TEXTOS DE PESCA - Hoje os morcegos vão à pesca…com jigs. Pescar à noite…??

O objectivo de hoje é comentar aquilo que se pode fazer em pesca embarcada, utilizando jigs. Seria algo simples e banal, não fora o facto de alguém pretender saber a minha opinião, (e nunca será mais que a minha opinião pessoal) sobre a pesca com jigs, …à noite!
Pescar com jigs à noite? Dada a quantidade de aspectos a analisar, não deixa de ser uma missão espinhosa. Mas é para isso que este blog existe e por isso, vamos lá arregaçar as mangas e trabalhar neste assunto. 



Ponto prévio: tentar prolongar a pesca para além da hora do pôr-do-sol, por razões de segurança, é algo que fica reservado a dias de excelentes condições atmosféricas, de mar calmo, e sempre com um objectivo preciso em mente: este ou aquele peixe de maior qualidade. O crepúsculo da noite traz consigo o levantar do véu de muitos segredos, e de tudo aquilo que não aconteceu durante o dia. 
Talvez fosse bom começar por definir aquilo que é dia. Para nós humanos é simples: partimos do princípio que aquilo a que chamamos dia são as condições de luz que temos desde o nascer do sol até ao pôr-do-sol. Para nós, dia é isso. Mas para os peixes pode não ser assim. Dou-vos dois exemplos: a pesca muito profunda, abaixo dos 600 metros, limite de zona fótica em zonas de águas muito limpas, (mas algumas centenas de metros acima em situações de águas tapadas, com suspensão, que bloqueiam a passagem de luz) ou a pesca em buracos de gelo, nos países nórdicos, em que o peixe não tem noite nem dia. E se não há luz, a visão não serve, logo o peixe tem de recorrer a outros sentidos para detectar a sua presa/ comida. Tratando-se de querermos pescar com jigs, é bom que saibamos o que estamos a exigir aos nossos peixes.
Analisemos as suas capacidades, por partes: O olfacto, salvo melhor opinião, não conta dado estarmos a utilizar um objecto metálico, sem cheiro. A audição,...acreditamos que não será suficiente para permitir a detecção e captura do nosso jig em tempo útil. O que vos posso dizer sobre isto é o seguinte: a velocidade do som no ar propaga-se entre os 300 e os 340 metros por segundo. Na água a velocidade de propagação é de 1400 metros segundo. Embora sejamos mais dotados que os peixes em termos de audição, eles ouvem e captam os sons mais rapidamente. Nunca me cansarei de dizer que na pesca o silêncio é de ouro. Tenho colegas de pesca que me fazem a vida negra porque são uma banda filarmónica de barulhos e ruídos consecutivos. Não me dão descanso. E nem se apercebem que aquilo que estão a fazer é mandar para longe os peixes mais velhos, aqueles que procuramos…..
Sobra a linha lateral, sobre a qual já vos falei, e essa sim, é válida. Convém voltar atrás e ler aquilo que foi publicado a 21.04.20 sobre este tema, para entender melhor. Repito um capítulo apenas, relativo à linha lateral: Este órgão receptor do peixe é muito sensível, muito mais do que podemos julgar, e percebe vibrações de baixa intensidade através desta linha, que vai do opérculo à base da cauda. A linha lateral tem várias fossas, furos que atravessam as escamas e que estão ligados a um sistema nervoso fino, sensível, que transporta a informação ao cérebro. É assim que os peixes captam facilmente os estímulos que imprimimos ao meio líquido, as vibrações, os sons e particularmente o gosto, o paladar. No nosso caso, os humanos, essa sensibilidade de perceber vibrações perde-se, porque nos movimentamos em meio gasoso, e porque o ar é pouco denso, não transmite. Para os peixes é muito mais fácil, eles estão em ambiente aquático, e isso favorece-os, porque o meio em si propaga muito.

