto gravado no seu ADN, aquele que lhes foi passado pelos seus progenitores.
O instinto que lhes faz saber que para ir do ponto 1 para o ponto 2, o único caminho que não podem tomar é ...a linha recta.
O que comem as douradas acabadas de nascer? Os alevins beneficiam da riqueza energética do fitoplâncton e zooplâncton que lhes serve de alimento.
O crescimento mais ou menos rápido depende em grande parte da sua capacidade de saber encontrar uma ecossistema favorável, com boas condições de alimentação e segurança. Crescer é preciso.
Não fora a intervenção humana e este peixe teria muito mais tempo de permanência dentro do Sado.
Na verdade são as pessoas, através da sua acção directa e indirecta, quem expulsa estes peixes de dentro do rio para fora, para o mar aberto.
As redes onde ficam presas, a poluição (os herbicidas lançados nas culturas de arroz do vale do Sado e que saem ao rio na vala real vinda da barragem de Sta Susana..., os efeitos das decapagens de tintas da Lisnave, os eflúvios da pasta de papel da Portucel, da Cecil cimentos, etc, ...), são culpados de não termos tantas douradas como poderíamos ter. Muitos óvulos não eclodem sequer....
A pior das mortes é aquela que não deixa uma dourada ser sequer ...uma dourada: a poluição mata-a antes do pequeno ser sair do seu embrião....
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| Os humanos procuram de todas as formas capturar douradas, sem olhar muito a tamanhos. O que não serve para grelhar serve para fritar... |
Aquilo que muita gente nota hoje, a falta de douradas, já é uma falta sentida por muita gente há bastantes anos...
Quem acompanhou este processo de diminuição ciclica deste espárida, quem tem boa memória, sabe que a cada ano os resultados têm sido mais minguados, mais decepcionantes, e que, à data de hoje, qualquer tentativa de comparar uma pescaria feita há 30 anos com aquilo que se faz agora é um absurdo.
Das caixas de enormes douradas de 6/ 7 kgs para os juvenis de 300 gramas que hoje se pescam, vai um mundo de diferença.
Há culpados.
Todos aqueles que nesta altura do ano afiam os seus anzóis e vão armados de caranguejos cortados aos quartos, aos bicos, aos quadrados, e os lançam sobre os cardumes destes imberbes peixes.
Que se registe em favor das vitimas que estas não têm sequer as suas capacidades de defesa activas, estão em período de reprodução, de formação das gónadas e a palavra de ordem é só uma: comer o máximo possível para alimentar os óvulos. São peixes juvenis, pescados ao cento, que essa coisa de pescar troféus, douradas adultas com peso, já foi chão que deu uvas...
Hoje pesca-se ao número, não ao peso.
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| As redes matam muito peixe que deveria continuar a viver, a reproduzir. |
Há 20 anos, o mês de Outubro já era farto de capturas de douradas de bom porte, grandes, com força e a pesca da dourada prolongava-se até Janeiro do ano seguinte.
Este ano, a quantidade de douradas com tamanho e peso tem sido irrisória, limitada a meia dúzia de peixes com estatuto de adulto.
O stock de douradas diminui a olhos vistos, e um dia iremos assistir a algo impensável a quem as pescava com regularidade: não há.
Uma dourada adulta de 7 kgs leva anos a fazer, e sai do lote de douradas de 300 gramas que há uns anos a esta parte se pescam aos centos.
E se as pescamos em juvenis, não as teremos em seniores.
Mais que isso: as almas caridosas que vão dentro do Sado pescar douradas de 12 / 15cm às centenas, ....são culpadas por um crime de lesa património de algo que é de todos nós, pescadores decentes. Esses imbecis que são capazes de ir às douradas com minhoca, os que trazem baldes cheios desses peixinhos com menos de um palmo...bem podiam limpar as mãos à parede com tamanha proeza.