Ou seja, no caso vertente, contamos sobretudo com um dos hipersensíveis sentidos dos peixes, a linha lateral, porque os outros serão muito menos aptos para aquilo que nos interessa. Mas contam. Todos os peixes têm um determinado nível de capacidade de visão nocturna, sendo que alguns nitidamente conseguem uma melhor performance. No fundo, são os que utilizam esse argumento para caçar e comer à noite, aqueles que, mercê da sua capacidade de visão extra, conseguem vantagens sobre os outros, os que evoluíram no sentido de ver bem ou ver melhor, durante o dia. Peixes com maior actividade nocturna têm argumentos de visão apurada para prescindir de outros sentidos, tais como o olfacto, a linha lateral que lhes permite sentir as vibrações, ou a audição. Mas não quer dizer que o façam. Da mesma forma que nós humanos, pese embora estejamos a conduzir um carro à noite e tenhamos os nossos olhos na estrada, logo o suficiente para conseguirmos conduzir, não prescindimos por esse motivo dos nossos ouvidos que nos dão um som estranho que indique uma avaria, ou do nosso olfacto, que mesmo pobre, ainda assim é suficiente para nos indicar qualquer cheiro a queimado, etc. Não se desliga um sentido, porque não se pode nem se deve. Os peixes têm um arsenal de armamento para garantir a sua sobrevivência, e utilizam-no todo! Encontrar comida, companheiros, detectar predadores, é trabalho que é feito com tudo o que há e …por vezes não chega. 

Utilizar jigs à noite não é errado. Deveria ser encarado com a mesma naturalidade com que se utilizam iscas orgânicas durante o dia. A forma e técnica de pescar é que deve ser diferente, e por isso nem todos os pescadores conseguem resultados. 
Fisiologia do peixe: pode ou não pode ver os nossos jigs à noite? Os peixes têm uma visão que não difere muito da nossa, também eles têm uma retina com cones e bastonetes. Embora o globo ocular seja diferente, as suas lentes são mais esféricas que as nossas, e por isso conseguem um nível de desempenho no meio liquido melhor que o nosso. A nós humanos, debaixo de água, tudo nos parece maior e mais perto. O globo ocular do peixe tem um cristalino de lente esférica enquanto que nós temos uma lente achatada. Também é verdade que aquilo que eles conseguem ver, tendo na maioria das espécies visão a cores, são diferentes escalas de cor a cinzento, graduação mais clara ou mais escura, conforme a aproximação das cores ao padrão total branco ou total preto. Já aqui no blog vimos isso, um castanho é perto do preto, um amarelo é próximo do branco. Se imaginarem uma escala de 0-10, 0 para branco e 10 para preto, conseguem lá meter uma data de cores, por aproximação. Nós humanos ajustamos o foco dos nossos olhos mudando a forma das nossas lentes, contraindo ou descontraindo músculos ópticos, mas os peixes apenas conseguem afastar ou aproximar essas lentes da sua retina. Isso não faz de nós melhores nem piores, cada espécie tem as adaptações de que necessita para poder sobreviver. Se temos um volume de cérebro que nos ajuda a pensar, também é verdade que um miserável cachorro vadio “pensa” menos mas corre mais que nós, e não parte os dentes a roer um osso…
Um peixe menos dotado para a vida nocturna, tende a ficar imóvel, quer a meia água, quer junto ao fundo, quer encostado a uma estrutura, algas ou rochas, que lhe permita algum tipo de protecção. Se não for encontrado nessa noite, não é comido, logo, tem o dia seguinte para continuar a lutar pela sua vida. Algumas espécies, menos bem defendidas por falta de armadura, (leia-se espinhos, veneno, etc), optam por afundar a cotas em que estão a salvo de muitos dos predadores de superfície. Para isso, obviamente têm de evoluir no sentido de ter uma visão mais adaptada a um mundo sem luz. Normalmente a adaptação é feita no sentido de ganhar um centro óptico convexo, que apanha mais luz do que uma óptica plana ou côncava. A adaptação evolutiva de algumas espécies possibilita-lhes fugir a determinados predadores, pese embora os coloque à disposição de outros. Grosso modo, poderíamos considerar que os peixes epipelágicos, aqueles que vivem em águas superficiais até aos 200 metros de fundo, terão de preocupar-se sobretudo com predadores que vivem da sua visão para caçar. Abaixo disso, as preocupações são outras. Espécies que vivem por baixo da zona escura do oceano, onde a luz do sol não chega, abaixo dos 600 metros, e que por isso não permite a fotossíntese, estão adaptados a uma vida que os obriga a ter olhos desmesuradamente grandes, que captam qualquer pequeno raio de luz. Existem inúmeros organismos marinhos que emitem luz, e para aqueles que não o sabem, a quantidade de fósforo existente na água permite fazer luz por atrito. Experimentem à noite, bem no escuro, a passar uma mão rapidamente pela água do mar, e vão ver se não aparecem centenas de partículas luminosas agarradas à vossa mão, a deixar um rasto como se fosse um cometa: é fósforo a brilhar. 

A abrótea, um predador essencialmente nocturno, tal como o safio, que também come de dia se a ocasião se proporcionar. Esta caiu num pequeno polvo que tinha vindo agarrado à minha isca, na baixada anterior, dois minutos antes. 


Se quiséssemos pescar com isca orgânica, tudo seria mais fácil, porque teríamos o poderosíssimo sentido do olfacto a trabalhar a nosso favor, que em combinação com a linha lateral chega e sobra. Mas não com jigs….
Ainda assim é possível capturar peixes que estão a caçar à noite. Teremos é de adaptar a nossa técnica a esse factor, a ausência de luz. Recapitulando, as possibilidades dos peixes, sem recorrer à visão, serão as seguintes: olfacto, audição, e linha lateral, essa estranha forma de sentir que nos faz confusão porque não a temos. 

Uma bonita raia que resolveu aparecer-me num pesqueiro a norte do Espichel. Estes peixes têm muita actividade nocturna.

Os predadores nocturnos têm mecanismos que lhes permitem identificar a localização e tamanho das suas presas. Para além da sua capacidade visual acrescida, olhos grandes preparados para ver no escuro, têm, como já vimos, outros sentidos muito eficazes. Cada um procura explorar as suas vantagens. As lulas comem e são comidas, entre si, em autênticos actos de canibalismo, o peixe-espada é rei no seu ambiente, e um predador muito activo. Todos eles estão perfeitamente adaptados ao tipo de vida que têm de fazer para se manterem vivos. Algumas espécies fazem migrações verticais para caçar. Abaixo da zona fótica a visão deixa de ser uma prioridade e passam a ser utilizados outros sentidos. Frequentemente têm olhos pequenos e podem até não os utilizar. Isto é particularmente importante para entendermos qual a táctica que deve ser utilizada quando pescamos com jigs à noite: Desde que não tenhamos interferências externas, luzes de cais, portos, barcos, etc, ou seja, considerando a ausência de luz, os sentidos que iremos explorar são todos menos a visão. Esta é a última a entrar em jogo. Muitos peixes têm uma camada reflectiva especial na zona posterior do olho, uma espécie de espelho. Esta membrana espelhada permite reflectir luz que já passou dentro do olho para a retina, e que aumenta consideravelmente a habilidade do peixe para ver em ambientes de pouquíssima luz. Esta camada espelhada é aquilo que faz com que determinadas espécies, quando sujeitas ao foco de uma luz intensa, apareçam com os olhos em cores vermelhas, ou rosadas.

O cantaril, espécie que podemos capturar na nossa costa dos 150 a 500 metros de fundo, é um habitante de zonas escuras. Reparem no tamanho do seu olho…