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| O que pode escapar aqui?... |
Nesta altura do ano, em que os primeiros frios já chegaram, em que os dias encurtam e as noites são mais longas, as douradas entraram em modo de reprodução. Aquilo que pode salvar as douradas não é infelizmente a consciência de quem as quer pescar grandes e adultas. É sim a limitação de possibilidades de saída ao mar, os temporais, as vagas altas, tudo aquilo que possa afastar os pescadores destes peixes. Quanto pior vier o inverno melhor para os peixes, numa perspectiva de pesca. Mas elas sofrem também com isso, com as agruras do tempo, se as temperaturas forem demasiado baixas o seu crescimento fica retardado.
E se os peixes atrasam o ganho de peso e tamanho, e sofrem gastos energéticos a combater o frio, as suas posturas sofrem ainda mais. Muitos alevins morrerão por não terem reservas de energia suficientes para aguentar o gelo em que se tornam as aguas rasas.
Estamos muito dependentes da qualidade do ano quanto à multiplicação das nossas douradas.
Os factores que verdadeiramente contam devem estar alinhados na perfeição para que tudo corra bem. Basta que a temperatura baixe alguns graus a mais e tudo se perde...
Para as douradas que conseguem ultrapassar essa fase inicial, a de pós-larvas, espera-as um verdadeiro martírio até chegarem a adultas.
A maior parte não conseguirão.
Podemos ajudar, libertando os exemplares mais jovens.
Está na nossa mão, depende de nós...
Vítor Ganchinho
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A pesca da dorada devia ser proibida de novembro a dezembro, em determinados locais neste triângulo Setúbal, Sesimbra e Sines. A pesca de sargos é proibida na costa vicentina durante a sua desova, os pargos no Reef em sines durante 2 meses está proibido para sua desova. Se não fizerem nada para proteger a Dorada dentro de poucos anos, muito poucos, acabou a febre da pesca dourada em Dezembro !
ResponderEliminarBom dia José Duarte Efectivamente a gestão que fazemos de um bem comum como o são os nossos peixes, é desastrosa.
EliminarNão passa de uma politica de terra queimada, em que o importante é o hoje, e amanhã logo se vê.
Os espanhóis têm uma frase que diz: um dia de fartura e quinze dias de fome.
Fazer a gestão correcta de efectivos implicaria um levantamento rigoroso dos períodos de desova, no caso da dourada o intervalo que medeia o Outubro e o Dezembro, e uma proibição total de pesca da espécie.
Ao fim de quatro anos, haveria muitos milhares de douradas com peso e tamanho, disponíveis para poder criar em quantidade suficiente para que se pudessem pescar sem problemas.
Como está é bom de ver que caminhamos alegremente para o abismo....
Abraço e obrigado pela sua participação no blog.
Vitor
Eu acrescentava o robalo, a corvina, o choco, a lampreia (que é capturada apenas no período da desova), ... enfim os técnicos sabem perfeitamente quando proteger melhor as espécies. Eu compreenderia se limitassem a pesca dos maiores exemplares nesses períodos.
ResponderEliminarTambém não entendo toda a atenção que estão a dar à pesca desportiva, quando a pesca profissional tem um impacto obviamente maior. Ainda assim, até a pesca ilegal tem outro impacto quando praticada com as redes. O registo informático das capturas na pesca desportiva, não nos informa o contraste com as capturas da pesca profissional e o sentimento será sempre de injustiça. Cpts, paulo
O robalo irá ser uma das espécies a ser monitorizada muito em breve.
EliminarComo sabe, os franceses tiveram de tomar medidas draconianas para o proteger, porque já estavam a sentir uma escassez enorme.
Dividiram o país em dois e as medidas não são iguais para todos.
Mas há zonas onde se faz apenas captura e solta.
A partir de dia 09.02.26 é pressuposto que as capturas de algumas espécies nacionais sejam declaradas à DGRM. Vou escrever algo sobre isso assim que possível.
Vamos ver o que isso traz de novo.
Para já assenta sobretudo em espécies que, a nível europeu, são mais críticas.
O caso do atum rabillo e do robalo, penso que mais umas duas ou três.
A verdade é que não fazer nada, a opção de quem apenas quer pescar hoje e não quer saber do amanhã, é absolutamente criminoso para as gerações que vêm atrás de nós.
Este é um assunto a seguir com atenção.
Abraço
Vitor