E que peixes preferem a noite para procurar alimento? Quais serão mais frequentes? A considerar na pesca nocturna costeira temos os habituais predadores de buraco, os safios, os meros, as abróteas, as fanecas e uma miríade de outros mais pequenos que encontram no coberto da noite as condições para serem bem sucedidos. Também sabemos que a noite é um período particularmente bem aproveitado por peixes como a dourada, o robalo, a corvina, para acercar-se das praias, e comerem onde não podem comer de dia, nomeadamente as praias que estão cheias de veraneantes. À noite tudo muda, locais desertos à luz do sol passam depois a ter muita vida. Forçosamente teremos de concluir que também os nossos pargos não serão diferentes dos outros predadores: se tiverem oportunidade, claro que também comem à noite. 
No Mediterrâneo, quando a luz cai por completo, peixes insuspeitos como as desconfiadas douradas tornam-se activos, atacando jigs, adoptando comportamentos que acharíamos estranhos à luz do dia. Mas ali, e dada a escassez de alimento em geral, os peixes têm comportamentos diferentes dos nossos. O ataque a jigs é corrente, porque as douradas têm muito menos mariscos para comer do que as nossas douradinhas portuguesas. Não há ondulação que mexa as águas, que transporte comida em suspensão, e as marés são insignificantes, logo não há forma de alimentar mexilhão, perceves, cracas, etc. E por isso as espécies residentes procuram pequenos peixes também. Não é por acaso que atacam os jigs….
Em águas bem mais profundas, 400 a 900 metros, o nosso peixe-espada desperta, sobe na coluna de água e ataca tudo o que mexe. Os espadartes sobem à superfície e utilizam os seus argumentos bélicos para investir contra os cardumes de peixe miúdo, ou para comer lulas que nesse período sobem à superfície. A última vez que lancei uma amostra a um peixe destes, …foi há dois dias. Infelizmente estaria a passar a cerca de 80/ 90 metros do barco, que estava fundeado, e eu não conseguia mais que 60 metros com a amostra que tinha, uma Magnum Surger da Smith, de 52 gramas. É corrente vê-los durante o dia, à superfície, a apanhar sol. Na verdade, a situação tem pouco ou nada de diversão pura: os espadartes estão ali para que a luz solar e o calor obrigue os parasitas a descolar do seu corpo. 
Há peixes que sofrem um horror com isso. Os peixes de buraco, como por exemplo os meros, safios, as abróteas, estão todos eles cravados de parasitas. 

E porque é que os peixes comem muito nuns dias e pouco ou nada nos outros? Já aqui falámos de ciclos de alimentação. Há momentos em que o peixe tem o estômago cheio, a boca cheia a deitar por fora, e continua a comer. Noutras alturas, recusam tudo o que lhes oferecemos. 
O factor alimentação, sendo particularmente decisivo, (é o meio de captação de energia de que o animal dispõe), tem mais ou menos importância consoante a época do ano: em período de formação das ovas e sémen, as gónadas, e no período que antecede a chegada das águas frias, que exigem maior consumo de energia. Estes são dois períodos em que o peixe está mais predisposto a comer tudo o que encontra. Outros momentos do ano serão menos dados a este acréscimo de necessidade de comer, este frenesim alimentar. Assim, teremos a considerar a época do ano, e o momento do dia, ou seja, o ciclo diário de alimentação, que tem a ver com o estado da maré. Não me parece que este tema seja um exclusivo dos peixes de mar. Também há ciclos de alimentação em água doce, mesmo não existindo marés. 
Recordo-me de estar na Lapónia e de ouvir um pescador local dizer-me: ”aqui nos nossos lagos, os peixes, porque estão debaixo de uma camada de gelo de 50 cm, pelo menos, no escuro, reduzem o metabolismo ao mínimo, sendo que temos dias em que só lhes notamos 10 a 15 minutos de actividade durante todo o dia”. Faz sentido. Também é notório que estes peixes, pelo menor aporte de alimentação, têm um crescimento muito lento, muito mais reduzido que os seus congéneres do sul da Europa, onde as mesmas espécies crescem muito mais e mais depressa. Se quiserem, necessitam de menos anos para atingir um determinado peso. Baixar o metabolismo significa também reduzir ao mínimo a actividade, o peixe deixa de se mover, de despender energia em tudo o que não seja manter as funções vitais. Falaremos um dia sobre a movimentação dos cardumes, em função das marés. Aquilo que gostaria que retivessem era o seguinte: os nossos peixes de fundo deslocam-se, quer ao longo do dia quer da noite, (o principio de funcionamento das redes de emalhar assenta nisso mesmo) mas não fazem deslocações de quilómetros. O peixe que está por debaixo do nosso barco durante o dia pode, se tiver costa perto, deslocar-se às praias para comer, mas falamos de centenas de metros, não de longas distâncias, não de muitos quilómetros. Em pesqueiros ao largo, o peixe que pescamos durante o dia não se vai embora para casa quando chega a noite, porque ali onde estamos, …ele já está em casa. Recordo-me dos meus tempos de pescador de rio, em que, nos momentos de maior calor no Alentejo, acima de 40ºC, as carpas tinham uma actividade essencialmente nocturna, picavam desalmadamente no escuro, e quando chegava o raiar do dia, paravam e recolhiam às zonas mais sombrias, normalmente debaixo de ramos de árvores, locais menos expostos aos raios de sol. À noite tudo muda. 
Tudo gira sempre à volta do mesmo: segurança, alimentação, reprodução. Não necessariamente por esta ordem. A ordem prioritária destes factores depende da altura do ano. 

José Freire com uma abrótea pescada à noite com caranguejo. 


Tudo se alimenta, de uma forma ou de outra. Peixe grande come peixe pequeno e todas as espécies estão dependentes desse equilíbrio, dessa luta diária de comer e não ser comido. 
A transição do dia para a noite e vice-versa existe. Há algumas diferenças de comportamento do peixe. Se estamos numa zona de sargos grandes, notamos um acréscimo de actividade. Se estamos numa zona de robalos, sabemos que o pôr-do-sol é um momento crítico. O nascer do sol traz-nos oportunidades de peixes que algumas horas mais tarde não conseguiremos fazer com facilidade, ou não fazer mesmo. Por vezes, este período de actividade restringe-se apenas a alguns minutos. No caso dos sargos de grande porte, é muito marcado, são dez minutos e acaba logo que passam a ter luz suficiente para detectar as nossas linhas. 
De qualquer forma, esse balanço entre o dia e a noite não é sempre tão vincado quanto aquilo que poderíamos pensar. Há uma zona cinzenta, e que passa sempre pelo aproveitamento de oportunidades. Quero dizer com isto que já vi espécies ditas nocturnas a atacar as iscas a meio do dia, e já pesquei peixes supostamente diurnos a comer, e bem, de noite. Termos um dia cinzento, ou com nevoeiro, ajuda a prolongar a noite, pela ausência de luz no fundo, e a ter contacto com peixe que de outra forma seria mais esquivo. Todos sabemos que durante o Verão os robalos têm períodos de alimentação muito bem demarcados, e que correspondem nalguns casos a poucos minutos, 15 a 20, e a partir daí acabou. Comem e descansam. No fundo, aproveitam as oportunidades no momento certo, e a partir daí sabem que não vale a pena. Exploram as limitações das suas presas até ao tutano, e quando deixam de ter vantagens, repousam. 

Ainda assim, o âmbito deste trabalho é a pesca para além desse período crepuscular. O objectivo é a pesca na noite mesmo noite, com ausência quase total de luz. 
Não vou considerar a questão da lua, porque isso traria ainda mais um factor de perturbação. E não me parece a mim que seja um factor determinante. 
Trouxe-vos aqui a minha opinião sobre este tema há uns meses atrás, quando vos disse que me parecem muito mais importantes as movimentações das marés, a maré cheia versus maré vazia, do que os ciclos noite/ dia. Não tem a ver com a lua cheia, ou a falta de lua, tem a ver com a maré e o ciclo alimentar. Não tem a ver com calendário, com ser sexta-feira ou segunda, ser princípio de mês ou fim, os peixes não têm isso, tem a ver com o contínuo ciclo de alimentação, que não é necessariamente interrompido pela chegada do crepúsculo. Há peixes que começam a comer exactamente quando o sol se põe, e continuam a sua vida pela noite dentro. Outros têm uma actividade nocturna muito prevalente e em dias mais escuros, de chuva, de nevoeiro, de céu carregado, prolongam o período de alimentação. 

Robalo pescado por mim no Sado, muito cedo, logo ao abrir dos primeiros raios de luz, num dia de vento tremendo. Reparem na linha lateral do peixe, perfeitamente marcada do opérculo até à cauda. É esta linha que eles utilizam para detectar a nossa amostra. 


Sabemos que a disponibilidade do peixe para morder os nossos anzóis, depende em grande parte da sua necessidade de alimentação. Não é sempre igual. É algo que muda ao longo do ano, sendo particularmente reforçada antes da altura da desova, e antes da chegada das águas frias de Inverno. O peixe em Setembro, Outubro e Novembro, antecipando dificuldades futuras, alimenta-se freneticamente, procurando acumular as gorduras de que vai necessitar na invernia. Com águas frias, nos 12, 13ºC, o peixe reduz o seu metabolismo ao máximo possível, para poupar gorduras, garante de sobrevivência. Com águas quentes, acima de 18ºC, assistimos a uma explosão de actividade que é independente de ser dia ou noite. Recordam-se de vos dizer que não devemos querer humanizar os nossos peixes, dotá-los de hábitos humanos, porque eles não reagem assim. Temos uma tendência nata para querer que tudo pare e durma quando estamos a dormir. Para nós, tudo deve seguir o nosso ritmo circadiano. E não é assim! 

João Magalhães com uma abrótea pescada a meio da noite. Estes peixes são essencialmente nocturnos, não sendo no entanto difícil conseguir um a meio do dia, desde que tenham alguma quantidade de água em cima, em locais mais profundos. No fundo, com menos luz… 


Voltando à questão da pesca com jigs e em jeito de conclusão, ela é possível, claro que sim, mas devemos dar ao peixe mais tempo para que consiga ter a possibilidade de detectar, movimentar-se no espaço e atacar o jig em tempo útil. Devemos pescar mais lento.
Não adianta sermos rápidos, como faríamos durante o dia pescando a espécies como os lírios, que adoram correr atrás da amostra, porque não vamos conseguir picadas. A noite é um momento em quem os praticantes de slow-jigging deverão obter mais resultados do que os adeptos de speed-jigging. Dar tempo ao peixe permite obter mais ataques. Também a profundidade a que se pesca pode ser determinante, a escolha criteriosa dos locais, das próprias amostras. Um jig lento, ou seja, mais achatado e menos comprido, terá inegáveis vantagens. Também as cores escuras, e por estranho que vos pareça, têm vantagens sobre cores claras. Esta é a experiência que fica depois de inúmeros contactos com quem prefere pescar à noite, e de experimentar eu próprio a pesca nocturna. Na verdade, pescar no escuro tem o charme de algo místico, diferente, o sentido de aventura que muitas vezes falta durante o dia. Muitos peixes apenas saem à noite, e isso só por si já é um estímulo a tentarmos a pesca durante este período. 

Também no mar podemos passar bons momentos, conversando com colegas de pesca, contemplando a luz da lua reflectida na água calma. No fundo desfrutando das coisas simples da vida. 


Para esta análise, refiro-me concretamente a um tipo de pesca embarcada feita ao largo, em pedras onde o peixe está activo, a comer, na hora certa da maré, em escuridão absoluta. 
Teria uma abordagem diferente se tivéssemos de considerar a pesca de jig casting, a partir da costa, porque aí é quase impossível que não existam luzes de terra que possam interferir neste raciocínio. 
Todos sabemos que durante a noite, é um clássico ir pescar carapau junto aos focos de luz dos portos. A luz atrai microrganismos marinhos e deixa-os disponíveis a peixes como o carapau, a cavala. Atrás desses vêm as bailas, os robalos, etc. 
Quer queiramos quer não, a ausência de luz junto a terra é quase impossível. Somos demasiado activos enquanto espécie para permitirmos o escuro absoluto. 
De resto, e por brincadeira, interferimos negativamente na vida de outras espécies por isso mesmo: os pirilampos fêmeas reproduzem-se cada vez menos porque necessitam do escuro da noite para atrair os machos. Vão ter de se adaptar…ou acabam enquanto espécie. 

Mais do que apontar soluções e dizer como se pesca, a preocupação é mesmo a de vos dotar de elementos de análise para que possam vós próprios tirar as vossas conclusões, para que possam pensar aquilo que estão a fazer, quando pescam. 
Muito provavelmente voltarei a este tema, abordando a questão da deslocação da embarcação à noite, os ruídos, a utilização de luzes, etc. Há questões legais, tal como a proibição de utilizar luzes na pesca à linha, há riscos associados à navegação sem instrumentos, …pode ser interessante.


Nota: podem complementar esta informação com o texto publicado a 03.04.20. Concretamente tem a ver com a percepção que os peixes têm das cores
Também a 21.04.20 foi publicado um artigo sobre a audição dos peixes, que pode ser útil para que entendam o fenómeno da pesca do ponto de vista das capacidades dos peixes corresponderem ao que nós exigimos deles: que piquem. 



Vítor Ganchinho



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